RELIGIÕES E
VIOLÊNCIAS
Religiões e violências: veneno, remédio ou vacina? Este
foi o tema de 38º Congresso Internacional da Soter, realizado em Belo Horizonte
em julho passado. Tema muito pertinente, apresentado e discutido por teólogos e
cientista da religião sob os mais diversos enfoques. Foi, sem dúvida, um marco
para a história destes assuntos.
Sem nenhuma pretensão em apresentar a riqueza dos
assuntos aí apresentados e discutidos, faço apenas algumas considerações que
para mim são muito importantes, e que podem igualmente servir para outros que
se interessam por estas questões. As conferências, todas elas feitas por eminentes
especialistas na área, caracterizaram-se pelos diversos pontos de vista, teólogos
e cientistas da religião católicos e de cristãos em geral, de origem indígena,
africana, budista e hindu. Ao final de cada conferência, havia riquíssimos
debates. Os debates, com frequência, enriquecem muito mais a temática tratada
do que a própria conferência em si.
Violências
Violências no plural, isto porque se ilustrou uma enorme
quantidade de violências que surgem ou surgiram nos mais variados tempos e lugares.
É, portanto, um conceito bastante ambíguo, mas que não deixa de ser negativo. Não
dá para escapar: sempre houve formas de violências que se “justificaram” pelas
religiões. Também hoje acontecem violências pelo mundo afora que possuem
justificativas religiosas.
Pergunta-se se isso é da própria religião, ou então é
“uso da religião”? Enquanto uma religião produz ou incentiva violências, seja
da forma que for, pode-se falar de veneno. É necessário admitir que nas
sociedades há venenos e venenos espalhados; alguns mais fortes, outros mais
fracos, porém alguns se difundem com rapidez assustadora.
Remédio
Ficou igualmente claro que os remédios contra as mais
variadas violências nas sociedades, frutos das religiões, estão presentes, e,
às vezes muito eficazes. Aliás, por vezes, certas iniciativas parecem em
primeiro momento ser venenos, porém depois se percebe que são remédios. Têm sua
eficácia agindo aos poucos.
Não há dúvida de que as religiões produzem muito remédio
para a harmonia e a boa convivência humana. Em todos os tempos as diversas
religiões deram para a humanidade muitos e bons remédios, dando sentido para a
vida, para o sofrimento e até para a morte. Sem estes remédios, não seria
viável a sobrevivência na história da humanidade.
Vacinas
As vacinas são prevenções. O princípio vacinal é criar no
corpo anticorpos para prevenir diante de um possível invasor. De mesma forma,
das religiões emanam vacinas que previnem diante de possíveis violências. Conforme
os princípios de cada religião, eles esclarecem a seus seguidores como resistir
diante dos ataques venenosos aos quais podem estar sujeitos. Esclarecem,
fortalecem e dão ensinamentos de como se comportar nas crises da vida, para
assim, tendo princípios religiosos, sair vitoriosos. Estas “vacinas” produziram
e produzem muitas defesas diante dos ataques e violências que o mundo faz
continuamente.
Minha conclusão
Todas as religiões enquanto religiões, entendidas em sua
originalidade, procuram o bem. Crenças que querem o mal pelo mal não podem ser
consideradas religiões, mas anti-religiões ou não-religiões. O grande problema
é o mau uso das religiões.
Sempre há aqueles que se aproveitam da fé de uma religião
para tirar proveito e enganar as pessoas mais vulneráveis. Assim foi, é e será!
Se já no Antigo Testamento na tradição judaica, se encontra entre os
mandamentos um que diz “Não pronunciarás em vão o nome do Senhor teu Deus (Ex
20,7; Dt 5,11), isto quer dizer que Deus e a religião não devem ser servos dos
seres humanos, mas pelo contrário, o ser humano é servo deles.
Desta forma, quando nos defrontamos com violências que
parecem ser frutos das religiões, é preciso ver a fundo, se não são
consequências de interesses de alguém ou de alguns grupos que tiram proveito
para si. Alguém vai dizer que muitas injustiças são justificadas pela fé de uma
religião, inclusive “guerras santas”, porém precisa-se ir analisar a questão. O
princípio último da fé de uma religião é o mal?! Com certeza não!
É verdade que na teologia e no estudo dos fenômenos
religiosos há muito que fazer. Para a grande maioria dos crentes ainda não há
clareza de sua fé. É preciso que se entenda que uma verdadeira religião ou fé
não pode ficar fechada em um mundo restrito, porém deve se abrir para a
humanidade toda. Somente assim se entende que todos estão interligados, e que
todos descendem de um mesmo princípio, que nós chamamos Deus. As religiões
procuram este Deus, religar o ser humano a Ele, e deste modo, não podem produzir
violências. Sempre que há violências, é preciso afirmar com todas as letras,
“não é ação religiosa verdadeira”!
Procuremos conhecer bem a nossa religião, procuremos
conhecer as religiões dos outros; e mais do que isso, procuremos juntos
combater toda e qualquer violência, mesmo que pareça vir da fé. Violência não é
fé, mas não-fé, é perversão.
Pe. Mário Fernando Glaab.