sábado, 14 de novembro de 2020

ANO NOVO, VIDA NOVA.


PERDOAR E RECOMEÇAR

 

            O fim do ano está aí; um novo ano se anuncia. Sabemos muito bem que numerar os anos é uma conveniência. O tempo sempre continua, ou melhor, nós continuamos no tempo. E na verdade, somos nós que dizemos que 31 de dezembro é o último dia do ano velho e 1 de janeiro é o primeiro dia de um novo ano. As coisas continuam no seu ritmo, sem levar em conta se é fim ou início de ano.

            No entanto, para nós que estamos no tempo, é ao menos oportuno fazer uma reflexão sobre o tempo que passou, o tempo que se chama hoje e, o tempo que virá (esperamos que para todos nós!).

 

Olhando para trás

            Não temos dúvida de que este ano que está se findando foi atípico. Trouxe muitos desafios e dificuldades para praticamente todos nós. Tivemos a surpresa assustadora da pandemia com todas as suas consequências. Muito sofrimento, dor, separações, mortes etc. Isto se refletiu nos relacionamentos familiares, laborais, eclesiais e, em toda a sociedade.

            Não podemos esquecer que a nível mundial aumentou o número de refugiados e de pobres em muitos países. Humilhações de todos os tipos; até as atitudes racistas cresceram. Em nosso Brasil, ao invés de se buscar convivência pacífica, o ódio, a violência, a mentira, a corrupção (até em ambientes religiosos) o descalabro com o meio-ambiente e com os grupos minoritários cresceram demais!

            Se por um lado nos sentimos obrigados a agradecer por estarmos bem, ou ao menos estarmos aqui, podendo viver e aguardar um novo ano; por outro lado precisamos tomar consciência dos nossos erros, pedir perdão e tentar perdoar.

            Este é o tempo que chamamos “hoje”. É hoje que olhamos para trás e para frente, mas com os pés no chão; uma vez que o passado já se foi, o futuro ainda não veio, mas o presente está aqui. Olhar para o futuro com esperança faz bem, e é necessário ter confiança em Deus e nas pessoas de boa vontade. Porém de nada vale tudo isso, se no presente não tivermos a coragem de corrigir o que no passado não deu certo, o que não foi bom.

 

Perdão

            É muito difícil pedir perdão, e mais ainda, perdoar. Na verdade, somente quem ama de fato sabe fazer isto; ao ponto de se afirmar que perdoar é divino. Nós cristãos aprendemos que o amor é uma virtude infusa por Deus (teologal) em nossos corações quando nos tornamos filhos dEle no dia de nosso batismo.

            Em sua nova Encíclica, Fratelli Tutti, o Papa Francisco ensina que “se o perdão é gratuito, então pode-se perdoar até a quem tem dificuldade de se arrepender e é incapaz de pedir perdão” (FT 250). Sábias palavras! Isto é possível somente para quem sabe ser pecador e, que se humilha diante de Deus com o coração contrito, acolhe gratuitamente Seu perdão. Sabe que não o merece, mas que é por pura graça do amor sem medida do Deus Amor. A partir dessa experiência – possível somente na caridade – é que se pode perdoar a quem nos ofendeu; mesmo, como diz o Papa, se ele tem dificuldade de se arrepender.

            Portanto, façamos hoje o esforço para nos abrir à experiência do amor misericordioso de Deus, e, a partir dele, pedir perdão a todos, também à natureza, ao meio ambiente, por todo bem que deixamos de fazer, por toda ofensa que fizemos; imbuídos do amor de Deus, perdoar a tudo, aos que nos ofenderam, mas também aos acontecimentos que não nos agradaram. Assim poderemos nos programar para um novo tempo, para o que desejamos a nós e aos outros no novo ano.

 

Recomeçar

            Nada melhor para recomeçar é ter presente o que já se foi, o que se vive hoje, para planejar o amanhã. O amanhã a Deus pertence, mas quem está nas mãos de Deus pode e deve sonhar com um amanhã sempre melhor. Quanto mais nós nos abrirmos ao amor de Deus, tanto melhor será o nosso futuro. Isto se faz num contínuo diálogo com Deus, com as pessoas e com o mundo que nos cerca. Todos devem ter o seu lugar e merecer o devido respeito. Sem diálogo sincero e respeitoso nada se faz e nada se consegue.

            Em um mundo tão violento e disseminador de ódio, onde se coloca a confiança nas armas que matam, termino com mais uma citação do Papa Francisco: “Armemos os nossos filhos com as armas do diálogo! Vamos ensinar-lhes o bom combate do encontro! ”. (FT 217). Não podemos esquecer que a violência (armas) gera violência, mas o amor (diálogo) cura e salva.

Pe. Mário Fernando Glaab.