sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Ave Maria - A oração que mais fazemos


ALEGRA-TE, CHEIA DE GRAÇA

            A oração que nós mais dirigimos à Mãe de Deus se inicia com as palavras: “Alegra-te, cheia de graça; o Senhor é convosco”. Esta oração nós repetimos muitas vezes em nosso costume de rezar. Ela está baseada nas palavras do anjo Gabriel quando traz o anúncio a Maria, segundo o evangelista Lucas (Lc 1,28). Sobre Maria, o texto diz que ficou perturbada, pensando no significado daquela saudação. Nós queremos com ela refletir sobre o que podemos entender quando pronunciamos estas palavras.

Alegra-te
            Quando se trata dos preparativos e da vinda de Jesus, os mensageiros sempre falam de alegria. Assim disseram a Zacarias “ficarás alegre e feliz“ (Lc 1,14), e aos pastores “eu vos anuncio uma grande alegria” (Lc 2,10). É importante notar que desde o princípio o Mensageiro deixa claro para Maria que se trata de uma “alegria”. Mais tarde, ela canta o seu hino que mostra a felicidade do seu sim a Deus (Lc 1,46-47). Nós somos convidados a nos alegrar com Maria, agora no Advento, e sempre quando fazemos esta prece. Sempre de novo, ao rezar e ao expressar nossa devoção à Mãe de Jesus, nós nos colocamos diante do Senhor que vem. Ele é o motivo da alegria de Maria, e o há de sê-lo igualmente para nós.

Cheia de graça
            O Anjo não saúda Maria com o seu nome, mas dirige-se a ela usando o termo “Agraciada”, ou cheia de graça. A ninguém é dado este título na Sagrada Escritura, a não ser somente a Maria, “a Serva do Senhor” (Lc 1,38). Só ela merece ser chamada assim. Eis a razão da alegria que somente ela experimenta. Mas de onde vem o “agraciada”, e que sentido tem? Deus te agraciou. Este é o sentido último.
            Também Isabel deixa transparecer este sentido ao dizer que Maria é “Bendita” (Lc 1,42). Deus a abençoou. Pelo Anjo e por Isabel podemos ver que Deus agraciou e abençoou Maria e, a graça e a bênção são a identidade dela. Maria agradece e atribui tudo ao Senhor, mas este agiu de maneira muito particular nela.
Serviço amoroso por e para Deus
            O Novo Testamento fala somente mais uma vez em outra passagem sobre “agraciados”. Na carta aos Efésios encontra-se: “... para o louvor de sua graça gloriosa, com que nos agraciou no seu bem-amado” (Ef 1,6). São João Crisóstomo explica que Deus não nos libertou somente de nossos pecados, porém também nos tornou capazes para o amor. Deus capacitou e ornou nossas vidas para o amor serviçal. Nós podemos conformar nossa vontade com a de Deus.
            O que a carta aos Efésios diz se aplica a todos os que em seu Filho Jesus Cristo Deus escolheu como filhos seus. Todos eles foram, por pura graça, assim eleitos. Podem viver na graça. Maria é, no entanto, simples e diretamente saudada pelo Mensageiro de Deus como “a Cheia de Graça”. Ela toma consciência de que antes de todos os demais, foi ela a assim enriquecida por Deus para a sua vocação que é única também. Ela é sempre a serva do Senhor e isto atrai sobre si o olhar amoroso de Deus. Maria atribui tudo a Deus, seu Salvador.
            Nosso louvor a Deus se presta ao reconhecer as maravilhas realizadas em Maria. A Igreja, em sua longa tradição teológica, nos ensina que Maria é a Imaculada Conceição; aquela que sempre está sem pecado e totalmente à disposição do amor de Deus, por ser a Serva.

O Senhor é convosco
            Essa afirmação não é única de Maria, mas é dita a outros que têm uma missão a desempenhar. Assim a Moisés (Ex 3,12), a Jeremias (Jr 1,8.19), e outros. Mas a saudação do Anjo a Maria é pessoal – diretamente a ela e em vista dela -, para estabelecer uma relação entre Deus e Maria em vista da alegria de seu coração.
            Ao rezar tantas vezes “cheia de graça”, queremos, nós, maravilhados e alegres estar conscientes de estar falando desta relação toda singular entre Deus e sua Serva. Que esta oração e reflexão nos façam um pouco mais servos, graciosos e alegres. Maria, cheia de graça, rogai por nós!
Pe. Mário Fernando Glaab

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Natal Cristão


O NATAL E OS POBRES

            Existem dois natais. Um é o natal que se comemora com festas, presentes, com enfeites e até com abusos de toda sorte; que é fruto do consumismo exagerado. Outro é o Natal cristão que se volta para o Menino que nos foi dado: o mistério da Encarnação do Verbo de Deus na pessoa de Jesus de Nazaré, e que é celebrado na fé, na esperança, e principalmente no amor.

Natal pagão
            O natal criado pelo consumismo é o natal pagão. Não tem nada, ou ao menos, muito pouco, de haver com o Natal cristão. Ele valoriza o prazer, o ter e o consumo exagerado. Por isso, não tem escrúpulos em descartar tudo o que impede de alcançar estas coisas. Quem não pode competir, é excluído. Os pobres e os sofredores são “apagados” das imagens desse natal, pois as luzes o fazem brilhar como se fosse de um outro mundo, um mundo de fantasia.
            Este mundo que celebra o seu natal é tão perverso que, para não estragar o seu esplendor, incentiva as pessoas a se desculparem – desencargo de consciência -, fazendo alguma obra de caridade em prol dos miseráveis. Se o pobre tiver uma cesta básica no natal ele não estraga o brilho da rica ceia dos abastados pagãos. Durante o resto do ano não lhes interessa saber se ele tem algo para matar a sua fome; o importante é que ele não perturbe a festa do natal do consumo e da festa. Eles precisam comemorar.
            A figura que mais caracteriza este natal pagão é o Papai Noel com seu saco enorme, sortido de ricos presentes, trazendo alegria para as crianças e para os adultos. Jesus, quando aparece, não é o pobre que nasceu em Belém, mas uma criança envolta em luzes, em um romantismo que nem de longe lembra o acontecimento do nascimento entre os animais por não haver lugar na hospedaria.

Natal Cristão
            O Natal que os cristãos comemoram é bem outra coisa. Ele traz para a nossa realidade e nosso tempo o mistério do Deus Encarnado na pessoa de Jesus de Nazaré. A história daquele casal que não é acolhido em Belém e que deita o recém-nascido em uma manjedoura é celebrada na fé, na esperança e, principalmente no amor-gratidão. Gratidão a Deus, porém traduzido no compromisso para com todos os não-acolhidos de hoje. Natal Cristão sem compromisso não existe. Ele até faz festa, dá presentes e enfeita a casa; mas não fica nisso. Ele transforma interior e externamente as pessoas. Isto porque o Natal de Jesus não fica no passado, mas é hoje. É hoje que no cristão Deus se volta para os desvalidos da história dando-lhes vida; e, esta vida passa pelos cristãos. Os cristãos são hoje os feitores do Natal.
            Para o cristão o Natal de Jesus é muito mais do que uma recordação do que aconteceu há dois mil anos lá em Belém. É a comemoração do mistério da Encarnação de Deus na história e na geografia da humanidade. Isto somente é possível para quem tem fé, pois ultrapassa longe a lógica dos sábios e dos poderosos deste mundo. O Natal aponta para a manifestação mundial da bondade de Deus. Quem sabe ler além das imagens do presépio pode contemplar o rosto de um Deus que se mostra bondoso com o mundo todo. Se naquele Menino está Deus (Ele é Deus), então o mundo é amado por Ele, pois Ele está aí, no mundo da maneira mais humilde possível. Ninguém é afastado dele. Mas, mais ainda, este que nasceu no Natal, aceitou ser rejeitado, condenado e crucificado! O cristão, já no Natal, entrevê a morte por amor deste que nos foi dado. Na entrega total de Jesus, Deus abrange tudo, e manifesta assim, a sua Verdade, a sua Beleza e a sua Majestade. O amor de Deus é verdadeiro (o Natal não é teatro), é belo (é coerente e sincero), e é serviço para todos.

Jesus e os pobres
            Não é possível celebrar o Natal sem levar em conta os pobres. Alguém diz, todos somos pobres! É verdade, mas existem os que são pobres de modo diferente, do jeito de Jesus.
            Se Deus em Jesus se fez pobre e viveu entre os pobres de todos os tipos, como podemos nós não falar dos pobres e dos excluídos ao falar do Natal? Mas, afinal, quem são os pobres? Alguém que muito refletiu sua fé em Jesus de Nazaré e conviveu sempre com os pobres assim explica: “Pobres são aqueles para os quais a vida é uma carga pesada, pois não podem viver com um mínimo de dignidade” (Pagola), justamente para os quais veio o Deus Encarnado. Resumindo, os pobres são os que morrem antes do fim da vida! Portanto, é impossível não levar em conta tantos irmãos que são pobres ao comemorar o Natal Cristão.
            Até pode ser possível falar de Cristo, de um Cristo desencarnado, glorioso que reina na nos altos céus, sem se referir aos pobres, mas tratar de seu nascimento, sua vida e morte na história de um povo sem levar em conta estes últimos, simplesmente é inaceitável. Falar de Cristo, o Senhor lá do céu, aquele que cuida sempre de mim e resolve todos os meus problemas, é fácil; mas falar com seriedade do Homem-Deus, Jesus de Nazaré é, no mínimo, comprometedor. Jesus certamente resolverá minhas situações mais complicadas, mas, à medida em que me faço seu seguidor, ele me faz sair de mim mesmo e ir ao encontro do outro, do necessitado. Isto me liberta; isto me renova e me realiza como ser humano. Não é a fuga do problema que resolve, mas o enfrentá-lo. É a cruz abraçada e carregada que leva à ressurreição. Jesus de Nazaré foi crucificado não por ter feito mal a alguém, mas pelo contrário, por ter feito o bem àqueles que os ricos, os poderosos e os religiosos da época julgavam culpados de sua triste sorte.
            Se quisermos colaborar para que o mundo seja um pouco mais humano deveremos forçosamente deixar que o Natal Cristão seja um encontro com Jesus, o Deus Pobre, e, a partir dele descobrir a presença salvadora do amor de Deus lá onde estão os últimos de todos. Sem Jesus, poderemos continuar falando de Cristo e festejando o natal pagão, mas nunca introduziremos no mundo o potencial humanizador de Jesus de Nazaré, que é o Deus Conosco, o Salvador do mundo.
            Sejamos cristãos de verdade: testemunhemos que o Natal é cada dia e em cada lugar, mas especialmente lá onde as pessoas são mais odiadas, excluídas, perseguidas e mortas. Lá está o Filho de Deus Encarnado, Crucificado e Ressuscitado; lá deve estar também o verdadeiro cristão.
Pe. Mário Fernando Glaab.


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

São José e a Família


Família Divina e Família Humana
O Pai e São José

            Na piedade popular surgiu ultimamente grande devoção ao Pai Celeste, assim como também, já por pouco mais tempo, a busca pelo Espírito Santo despertou nos movimentos da Igreja, e mesmo fora dela. Deus Filho, na pessoa de Jesus de Nazaré, sempre foi o centro do cristianismo; e não pode deixar de sê-lo. Porém, é bom dar uma olhada nestas outras descobertas.

Deus é Família
            Normalmente, quando dizemos algo sobre a Trindade Santa, usamos a concepção humana de família. Afirmamos que Deus Trindade é Família porque temos experiência do que vem a ser família a partir daquilo que nós vivemos concretamente no relacionamento com nossos pais, irmãos, cônjuges, filhos e parentes. Ao proceder assim, atribuímos à Família divina algo do que é próprio nosso; mas talvez poderíamos ir por outro caminho.
            Na verdade, as nossas famílias são fruto da “personificação” da Família Divina. É a partir da Trindade que podemos sonhar com famílias, da forma como Deus as sonhou e quer. Veremos. Por ser Família a Trindade vem ao encontro da família humana. Tendo preparado tudo, conforme seu plano de amor, Deus Trino escolhe uma família pobre, humilde, do povo, sem importância, trabalhadora e piedosa, que muito ama; para lá se manifestar. É a família humana de Jesus, Maria e José de Nazaré. Nazaré é uma vilazinha desconhecida da geografia e da história. Nesta família de Nazaré, tão humana que, com certeza, é manifestação do divino, e em sequência em cada família que se funda no amor, a família divina se revela.

O Pai e São José
            O Pai do Céu é o Mistério por excelência. É a fonte e o princípio sem princípio. Como falar dele? Ele não fala, mas envia sua Palavra, que é o Filho, que o revela.
            Na família humana encontramos a expressão desse mistério fontal na figura de São José. José é alguém adequado ao mistério do Pai. José é igualmente uma figura misteriosa: ninguém sabe de onde veio nem como viveu e como morreu. Não falou; apenas sonhou e trabalhou. Era o carpinteiro e o camponês de seu lugar e de sua época. O sonho é a linguagem própria do mistério mais profundo. Podemos apenas imaginar um pouco do “sonho” do Pai e do “sonho” de José. Jesus diz que o seu Pai sempre trabalha (Pai criador providente de todas as coisas); José trabalha e serve a seu Filho e sua Esposa. É neste pai terreno que o Pai do Céu quis se personificar.
            Assim como o Pai se revela no Filho, pobre, simples e servo de todos; também São José está a serviço de sua família, a Família de Nazaré; modelo para todas as famílias pobres, simples e a serviço da vida, e revela um pouco do mistério do Pai. Ele é o patrono da Igreja doméstica, da Igreja dos humildes, dos trabalhadores, da grande parte da humanidade e dos cristãos. Diríamos hoje, é o patrono dos excluídos, dos marginalizados, das minorias, dos pobres, dos negros, dos índios, das mulheres abandonadas pelos seus maridos, dos injustiçados, esquecidos e de todos os que clamam por vida e dignidade.
            Jesus de Nazaré “experimentou” o mistério de seu Pai no dia-a-dia com o pai José. José, por ser o escolhido do Pai e ser o “servo fiel”, aponta constantemente ao mistério de Deus. Jesus soube ler e interpretar este mistério em seu pai José, justamente por ele estar pleno do amor do mesmo Deus e Pai. Em São José, mas igualmente em todos os pais que amam, o Pai divino continua a estar no seio de nossas famílias. Quem tem um Pai divino tão próximo como nós temos? Sejamos agradecidos ao Pai celeste e a São José, e sejamos defensores de nossas famílias. Lá experimentaremos um pouco do que é ser membro da família de Deus.
Pe. Mário Fernando Glaab

sábado, 6 de outubro de 2018

Uma resposta para o mundo.


COMUNHÃO, RELAÇÃO E AMOR

            Comunhão, relação e amor são palavras que não chamam muito a nossa atenção. Isto porque são muito usadas, mas na verdade, não são entendidas em profundidade. Fala-se delas como se fossem algo tão comum: alguém está em comunhão com o outro porque concorda nisto ou naquilo; tem relação porque faz algum negócio; e, ama porque gosta de alguma qualidade ou tem algum interesse. A mentalidade que cada vez mais se impõe na sociedade é totalmente contrária à profundidade destes termos.

Individualismo, ganância e ódio
            Basta abrir os olhos para ver que cada vez mais cresce o individualismo, a ganância e o ódio ao invés de comunhão, relação e amor. Isto chega a nos surpreender, pois deram um jeito de manipular a tal ponto nossas consciências de apresentar estes males como bens. O individualismo é defendido como causa de sucesso: quem cuida de si, este prospera, quem não o faz, é culpado de sua derrota; quem busca sofregamente ter mais, este é louvado, porque sabe trabalhar (mesmo que passe por cima de qualquer princípio de justiça), sabe investir, quem não o faz é vagabundo e pobre por sua própria culpa; quem odeia os bandidos é bom, mas aquele que vai ao encontro dos caídos à beira da sociedade egoísta, este é um deles! Assim soa o novo evangelho da sociedade capitalista e liberal. Esta sociedade tem a seu favor os grandes meios de comunicação que tem um poder imenso para fazer “as cabeças”, e mais ainda, para fazer “os corações”. Explicando melhor: de confundir as cabeças e de endurecer os corações.
            Analisando o comportamento de muitas pessoas percebe-se um crescimento assustador desses sentimentos que são destruidores da comunidade humana. Mesmo gente que foi educada nos valores humanos e cristãos desde a infância, como família, sociedade e Igreja, deixa-se encantar pelo anúncio dos falsos valores. E, quando toma consciência (se é que ainda tem capacidade para isso), já está totalmente viciada.

Resposta cristã
            Contrariamente ao que muitos pensam, o cristianismo não é uma doutrina moral que dá alguns bons conselhos, mas é Revelação de um Deus que é Comunhão, Relação e Amor. Este é o mistério do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A partir desse mistério se pode dizer algo sobre o ser humano, seu projeto de vida e sobre a criação como um todo. Estamos falando do mistério central da fé cristã: Deus-Trindade. O Pai Criador; o Filho Salvador; o Espírito Santo Santificador. É próprio da essência do Deus cristão se revelar como Pai Criador, que cria por amor para estabelecer comunhão entre todas as suas criaturas. Para isso chama o ser humano para colaborar nesta obra. Revela-se como Filho que se encarna na carne humana para ser o caminho, a verdade e a vida, estabelecendo assim um relacionamento amoroso, no qual oferece a salvação ao homem perdido por sua própria culpa. Revela-se como Espírito de Amor para conduzir, para iluminar e para dar força a todo aquele que de boa vontade procura o bem e quer evitar o mal.
            Portanto, o cristianismo tem, também hoje, algo a dizer para o mundo. Ao invés de concordar com a mentalidade de morte que se apresenta como a saída para os fortes, ele aponta, a partir da fé no mistério do Deus que é Criador, Salvador e Santificador, para a comunhão, a doação sem limites e o amor até as últimas consequências. A fé cristã, que não é, insisto, tradição sem compromisso, mas testemunho do Deus Uno e Trino, assume também hoje, diante do mundo injusto, corrupto, excludente e que despreza os mais fracos, os valores da vida, da justiça, da igualdade e da fraternidade. A fé cristã continua a ensinar que quando se olha para qualquer ser humano, seja ele o mais humilde, o mais desprezível, o doente, o idoso, o escravo, o preso, a criança que ainda nem nasceu, enfim o pobre, nele Deus-Trindade está nascendo. Deus fez nele o seu templo. Mas dá para cada um a tarefa de se deixar envolver por este mistério: descobrir que a Trindade Comunhão-Doação-Amor não está distante, acessível apenas para iniciados, mas lá onde estão os últimos, nas periferias da existência.
            Deus Trindade continua a se revelar para nós e para o mundo, também hoje, mas precisamos estar atentos para não passar ao largo sem percebê-lo, como fizeram o sacerdote e o levita na história que Jesus contou; e como a grande mídia nos convida a fazer. Deixar-nos compadecer, como fez o samaritano.
Pe. Mário Fernando Glaab

sábado, 8 de setembro de 2018

Céus e Terra em Deus


Um Deus para o Mundo e um Mundo para Deus

            É verdade o que se diz: “O mundo sem Deus está perdido”, ou “Estas coisas (violência, corrupção, injustiças...) acontecem por falta de Deus no mundo”, ou ainda, “Precisamos colocar tudo nas mãos de Deus”. Porém, estas afirmações merecem algumas considerações. Será que existe distância entre Deus e o mundo, um aqui, outro lá; pode existir um mundo sem Deus? O que fazer para que volte de novo a ter harmonia entre os dois?

Somos da terra e do céu
            Nós, seres humanos dotados de consciência, é que fazemos perguntas assim. Às vezes nos sentimos demais da terra, outras vezes demais do céu. Da terra, quando julgamos que todas as situações de impasses daqui de baixo devem ser enfrentadas com as capacidades e forças que adquirimos ao desenvolver nossas dimensões humanas. Do céu, quando confiamos demais em forças do alto em detrimento de nossas iniciativas aqui da terra; às vezes sonhando com um futuro no além que nos deixa acomodados diante das questões mais complicadas deste mundo. É também verdade que o mundo pode prender, e que o céu pode alienar. Todavia, para que isso não aconteça deve haver equilíbrio. Um justo meio. Nós somos de Deus, mas somos do mundo; somos espirituais, como corporais; somos santos e somos pecadores.
            Da mesma forma deve-se entender que somos do céu e somos da terra. Não podemos ficar somente no céu, pois isto nos abstrai de nossa história concreta onde nascemos, crescemos e vivemos; como também não podemos ficar somente na terra, pois assim perderemos o rumo de nossa existência. Que sentido tem uma vida – mesmo que bem sucedida – se no fim tudo acaba na doença e na morte? Portanto, somos da terra e somos do céu. Estamos de pé: os pés bem fixos no chão da existência histórica, no mundo das contradições e acertos; mas com a cabeça na altura, apontada para o céu. É de lá que vem a luz e a coragem para continuar a caminhada. Não é possível caminhar se não se está na posição correta: os pés no chão e a cabeça no alto. Todo o resto do corpo está em meio aos pés e a cabeça; e tudo avança harmonicamente.

Novos Céus e nova Terra
            O cristianismo, a partir da tradição judaica, espera “novos céus e nova terra”; uma realidade nova onde Deus mesmo está “na” terra. Ali ele fixa sua morada, e tudo será transformado. Já não haverá mais alienação nem fixação no egoísmo, pois tudo será recriado conforme o plano do Criador. A criatura assumirá sua condição de criatura e não mais dominará sobre sua igual. Haverá paz e verdadeira igualdade. Deus será tudo em todos.
            Talvez, ao invés de dizer que se precisa um Deus para o mundo, ou um mundo para Deus, seja melhor está outra visão: deixar que Deus e mundo se unam cada vez mais. Assumir cada vez mais no mundo a presença de Deus. A esperança dos novos céus e da nova terra fazem a história de hoje ser história nova, pois já brilha no horizonte a grande Novidade. Mesmo que ainda existem muitas ambiguidades, uma vez que a história é limitada, já existe a certeza da esperança que está transformando o mundo e a história da humanidade, hoje. É o “já, mas ainda não” da esperança cristã que orienta a história de Deus com o Mundo por Ele criado e por Ele conduzido, até chegar ao Fim Definitivo: a glória de Deus e a glória do Mundo.

Unidade no Espírito
            Esta reflexão pode parecer abstrata, uma vez que nossa concepção de Deus e de Mundo são tão antagônicas. No entanto, não podemos esquecer de que o Espírito de Deus foi derramado sobre o Mundo; e, a partir de então, tudo será possível. Ele está no Mundo, apesar de o Mundo não o querer. Toda a criação é permeada pelo Espírito de Deus. Sua intervenção é criadora e consumadora. É o modo como Deus e o próprio Senhor Jesus entram na história e a impulsionam para o seu fim.
            Portanto, a unidade entre Deus e Mundo não é construída por forças humanas, mas pela própria força do Espírito de Deus. Nós, os seres humanos com todos as criaturas, colaboramos nesta obra maravilhosa livre e espontaneamente. Que cada um faça a sua parte nesta grande obra da criação que vem das mãos amorosas de Deus Criador, Salvador e Consumador.
Pe. Mário Fernando Glaab.

sábado, 28 de julho de 2018

Indiferença hoje - egoísmo


ESPERANÇA EM TEMPOS DE INDIFERENÇA

            Estamos em tempos de indiferença. Fala-se até da “globalização da indiferença”. Cada um tem seus interesses particulares e se fecha egoisticamente em seu pequeno mundo. Isto afeta a fé, a religião, a ética a política, enfim, toda a vida. Ainda é possível falar da esperança cristã nesta situação?

Esperança, fé e amor
            Não se pode viver a esperança cristã, uma das virtudes teologais, sem fé. Ou ainda vale dizer: ela não é demonstrável, não se pode provar, como um mais um é dois. Ela vai além das experiências puramente empíricas. Também as pessoas com esperança são atingidas pela onda da indiferença, do “salve-se quem puder”. Ninguém vive fora do mundo. Mas, como então viver a esperança?
            Isto somente será possível à medida em que se fundamente a vida na fé. Fé em Deus que antecipa, em sua promessa amorosa, aquilo que de fato ainda não se possui. Assim a esperança vai além do que se pode provar. Isto lhe é dado pela fé. Mas, como esta esperança vivida na fé pode ser compartilhada num mundo tão fortemente golpeado pelo egoísmo, pelo indiferentismo? O único caminho é juntar à esperança e à fé a terceira virtude teologal, o amor. No amor a Deus e no amor concreto ao próximo, como a toda a criação, a esperança se torna certeza e, é possível ser compartilhada com os demais, com toda a criação. No amor tudo é antecipado: Aquilo que se espera já se faz presente; mesmo que de forma imperfeita. Não há dúvida de que o amor ultrapassa as barreiras do egoísmo, mesmo que as pessoas ainda sofrem as consequências das inúmeras formas em que ele se apresenta.
            Por outro lado existe, no entanto, a necessidade da boa vontade nas pessoas que hão de interpretar os sinais de esperança no mundo da indiferença. Sem a boa vontade, nada se consegue. Poder-se-ia até dizer que somente lá onde há um mínimo de boa vontade a fé, o amor, e a esperança são revelados, são experienciados. O mundo não consegue ver esta realidade, mas ela é revelada aos pequenos e simples; aos puros de coração.
            A partir de Jesus, que amou até o fim, sabe-se que o amor abraça a cruz; e que a cruz leva ao julgamento. Diante dela, da cruz, todos deverão se decidir: a favor ou contra, aceitá-la ou rejeitá-la. À medida em que se foge da cruz cai-se no egoísmo; à medida em que se assume a cruz (de Jesus) liberta-se para o amor, e consequentemente à esperança verdadeiramente cristã. Espera-se o que ainda não se possui, não das próprias forças, mas do Deus que ressuscitou Jesus de entre os mortos.

Religião, ética e política
            Mesmo que a tentação de se fechar diante dos desafios do mundo pós-moderno seja grande para qualquer religião, o cristianismo não pode deixar de assumir sua função profética de denúncia e de anúncio. Hoje, mais do que nunca, o Evangelho deve ser Boa Notícia para este mundo do indiferentismo. Anunciar o Evangelho é missão da Igreja de Cristo.
            O Evangelho ilumina igualmente a ética dos povos, assim como sua política. Ética e política, valores hoje tão deformados em nossa sociedade, precisam ser permeadas da luz evangélica. Caso contrário, a globalização e a mercantilização da sociedade devorarão a dignidade e a vida de todos. Ética se baseia nas leis justas e na ordem para qualquer civilização; política busca o bem comum de todos. Sem o tempero da fé, da esperança e do amor, que a religião fornece para a sociedade, tanto a ética como a política se perderão nos labirintos do egoísmo. Assim como estas virtudes ultrapassam os limites próprios deste mundo, levam para o além sem deixar de estar neste mundo; também a missão da Igreja recobre as duas dimensões, a religiosa e a temporal. Sua missão é sempre evangelizadora: é evangelicamente que a Igreja faz política. Não faz política politicamente. É por razões evangélicas e éticas que a Igreja intervém quando a sociedade pisoteia os pobres, os pequenos, os miseráveis. Por isso ela condena qualquer corrupção, abuso do poder, injustiça ou mentira.

Novo começo
            Olhar para o mundo sem fé, sem esperança e sem amor é assustador. Confiar nos poderosos, nos sábios e nos ricos leva certamente ao abismo, ao fim de tudo. Porém, existem sinais de outra realidade: existem tantas pessoas que na simplicidade, na pobreza, na insignificância, e até no medo, ainda confiam e lutam por um mundo melhor, mais justo, mais fraterno e solidário. Pessoas que deixam o Evangelho regar a secura de suas vidas. Existem pessoas que não fazem alarido mas que vão ao encontro dos caídos à beira do caminho; existem os que não perguntam sobre o que levou a cair, não perguntam sobre o passado do caído; somente estendem a mão para ajudar a levantar. Existem aqueles que confiam em Deus e por isso agem.
            O Papa Francisco – grande sinal de Deus para o mundo – convida a humanidade toda para um novo começo mediante uma radical conversão ecológica, isto é, mudar a maneira de ver as coisas, todas as coisas. Não mais com olhar interesseiro, não mais fundado na vontade de poder-dominação-conquista, própria do mundo egoísta e corrompido, mas no cuidado responsável por tudo o que existe e que vive.
            Que nunca nos faltem a fé, a esperança e o amor; e que possamos colaborar para que a humanidade recomece uma nova história. História onde tem lugar para todos. Que as religiões, a ética e a política sejam para o bem de todos os povos, hoje e sempre.
Pe. Mário Fernando Glaab.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Igreja "com Espírito"


IGREJA EM SAÍDA E NOVO PENTECOSTE

            Mais do que nunca, hoje, nos tempos do Papa Francisco, a Igreja é desafiada a sair de si mesma para cumprir sua missão no mundo. A necessidade de um “Novo Pentecostes” para a Igreja é tema recorrente, desde o Vaticano II, mas agora, com Francisco, a questão toma novo vigor. Ele critica os hierarcas, mas também os fiéis em geral, que não têm coragem de se abrir para o mundo e de ir onde estão as pessoas com suas alegrias e suas dores, seus anseios e suas angústias. A Igreja não deve chamar a atenção sobre si mesma (autorreferencialidade), porém precisa ser presença de Cristo em todas as periferias da sociedade e do mundo. Esta é a ordem que recebeu de Cristo antes de subir ao Pai.

Trabalhar com Espírito
            Francisco fala da evangelização lembrando que os cristãos devem sempre trabalhar “com Espírito”. Esta expressão ensina que não basta ter qualidades ou boa vontade; mas que é preciso estar “possuído” pelo Espírito Santo. Isto é possível para os evangelizadores que “rezam e trabalham”; aqueles que se deixam transformar interiormente. A própria evangelização é a oração, e vice-versa. Sem esta união profunda entre a oração, abertura ao Espírito, e trabalho, dedicação ousada, não existe anúncio eficaz da Boa Nova de Jesus Cristo. O Papa escreve: “Do ponto de vista da evangelização, não servem as propostas místicas desprovidas de um vigoroso compromisso missionário, nem os discursos e ações sociais e pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração” (EG 262).
            Os discípulos, ao receberem o Espírito Santo no Pentecostes, saíram imediatamente para fora. Para fora do lugar onde estavam, mas também para fora de si mesmos. Transformaram-se em anunciadores das maravilhas de Deus com muita ousadia. Igualmente hoje a Igreja necessita de anunciadores ousados que trabalhem com Espírito. Por isso, como dizem os bispos no documento de Aparecida, há necessidade absoluta de um Novo Pentecostes para a Igreja na América Latina e no mundo, para que assim, convertidos “em uma Igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora, temos que ser de novo evangelizados e fiéis discípulos” (Ap. 549).

“Saída”: Por quem, para onde e por quê?
            A proposta de Francisco merece ser aprofundada para não ficar no abstrato, só na teoria. Perguntamos: Quem precisa sair? Para onde deve sair? E, por que deve sair? À luz destas perguntas pode-se descer para algo bem mais concreto. Veremos:
            Há na Igreja uma tentação que, quando não é combatida, acaba com todo o trabalho pastoral. Trata-se do clericalismo. Ele se verifica no clero, mas também em meio aos leigos. É aquela ideia de que a Igreja é a Igreja dos clérigos, e, daqueles que estão diretamente ligados a eles. Tudo depende deles, uma vez que eles são uma classe especial; pois são mais treinados no saber teológico e na santidade. O clericalismo é uma doença que busca desenfreadamente o poder e a fama. Separa do povo comum. Também leigos pensam e agem “clericalisticamente”; são como “super-leigos” pelo fato de se julgarem iniciados em caminhos clericais.
            A Igreja em saída com Espírito, é a Igreja toda: pastores e leigos. Não temos como separar uns dos outros. Cada um tem sua missão no corpo clerical, mas ninguém tem o direito de se fechar na sacristia. Certamente cabe ao clero ir adiante para os campos do mundo onde acontece a vida; mas lá eles não estão sozinhos, pois é o lugar próprio dos leigos. E, como lembra o Papa Francisco, o pastor sabe ir à frente do rebanho, outras vezes caminha com ele, e ainda, conforme a situação, segue atrás. Então, nada de separação ao perguntar quem deve sair: todos, Igreja Povo de Deus.
Para onde? Para onde houver vida humana. A vida é o dom mais precioso da criação de Deus, e, a Igreja tem a missão de torná-la viável. Jesus diz que veio trazer vida para todos, e a Igreja, como sacramento de Cristo não pode negar sua tarefa de continuar fazendo o que Jesus fez. Lá onde a vida é mais ameaçada a Igreja deve estar mais presente para ser fiel ao seu Mestre.
            Por quê? Consciente do dom gratuito recebido de seu Senhor, a Igreja leva vida a todos sem nada esperar em troca. Nenhum interesse, somente a partir da experiência do encontro com a misericórdia de Deus em Jesus Cristo, o Salvador da humanidade. A alegria de compartilhar a fé, a esperança e o amor.
Concluindo
            Somente uma Igreja “com Espírito” pode trazer um novo Pentecostes para o mundo. A Igreja desejada por Francisco é uma Igreja pobre para os pobres, isto é, uma Igreja livre para ouvir a voz de seu Senhor e dizê-lo a todos. As riquezas amarram e não deixam a vida se desenvolver. Elas têm o seu próprio “espirito”, o espírito do da não-vida para todos.
            Portanto, neste ano do laicato, a grande chamada é para que todos, leigos e ministros ordenados, se conscientizem que é o Espírito que conduz a Igreja, e que ela deve ser dócil aos seus apelos de sair com coragem para as periferias onde a vida é massacrada, esquecida e morta. Todos devem dar gratuitamente do que receberam, pois o Espírito quer renovar a face da terra. Quanto mais a Igreja se envolve na defesa da vida de todos – a começar pelos mais pequeninos -, tanto mais ela cumpre sua missão recebida de Jesus de Nazaré que é levar a Boa Notícia da presença amorosa de Deus entre toda a humanidade. Lá onde está a vida, lá está o Deus de Jesus Cristo.
Pe. Mário Fernando Glaab