A
IGREJA HUMILDE, MAS GRANDE E JUBILOSA
A Igreja, em todos os tempos de sua existência, foi e é
tentada a ser forte, numerosa, aparecer poderosa diante do mundo; e quem sabe,
até em impor suas leis aos que não são de seu grêmio. Mas será este mesmo o
desejo de Jesus, seu fundador? O Espírito que conduz a Igreja inspira estas
buscas? É sobre isso que pretendemos refletir, a partir da situação atual, em
que a Igreja está em um mundo tão diversificado e também tão confuso.
Igreja dos Panos
Penso não ser desrespeitoso para com ninguém, ao usar
esta expressão, “Igreja dos Panos”. Porém, sem julgar as intenções latentes em
quem busca estas coisas, justo se faz refletir. Se em todos os tempos existiu a
busca de aparecer, não tanto mostrar o Cristo, mas aquele que deve apontar para
Ele; parece que ultimamente surgiu uma onda muito forte, principalmente no
clero jovem, de se “enfeitar” e aparecer como o tal. Chamar muito a atenção
sobre si ao invés do Cristo.
Basta visitar certas celebrações, mesmo em capelas do
interior, para presenciar verdadeiros “desfiles” de ministros com paramentos,
túnicas, alvas, casulas; utensílios para o altar etc. que não condizem com uma
“Igreja pobre”, de tantos irmãos e irmãs de nosso imenso Brasil. Frequentemente
certos ritos parecem mais espetáculos do que sinais do mistério que devem
expressar. Por que tudo isso?
Será isto um meio para se testemunhar o Evangelho e a
pessoa de Jesus Cristo, aquele que não teve medo e vergonha de ser despojado de
tudo por amor a humanidade pecadora? Confesso que não sei! Às vezes sou tentado
a me questionar: será que, quando se tira toda esta parafernália, o mistério
ainda permanece. Cristo e sua mensagem estarão ainda aí?
É certo que se deve ter bom gosto nas coisas sagradas,
porém isto, segundo eu penso, não deve obscurecer o verdadeiro sentido do
sagrado. Vem-me muito forte em mente um canto que, em anos passados, fruto da
“opção preferencial pelos pobres”, cantávamos, e que foi retomado pela CNBB –
Regional Sul 2 na via-sacra de 2026, que assim diz: “Seu nome é Jesus Cristo e
está sem casa, e dorme pelas beiras das calçadas. E a gente quando vê, aperta o
passo e diz que ele dormiu embriagado. Entre nós está e não o conhecemos. Entre
nós está e nós o desprezamos”. Penso eu que todo este aparato pode anestesiar a
mente e o coração diante de tantas situações concretas onde o Cristo se faz
presente no pobre e no desprezado, que não tem nem sequer condições de
participar de certas celebrações em nossas igrejas. Se fosse criaria até um
mal-estar nos demais, nos “empanados”.
A vitória de Cristo e da
Igreja
Cristo venceu o mundo, sim; porém sabemos como: amando
até o fim. Isto lhe exigiu doação total. Não pode ficar com nada, nem mesmo com
sua vida. Só assim chegou à Ressurreição. Também a Igreja, seus ministros e seu
povo, é chamada a ser vencedora, triunfante, contudo, isto significa seguir os
passos de seu Mestre Jesus, na doação total, até a cruz, para então chegar à vitória
triunfante.
O Papa Francisco insistia muito sobre este aspecto da
Igreja: ser pobre como Cristo foi pobre. Porém o Papa Bento XVI, que era de uma
cultura bem diferente que Francisco, disse o seguinte: “A Igreja de Cristo é
sempre humilde e precisamente por isso é grande e jubilosa” (Bento XVI dando
respostas a sacerdotes, Perguntas e Respostas, p. 146). E, falando de
sua experiência particular, sabendo que era um amante da teologia, a uma certa
altura ele afirma o seguinte: “A Teologia é bela, mas a simplicidade das
palavras e da vida cristã é indispensável. E assim eu me perguntava (quando era
jovem): Serei capaz de viver tudo isso e de não ser unilateral, apenas um
teólogo, etc.?” (Bento XVI falando aos jovens de Roma, Perguntas e Respostas,
p. 50).
Se substituirmos “teólogo” por “ministro do sagrado”, penso
que poderemos nos interrogar da mesma forma, “apenas um ministro sagrado”.
Conclusão
Há tanta coisa bela e boa em nossas celebrações
litúrgicas, em nossas comunidades, que talvez não chamam muito a nossa atenção.
Porém, quem tem olhos para ver, ouvidos para ouvir e principalmente sentidos
para tocar, este verá e sentirá que a Igreja também hoje, mesmo que não se
mostre tão rica e cheia de “panos” do mais fino tecido, na sua humildade e simplicidade
segue o Cristo no caminho do Calvário, esperando o Reino da Vitória que há de
vir do alto.
Quando o Cristo-Juíz vier, certamente não irá perguntar quais
as pompas que você tem, mas quais os irmãos necessitados que acolhestes com
amor e carinho? A que Igreja pertencestes: à Igreja do Povo santo e pecador,
pobres de todos os tipos; ou à Igreja do luxo, da riqueza, da aparência e dos
“panos”?
Entre nós está e não o conhecemos...! “Todas as vezes que
fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!”
(Mt 25, 40).
Pe. Mário Fernando Glaab.
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