A
CONFISSÃO AINDA É NECESSÁRIA?
É fato que nas últimas décadas o uso da confissão
sacramental tem diminuído muito. Não faltam iniciativas de bispos, padres,
líderes leigos, assim como de teólogos, para encontrar novas formas de
apresentar este sacramento, mostrando sua importância para os fiéis. Porém,
pergunta-se: tem surtido resultados positivos? Também eu, refletindo sobre a
questão, quero ajudar com uma pequena contribuição.
Muitos fiéis se perguntam por que devem se confessar, uma
vez que não se consideram culpados? Provavelmente ainda têm em mente que a
confissão é necessária quando se fez um pecado mortal. E, isso não vem ao caso
deles. Apesar de não saberem o que caracteriza um pecado grave (mortal) - transgressão
de um mandamento de Deus; saber do que se trata; e, fazê-lo com pleno
consentimento -, julgam não o cometer tão facilmente.
Também existem ideias negativas da confissão que vêm de
tempos passados: medos diante do sacerdote (que era muito conhecido, e as vezes
exigente demais), imposições dos pais e educadores, ameaçando com castigos
(“Deus vai castigar você!”), e coisas assim.
O que é a confissão?
Sem dúvida, a confissão é um dos sete
sacramentos, instituídos por Jesus Cristo, entregue aos discípulos. É o
sacramento do perdão dos pecados e da cura. Porém, antes de tudo, a confissão é
encontro com Jesus, o Deus conosco (Emanuel). Aliás, em cada sacramento há
encontro com Cristo. O sacerdote age na pessoa de Cristo “in Persona Christi”;
Cristo no sacerdote, seu servo.
Em uma primeira reflexão, sugiro o nome de “Jesus” como
promessa de salvação de Deus. No anúncio do nascimento de Jesus, se diz: “tu
lhe porás o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt
1,21). Jesus significa “Deus salva”, “Deus cura”. É justamente o que se busca e
acontece na confissão. Jesus, o Bom Pastor, quer salvar e curar a todos;
procura a cada um, principalmente os que estão perdidos. Deus, em Jesus, desce
até onde o maior pecador se encontra. Por isso, a confissão não é uma ida ao
juíz, porém ao Salvador; não àquele que condena, mas ao que salva. Assim como
confiamos em um médico nossas dores, também devemos confiar a Jesus todas as
nossas misérias; e ele certamente vai nos recuperar, e fazer a festa da
reconciliação. Perdoado, o ser humano está novamente em condições de recomeçar
a sua vida. Defronte a este Deus, o de Jesus, não há medo nem temor. Ele nos
abraça antes mesmo de lhe expressar nosso arrependimento.
O evangelista Mateus, retomando Isaías 7, 14, apresenta
Jesus como o Deus Conosco – Emanuel (Mt 1,23). Isto se concretiza plenamente em
Cristo: desde a encarnação Deus não é mais aquele que está sentado no trono,
mas aquele que anda conosco; também quando estamos desiludidos e desanimados
(cf. Lc 24,1-35). Sempre novamente é Jesus que se volta para os pecadores.
Pensemos no encontro com a samaritana no poço de Jacó, com Zaqueu, o cobrador
de impostos, com a pecadora que chora a seus pés. Jesus não condena estas
pessoas, contudo oferece-lhes o amor misericordioso de Deus. Estes encontros
transformam as pessoas.
Da mesma forma, Jesus-Emanuel quer se encontrar com cada
um de nós pecadores. Sua presença amorosa se faz mais necessária quanto maior é
nossa miséria, maior nosso pecado. Até mesmo quando todos nos abandonam, ele
não se afasta de nós, está sempre ao nosso lado. A tentação do pecador é achar
que não é mais merecedor da presença de Jesus, todavia não é o pecador que
merece, mas é o amor de Deus que vem ao seu encontro gratuitamente.
A Confissão como abraço
de Deus
O nome de Jesus e o Emanuel podem ser a chave de um novo
entendimento da Confissão. Não se trata de ir a um julgamento, porém ao
encontro de alguém que nos quer presentear com amor ilimitado. Para o penitente
e para o sacerdote é preciso estar cientes que em primeira linha se trata do encontro
entre Deus e o ser humano. O pecador chega a Jesus e lhe confia seus pecados
pedindo perdão. O sacerdote é aquele pelo qual Jesus dá seu perdão
misericordioso. Mesmo que Deus possa dar seu perdão sem intermediários, o ser
humano necessita do sinal sensível que é justamente a absolvição sacramental.
Absolvição significa: Jesus salva, ele, o Emanuel, que está sempre com você.
Não podemos nos perdoar a nós mesmos. Mas o perdão nos é presenteado. Sem
perdão seremos massacrados pelos pesos de nossas culpas. Cristo é aquele que
pela confissão nos liberta de todos os pesos e nos dá novamente a alegria dos
filhos de Deus. Aproveitemos o “tempo favorável” – que é hoje! – e nos deixemos
abraçar por este Deus que sempre está com os braços abertos para acolher seus
filhos que retornam.
Pe. Mário Fernando Glaab.
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