sábado, 2 de março de 2019

Conversão Quaresmal.


QUARESMA: TEMPO DE VOLTAR PARA DEUS E PARA O IRMÃO

            Não resta dúvida que nós, seres humanos, estamos sempre em tensão entre o bem e o mal. Enquanto estivermos nesta terra, a luta continua. Na história há luzes e sombras, e ninguém de nós é só portador de bem; acompanha-o sempre a sombra do mal. E por isso, necessitamos momentos fortes que nos facilitem o retorno para o bem: para Deus e para o irmão. A quaresma é um tempo especial para esta conversão.

Opção consciente pelos valores do Reino
            Para os cristãos a conversão consiste em optar pelo Reino de Deus, anunciado e inaugurado por Jesus de Nazaré. Este é o Bem por excelência: Deus com o seu povo. Conversão é uma opção consciente para a bondade, para a luz e para a graça; coisas que apontam para a plenitude. Isso já se realizou plenamente em Jesus. Contudo, em nós o reino do pecado ainda tem os seus poderes nefastos. Precisamos nos colocar do lado de quem o venceu para sermos igualmente vencedores com ele. Estar do lado de Jesus e do Reino de Deus implica em ser parecido com ele, em sair de si e estar diante de Deus que vai ao encontro de todas as suas criaturas, principalmente dos mais pobres e vulneráveis. Optar pelo Reino é optar pelo irmão. A fraternidade é o grande valor do Reino. Não é possível conversão sem fraternidade! “Onde está o teu irmão?”.
            Quanto mais fraternos formos, mais críticas e incompreensões teremos. Basta olhar para o Homem de Nazaré. Ele que só quis o bem, sucumbiu à sanha do mal. Enfrentou dois processos: o religioso e o político. Foi condenado por ambos! Porém, não se furtou dos valores que defendia; e defendeu até o momento derradeiro. Hoje não é muito diferente. Quem pretende ser como Jesus de Nazaré será incompreendido (e perseguido) por muitos, até por autoridades políticas e religiosas. Quaresma é um tempo para se pensar nisso à luz da Palavra de Deus, da própria Palavra feito carne, Jesus, o Cristo. Ele tem muito a nos ensinar.

Aceitar os limites
            As horas, os dias e os anos passam. Sempre de novo ouvimos dizer que é preciso mudança de vida, dizer não ao mal e dizer sim ao bem: se converter. Mais uma quaresma, mais uma Campanha da Fraternidade, como tantas outras. No entanto, tem-se a impressão de que o antirreino ainda surge mais forte. Percebemos que, apesar de tantas iniciativas, ainda não conseguimos nos desvencilhar totalmente das maldades. Somos tão limitados e, diante das tentações, frequentemente cedemos.
            É necessário aceitar os limites de nossa condição humana. Lutar com perseverança, sem nunca desistir. Como fez Jesus? Aos terríveis sofrimentos físicos se somaram os espirituais: a tentação do desespero. O Pai parecia estar longe: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). Porém, ele se entregou ao Mistério. Não entendeu mais nada! O Abba não responde! Onde este Ele agora?! Todavia, se entrega: “Dando um grande grito, Jesus expirou” (Mc 15,37). Mesmo morrendo a pior de todas as mortes, ele continua a confiar em Deus.
            Jesus aceitou todos os limites, o sofrimento e o abandono total, desceu até o inferno do abandono de Deus, seu Pai. Não deixou de confiar. Cabe a nós contemplar este trágico espetáculo, assumir a causa de Jesus, e, confiar até o último instante. Os limites nossos, de nosso próximo, da natureza e dos acontecimentos da história certamente nos desafiarão. Seremos tentados por todos os lados. Mas se continuarmos a caminhada no seguimento do Divino Mestre, com toda certeza, haveremos de ver a vitória da Ressurreição. Mesmo que a vida nos prepare amargas surpresas, se nos mergulhar na escuridão, se não sentirmos mais a palma da mão de Deus, ou até perguntarmos “Deus existe de fato?”, ainda poderemos e devemos confiar, pois são os limites que nos afligem, mas que não são mais fortes que o amor de Deus.

Quaresma com Jesus e com o Irmão
            Então, não faz nenhum sentido se preocupar com isso e com aquilo, se pode fazer ou não fazer certas coisas durante a quaresma; se tudo isso não for em vista do retorno a Deus e ao Irmão.
            No dia a dia ninguém está livre da tormentosa travessia pelo “vale de lágrimas”. Porém, o cristão sempre tem diante dos olhos a vida, a paixão, morte e a ressurreição de Jesus Cristo; e esta lhe dá coragem para avançar rumo aos valores do Reino. A consciência disso se reaviva na quaresma, enriquecida entre nós pela feliz iniciativa da Campanha da Fraternidade.
            Em palavras bem simples, conversão é um voltar para Deus e para o Irmão: pensar com Jesus, sofrer com Jesus, suportar a escuridão com Jesus, sentir o abandono com Jesus, descer até a última solidão da alma com Jesus. Aí perseverar e esperar que alguma luz venha de algum lugar que só Deus conhece. Perseverando nessa travessia conheceremos o destino último de Jesus: a irrupção de um sol que não conhecerá mais ocaso, uma vida nunca mais ameaçada pelo sopro da morte. Saberemos o que significa Ressurreição.
Pe. Mário Fernando Glaab

sábado, 29 de dezembro de 2018

Pela nossa família à Família Divina


SAGRADA FAMÍLIA: MISTÉRIO TRINITÁRIO

            Nada mais misterioso e mais revelador do que a Sagrada Família, a família de Jesus, Maria e José. Tão misterioso que mal podemos pensar ou dizer algo sobre ela: são muito poucas as palavras que os evangelistas usam para falar dela. Porém, por outro lado, por trás do mistério, eles nos apresentam o rosto do maior mistério, o da Santíssima Trindade, que se comunica para toda a humanidade em “linguagem” humana familiar.

Maria, a serva do Senhor
            As coisas que sabemos desta mulher são tão poucas que não é possível reconstituir sua história. São apenas algumas informações vagas. Nada sobre sua família, seu dia-a-dia, seus costumes, seu relacionamento com os vizinhos... Tudo o que sabemos está relacionado à sua missão.
            Os evangelistas se referem a ela como aquela que Deus escolheu para a missão de ser sua mãe. Por trás dessa missão a mostram como a “serva do Senhor”, e assim o próprio Espírito Santo pode vir sobre ela para cobri-la com sua sombra. Ela, dessa forma, torna-se a manifestação (presença) do Espírito que impulsiona toda a humanidade e toda a criação para o mistério de Deus Amor e Salvador. Nela, e por ela para toda a humanidade, o Espírito mora para sempre neste mundo. Ele gera continuamente o Filho Salvador em Maria. Maria, na condição de serva, é a mais perfeita manifestação do mistério do Espírito Santo, o Doador de Vida.
            Num determinado momento da história de Maria tudo passou a girar ao redor dela, pois, na verdade ela é portadora de duas pessoas divinas: do Filho – como seu Filho – e do Espírito, que dentro dela estão dando forma à sua humanidade. Ela é bendita entre todas as mulheres (cf. Lc 1,42), sendo assim, o templo mais sagrado que jamais existiu neste mundo.

Jesus, o Filho de Deus e de Maria
            Jesus é membro da Família de Nazaré. Ele é Filho de Maria e de José; esta é sua família humana, ao ponto de José lhe dar o nome. Mas é o Filho do Pai Eterno.
            Nada mais misterioso, esplendoroso e revelador: Deus, comunicação de seu amor, na companhia de um pai e uma mãe tão humildes e simples como José e Maria. Ele é o Verbo Eterno de Deus, a comunicação de sua Glória Eterna. É na Família de Nazaré que Deus fixa sua morada para sempre com a humanidade de todos os tempos. Ele é o Filho de Deus, o Filho de Maria, membro da Sagrada Família.

José, receptáculo do Pai
            Sabemos pouco da história de Maria, sabemos bem menos da história de José. Praticamente nada. Somente sabemos algo dele em função da Esposa e do Filho. Era homem justo, trabalhador, protetor; que nunca falou, apenas agiu. Desapareceu diante da ação do Filho. No entanto, cumpriu sua missão: estar presente através de sua Esposa e de seu Filho. Ele entendeu sua missão por meio do sonho, que é a linguagem do mistério mais profundo em nós.
            É neste homem que o Pai Eterno, mistério mais profundo de amor para com toda a criação, encontra um receptáculo adequado para estar também na família humana. O Pai é providente e sempre trabalha: foi assim que Jesus o revelou. Proteger e trabalhar é a missão de todo o pai. José tinha uma similaridade com o Pai celeste; tinha tudo para ser o seu receptáculo. Assim o Pai também veio morar entre nós para sempre em José e em todos os pais que, como ele, estão abertos à ação divina, cada um conforme sua missão.
            Na Família de Nazaré, o Pai, o Filho e o Espírito Santo se fazem presentes, e, a partir dela, igualmente em todas as famílias de todos os tempos. Isto, à medida em que elas se dispõem a acolher o Espírito como servos, o Verbo como testemunhas e mensageiros da verdade, e o Pai como trabalhadores e protetores da vida e da natureza criada pela Trindade Santa.

Nossas Famílias
            Tendo a Sagrada Família como modelo, nossas famílias devem se tornar cada vez mais manifestação da presença do Deus Uno e Trino. Elas também precisam mostrar que são santas e sagradas. Diz o Papa Francisco "a grande missão da família é dar lugar a Jesus que vem, acolhê-lo na família, na pessoa dos filhos, do marido, da esposa, dos avós. Jesus está ali. Acolhê-lo ali, para que cresça e espiritualmente naquela família”.
            Quanto mais os membros de nossas famílias tiverem consciência de seu lugar na família, tanto mais as Pessoas Divinas podem se manifestar neles. No serviço, na disposição alegre e amorosa, o Espírito Santo; no trabalho silencioso e providente, o Pai Eterno; e, na doação generosa, no testemunho e no respeito à verdade, o Filho – Verbo de Deus.
            Saibamos respeitar e valorizar nossas famílias, e com certeza, haveremos de nos encontrar com algo mais profundo: o mistério do próprio Deus conosco.
Pe. Mário Fernando Glaab

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Ave Maria - A oração que mais fazemos


ALEGRA-TE, CHEIA DE GRAÇA

            A oração que nós mais dirigimos à Mãe de Deus se inicia com as palavras: “Alegra-te, cheia de graça; o Senhor é convosco”. Esta oração nós repetimos muitas vezes em nosso costume de rezar. Ela está baseada nas palavras do anjo Gabriel quando traz o anúncio a Maria, segundo o evangelista Lucas (Lc 1,28). Sobre Maria, o texto diz que ficou perturbada, pensando no significado daquela saudação. Nós queremos com ela refletir sobre o que podemos entender quando pronunciamos estas palavras.

Alegra-te
            Quando se trata dos preparativos e da vinda de Jesus, os mensageiros sempre falam de alegria. Assim disseram a Zacarias “ficarás alegre e feliz“ (Lc 1,14), e aos pastores “eu vos anuncio uma grande alegria” (Lc 2,10). É importante notar que desde o princípio o Mensageiro deixa claro para Maria que se trata de uma “alegria”. Mais tarde, ela canta o seu hino que mostra a felicidade do seu sim a Deus (Lc 1,46-47). Nós somos convidados a nos alegrar com Maria, agora no Advento, e sempre quando fazemos esta prece. Sempre de novo, ao rezar e ao expressar nossa devoção à Mãe de Jesus, nós nos colocamos diante do Senhor que vem. Ele é o motivo da alegria de Maria, e o há de sê-lo igualmente para nós.

Cheia de graça
            O Anjo não saúda Maria com o seu nome, mas dirige-se a ela usando o termo “Agraciada”, ou cheia de graça. A ninguém é dado este título na Sagrada Escritura, a não ser somente a Maria, “a Serva do Senhor” (Lc 1,38). Só ela merece ser chamada assim. Eis a razão da alegria que somente ela experimenta. Mas de onde vem o “agraciada”, e que sentido tem? Deus te agraciou. Este é o sentido último.
            Também Isabel deixa transparecer este sentido ao dizer que Maria é “Bendita” (Lc 1,42). Deus a abençoou. Pelo Anjo e por Isabel podemos ver que Deus agraciou e abençoou Maria e, a graça e a bênção são a identidade dela. Maria agradece e atribui tudo ao Senhor, mas este agiu de maneira muito particular nela.
Serviço amoroso por e para Deus
            O Novo Testamento fala somente mais uma vez em outra passagem sobre “agraciados”. Na carta aos Efésios encontra-se: “... para o louvor de sua graça gloriosa, com que nos agraciou no seu bem-amado” (Ef 1,6). São João Crisóstomo explica que Deus não nos libertou somente de nossos pecados, porém também nos tornou capazes para o amor. Deus capacitou e ornou nossas vidas para o amor serviçal. Nós podemos conformar nossa vontade com a de Deus.
            O que a carta aos Efésios diz se aplica a todos os que em seu Filho Jesus Cristo Deus escolheu como filhos seus. Todos eles foram, por pura graça, assim eleitos. Podem viver na graça. Maria é, no entanto, simples e diretamente saudada pelo Mensageiro de Deus como “a Cheia de Graça”. Ela toma consciência de que antes de todos os demais, foi ela a assim enriquecida por Deus para a sua vocação que é única também. Ela é sempre a serva do Senhor e isto atrai sobre si o olhar amoroso de Deus. Maria atribui tudo a Deus, seu Salvador.
            Nosso louvor a Deus se presta ao reconhecer as maravilhas realizadas em Maria. A Igreja, em sua longa tradição teológica, nos ensina que Maria é a Imaculada Conceição; aquela que sempre está sem pecado e totalmente à disposição do amor de Deus, por ser a Serva.

O Senhor é convosco
            Essa afirmação não é única de Maria, mas é dita a outros que têm uma missão a desempenhar. Assim a Moisés (Ex 3,12), a Jeremias (Jr 1,8.19), e outros. Mas a saudação do Anjo a Maria é pessoal – diretamente a ela e em vista dela -, para estabelecer uma relação entre Deus e Maria em vista da alegria de seu coração.
            Ao rezar tantas vezes “cheia de graça”, queremos, nós, maravilhados e alegres estar conscientes de estar falando desta relação toda singular entre Deus e sua Serva. Que esta oração e reflexão nos façam um pouco mais servos, graciosos e alegres. Maria, cheia de graça, rogai por nós!
Pe. Mário Fernando Glaab

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Natal Cristão


O NATAL E OS POBRES

            Existem dois natais. Um é o natal que se comemora com festas, presentes, com enfeites e até com abusos de toda sorte; que é fruto do consumismo exagerado. Outro é o Natal cristão que se volta para o Menino que nos foi dado: o mistério da Encarnação do Verbo de Deus na pessoa de Jesus de Nazaré, e que é celebrado na fé, na esperança, e principalmente no amor.

Natal pagão
            O natal criado pelo consumismo é o natal pagão. Não tem nada, ou ao menos, muito pouco, de haver com o Natal cristão. Ele valoriza o prazer, o ter e o consumo exagerado. Por isso, não tem escrúpulos em descartar tudo o que impede de alcançar estas coisas. Quem não pode competir, é excluído. Os pobres e os sofredores são “apagados” das imagens desse natal, pois as luzes o fazem brilhar como se fosse de um outro mundo, um mundo de fantasia.
            Este mundo que celebra o seu natal é tão perverso que, para não estragar o seu esplendor, incentiva as pessoas a se desculparem – desencargo de consciência -, fazendo alguma obra de caridade em prol dos miseráveis. Se o pobre tiver uma cesta básica no natal ele não estraga o brilho da rica ceia dos abastados pagãos. Durante o resto do ano não lhes interessa saber se ele tem algo para matar a sua fome; o importante é que ele não perturbe a festa do natal do consumo e da festa. Eles precisam comemorar.
            A figura que mais caracteriza este natal pagão é o Papai Noel com seu saco enorme, sortido de ricos presentes, trazendo alegria para as crianças e para os adultos. Jesus, quando aparece, não é o pobre que nasceu em Belém, mas uma criança envolta em luzes, em um romantismo que nem de longe lembra o acontecimento do nascimento entre os animais por não haver lugar na hospedaria.

Natal Cristão
            O Natal que os cristãos comemoram é bem outra coisa. Ele traz para a nossa realidade e nosso tempo o mistério do Deus Encarnado na pessoa de Jesus de Nazaré. A história daquele casal que não é acolhido em Belém e que deita o recém-nascido em uma manjedoura é celebrada na fé, na esperança e, principalmente no amor-gratidão. Gratidão a Deus, porém traduzido no compromisso para com todos os não-acolhidos de hoje. Natal Cristão sem compromisso não existe. Ele até faz festa, dá presentes e enfeita a casa; mas não fica nisso. Ele transforma interior e externamente as pessoas. Isto porque o Natal de Jesus não fica no passado, mas é hoje. É hoje que no cristão Deus se volta para os desvalidos da história dando-lhes vida; e, esta vida passa pelos cristãos. Os cristãos são hoje os feitores do Natal.
            Para o cristão o Natal de Jesus é muito mais do que uma recordação do que aconteceu há dois mil anos lá em Belém. É a comemoração do mistério da Encarnação de Deus na história e na geografia da humanidade. Isto somente é possível para quem tem fé, pois ultrapassa longe a lógica dos sábios e dos poderosos deste mundo. O Natal aponta para a manifestação mundial da bondade de Deus. Quem sabe ler além das imagens do presépio pode contemplar o rosto de um Deus que se mostra bondoso com o mundo todo. Se naquele Menino está Deus (Ele é Deus), então o mundo é amado por Ele, pois Ele está aí, no mundo da maneira mais humilde possível. Ninguém é afastado dele. Mas, mais ainda, este que nasceu no Natal, aceitou ser rejeitado, condenado e crucificado! O cristão, já no Natal, entrevê a morte por amor deste que nos foi dado. Na entrega total de Jesus, Deus abrange tudo, e manifesta assim, a sua Verdade, a sua Beleza e a sua Majestade. O amor de Deus é verdadeiro (o Natal não é teatro), é belo (é coerente e sincero), e é serviço para todos.

Jesus e os pobres
            Não é possível celebrar o Natal sem levar em conta os pobres. Alguém diz, todos somos pobres! É verdade, mas existem os que são pobres de modo diferente, do jeito de Jesus.
            Se Deus em Jesus se fez pobre e viveu entre os pobres de todos os tipos, como podemos nós não falar dos pobres e dos excluídos ao falar do Natal? Mas, afinal, quem são os pobres? Alguém que muito refletiu sua fé em Jesus de Nazaré e conviveu sempre com os pobres assim explica: “Pobres são aqueles para os quais a vida é uma carga pesada, pois não podem viver com um mínimo de dignidade” (Pagola), justamente para os quais veio o Deus Encarnado. Resumindo, os pobres são os que morrem antes do fim da vida! Portanto, é impossível não levar em conta tantos irmãos que são pobres ao comemorar o Natal Cristão.
            Até pode ser possível falar de Cristo, de um Cristo desencarnado, glorioso que reina na nos altos céus, sem se referir aos pobres, mas tratar de seu nascimento, sua vida e morte na história de um povo sem levar em conta estes últimos, simplesmente é inaceitável. Falar de Cristo, o Senhor lá do céu, aquele que cuida sempre de mim e resolve todos os meus problemas, é fácil; mas falar com seriedade do Homem-Deus, Jesus de Nazaré é, no mínimo, comprometedor. Jesus certamente resolverá minhas situações mais complicadas, mas, à medida em que me faço seu seguidor, ele me faz sair de mim mesmo e ir ao encontro do outro, do necessitado. Isto me liberta; isto me renova e me realiza como ser humano. Não é a fuga do problema que resolve, mas o enfrentá-lo. É a cruz abraçada e carregada que leva à ressurreição. Jesus de Nazaré foi crucificado não por ter feito mal a alguém, mas pelo contrário, por ter feito o bem àqueles que os ricos, os poderosos e os religiosos da época julgavam culpados de sua triste sorte.
            Se quisermos colaborar para que o mundo seja um pouco mais humano deveremos forçosamente deixar que o Natal Cristão seja um encontro com Jesus, o Deus Pobre, e, a partir dele descobrir a presença salvadora do amor de Deus lá onde estão os últimos de todos. Sem Jesus, poderemos continuar falando de Cristo e festejando o natal pagão, mas nunca introduziremos no mundo o potencial humanizador de Jesus de Nazaré, que é o Deus Conosco, o Salvador do mundo.
            Sejamos cristãos de verdade: testemunhemos que o Natal é cada dia e em cada lugar, mas especialmente lá onde as pessoas são mais odiadas, excluídas, perseguidas e mortas. Lá está o Filho de Deus Encarnado, Crucificado e Ressuscitado; lá deve estar também o verdadeiro cristão.
Pe. Mário Fernando Glaab.


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

São José e a Família


Família Divina e Família Humana
O Pai e São José

            Na piedade popular surgiu ultimamente grande devoção ao Pai Celeste, assim como também, já por pouco mais tempo, a busca pelo Espírito Santo despertou nos movimentos da Igreja, e mesmo fora dela. Deus Filho, na pessoa de Jesus de Nazaré, sempre foi o centro do cristianismo; e não pode deixar de sê-lo. Porém, é bom dar uma olhada nestas outras descobertas.

Deus é Família
            Normalmente, quando dizemos algo sobre a Trindade Santa, usamos a concepção humana de família. Afirmamos que Deus Trindade é Família porque temos experiência do que vem a ser família a partir daquilo que nós vivemos concretamente no relacionamento com nossos pais, irmãos, cônjuges, filhos e parentes. Ao proceder assim, atribuímos à Família divina algo do que é próprio nosso; mas talvez poderíamos ir por outro caminho.
            Na verdade, as nossas famílias são fruto da “personificação” da Família Divina. É a partir da Trindade que podemos sonhar com famílias, da forma como Deus as sonhou e quer. Veremos. Por ser Família a Trindade vem ao encontro da família humana. Tendo preparado tudo, conforme seu plano de amor, Deus Trino escolhe uma família pobre, humilde, do povo, sem importância, trabalhadora e piedosa, que muito ama; para lá se manifestar. É a família humana de Jesus, Maria e José de Nazaré. Nazaré é uma vilazinha desconhecida da geografia e da história. Nesta família de Nazaré, tão humana que, com certeza, é manifestação do divino, e em sequência em cada família que se funda no amor, a família divina se revela.

O Pai e São José
            O Pai do Céu é o Mistério por excelência. É a fonte e o princípio sem princípio. Como falar dele? Ele não fala, mas envia sua Palavra, que é o Filho, que o revela.
            Na família humana encontramos a expressão desse mistério fontal na figura de São José. José é alguém adequado ao mistério do Pai. José é igualmente uma figura misteriosa: ninguém sabe de onde veio nem como viveu e como morreu. Não falou; apenas sonhou e trabalhou. Era o carpinteiro e o camponês de seu lugar e de sua época. O sonho é a linguagem própria do mistério mais profundo. Podemos apenas imaginar um pouco do “sonho” do Pai e do “sonho” de José. Jesus diz que o seu Pai sempre trabalha (Pai criador providente de todas as coisas); José trabalha e serve a seu Filho e sua Esposa. É neste pai terreno que o Pai do Céu quis se personificar.
            Assim como o Pai se revela no Filho, pobre, simples e servo de todos; também São José está a serviço de sua família, a Família de Nazaré; modelo para todas as famílias pobres, simples e a serviço da vida, e revela um pouco do mistério do Pai. Ele é o patrono da Igreja doméstica, da Igreja dos humildes, dos trabalhadores, da grande parte da humanidade e dos cristãos. Diríamos hoje, é o patrono dos excluídos, dos marginalizados, das minorias, dos pobres, dos negros, dos índios, das mulheres abandonadas pelos seus maridos, dos injustiçados, esquecidos e de todos os que clamam por vida e dignidade.
            Jesus de Nazaré “experimentou” o mistério de seu Pai no dia-a-dia com o pai José. José, por ser o escolhido do Pai e ser o “servo fiel”, aponta constantemente ao mistério de Deus. Jesus soube ler e interpretar este mistério em seu pai José, justamente por ele estar pleno do amor do mesmo Deus e Pai. Em São José, mas igualmente em todos os pais que amam, o Pai divino continua a estar no seio de nossas famílias. Quem tem um Pai divino tão próximo como nós temos? Sejamos agradecidos ao Pai celeste e a São José, e sejamos defensores de nossas famílias. Lá experimentaremos um pouco do que é ser membro da família de Deus.
Pe. Mário Fernando Glaab

sábado, 6 de outubro de 2018

Uma resposta para o mundo.


COMUNHÃO, RELAÇÃO E AMOR

            Comunhão, relação e amor são palavras que não chamam muito a nossa atenção. Isto porque são muito usadas, mas na verdade, não são entendidas em profundidade. Fala-se delas como se fossem algo tão comum: alguém está em comunhão com o outro porque concorda nisto ou naquilo; tem relação porque faz algum negócio; e, ama porque gosta de alguma qualidade ou tem algum interesse. A mentalidade que cada vez mais se impõe na sociedade é totalmente contrária à profundidade destes termos.

Individualismo, ganância e ódio
            Basta abrir os olhos para ver que cada vez mais cresce o individualismo, a ganância e o ódio ao invés de comunhão, relação e amor. Isto chega a nos surpreender, pois deram um jeito de manipular a tal ponto nossas consciências de apresentar estes males como bens. O individualismo é defendido como causa de sucesso: quem cuida de si, este prospera, quem não o faz, é culpado de sua derrota; quem busca sofregamente ter mais, este é louvado, porque sabe trabalhar (mesmo que passe por cima de qualquer princípio de justiça), sabe investir, quem não o faz é vagabundo e pobre por sua própria culpa; quem odeia os bandidos é bom, mas aquele que vai ao encontro dos caídos à beira da sociedade egoísta, este é um deles! Assim soa o novo evangelho da sociedade capitalista e liberal. Esta sociedade tem a seu favor os grandes meios de comunicação que tem um poder imenso para fazer “as cabeças”, e mais ainda, para fazer “os corações”. Explicando melhor: de confundir as cabeças e de endurecer os corações.
            Analisando o comportamento de muitas pessoas percebe-se um crescimento assustador desses sentimentos que são destruidores da comunidade humana. Mesmo gente que foi educada nos valores humanos e cristãos desde a infância, como família, sociedade e Igreja, deixa-se encantar pelo anúncio dos falsos valores. E, quando toma consciência (se é que ainda tem capacidade para isso), já está totalmente viciada.

Resposta cristã
            Contrariamente ao que muitos pensam, o cristianismo não é uma doutrina moral que dá alguns bons conselhos, mas é Revelação de um Deus que é Comunhão, Relação e Amor. Este é o mistério do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A partir desse mistério se pode dizer algo sobre o ser humano, seu projeto de vida e sobre a criação como um todo. Estamos falando do mistério central da fé cristã: Deus-Trindade. O Pai Criador; o Filho Salvador; o Espírito Santo Santificador. É próprio da essência do Deus cristão se revelar como Pai Criador, que cria por amor para estabelecer comunhão entre todas as suas criaturas. Para isso chama o ser humano para colaborar nesta obra. Revela-se como Filho que se encarna na carne humana para ser o caminho, a verdade e a vida, estabelecendo assim um relacionamento amoroso, no qual oferece a salvação ao homem perdido por sua própria culpa. Revela-se como Espírito de Amor para conduzir, para iluminar e para dar força a todo aquele que de boa vontade procura o bem e quer evitar o mal.
            Portanto, o cristianismo tem, também hoje, algo a dizer para o mundo. Ao invés de concordar com a mentalidade de morte que se apresenta como a saída para os fortes, ele aponta, a partir da fé no mistério do Deus que é Criador, Salvador e Santificador, para a comunhão, a doação sem limites e o amor até as últimas consequências. A fé cristã, que não é, insisto, tradição sem compromisso, mas testemunho do Deus Uno e Trino, assume também hoje, diante do mundo injusto, corrupto, excludente e que despreza os mais fracos, os valores da vida, da justiça, da igualdade e da fraternidade. A fé cristã continua a ensinar que quando se olha para qualquer ser humano, seja ele o mais humilde, o mais desprezível, o doente, o idoso, o escravo, o preso, a criança que ainda nem nasceu, enfim o pobre, nele Deus-Trindade está nascendo. Deus fez nele o seu templo. Mas dá para cada um a tarefa de se deixar envolver por este mistério: descobrir que a Trindade Comunhão-Doação-Amor não está distante, acessível apenas para iniciados, mas lá onde estão os últimos, nas periferias da existência.
            Deus Trindade continua a se revelar para nós e para o mundo, também hoje, mas precisamos estar atentos para não passar ao largo sem percebê-lo, como fizeram o sacerdote e o levita na história que Jesus contou; e como a grande mídia nos convida a fazer. Deixar-nos compadecer, como fez o samaritano.
Pe. Mário Fernando Glaab

sábado, 8 de setembro de 2018

Céus e Terra em Deus


Um Deus para o Mundo e um Mundo para Deus

            É verdade o que se diz: “O mundo sem Deus está perdido”, ou “Estas coisas (violência, corrupção, injustiças...) acontecem por falta de Deus no mundo”, ou ainda, “Precisamos colocar tudo nas mãos de Deus”. Porém, estas afirmações merecem algumas considerações. Será que existe distância entre Deus e o mundo, um aqui, outro lá; pode existir um mundo sem Deus? O que fazer para que volte de novo a ter harmonia entre os dois?

Somos da terra e do céu
            Nós, seres humanos dotados de consciência, é que fazemos perguntas assim. Às vezes nos sentimos demais da terra, outras vezes demais do céu. Da terra, quando julgamos que todas as situações de impasses daqui de baixo devem ser enfrentadas com as capacidades e forças que adquirimos ao desenvolver nossas dimensões humanas. Do céu, quando confiamos demais em forças do alto em detrimento de nossas iniciativas aqui da terra; às vezes sonhando com um futuro no além que nos deixa acomodados diante das questões mais complicadas deste mundo. É também verdade que o mundo pode prender, e que o céu pode alienar. Todavia, para que isso não aconteça deve haver equilíbrio. Um justo meio. Nós somos de Deus, mas somos do mundo; somos espirituais, como corporais; somos santos e somos pecadores.
            Da mesma forma deve-se entender que somos do céu e somos da terra. Não podemos ficar somente no céu, pois isto nos abstrai de nossa história concreta onde nascemos, crescemos e vivemos; como também não podemos ficar somente na terra, pois assim perderemos o rumo de nossa existência. Que sentido tem uma vida – mesmo que bem sucedida – se no fim tudo acaba na doença e na morte? Portanto, somos da terra e somos do céu. Estamos de pé: os pés bem fixos no chão da existência histórica, no mundo das contradições e acertos; mas com a cabeça na altura, apontada para o céu. É de lá que vem a luz e a coragem para continuar a caminhada. Não é possível caminhar se não se está na posição correta: os pés no chão e a cabeça no alto. Todo o resto do corpo está em meio aos pés e a cabeça; e tudo avança harmonicamente.

Novos Céus e nova Terra
            O cristianismo, a partir da tradição judaica, espera “novos céus e nova terra”; uma realidade nova onde Deus mesmo está “na” terra. Ali ele fixa sua morada, e tudo será transformado. Já não haverá mais alienação nem fixação no egoísmo, pois tudo será recriado conforme o plano do Criador. A criatura assumirá sua condição de criatura e não mais dominará sobre sua igual. Haverá paz e verdadeira igualdade. Deus será tudo em todos.
            Talvez, ao invés de dizer que se precisa um Deus para o mundo, ou um mundo para Deus, seja melhor está outra visão: deixar que Deus e mundo se unam cada vez mais. Assumir cada vez mais no mundo a presença de Deus. A esperança dos novos céus e da nova terra fazem a história de hoje ser história nova, pois já brilha no horizonte a grande Novidade. Mesmo que ainda existem muitas ambiguidades, uma vez que a história é limitada, já existe a certeza da esperança que está transformando o mundo e a história da humanidade, hoje. É o “já, mas ainda não” da esperança cristã que orienta a história de Deus com o Mundo por Ele criado e por Ele conduzido, até chegar ao Fim Definitivo: a glória de Deus e a glória do Mundo.

Unidade no Espírito
            Esta reflexão pode parecer abstrata, uma vez que nossa concepção de Deus e de Mundo são tão antagônicas. No entanto, não podemos esquecer de que o Espírito de Deus foi derramado sobre o Mundo; e, a partir de então, tudo será possível. Ele está no Mundo, apesar de o Mundo não o querer. Toda a criação é permeada pelo Espírito de Deus. Sua intervenção é criadora e consumadora. É o modo como Deus e o próprio Senhor Jesus entram na história e a impulsionam para o seu fim.
            Portanto, a unidade entre Deus e Mundo não é construída por forças humanas, mas pela própria força do Espírito de Deus. Nós, os seres humanos com todos as criaturas, colaboramos nesta obra maravilhosa livre e espontaneamente. Que cada um faça a sua parte nesta grande obra da criação que vem das mãos amorosas de Deus Criador, Salvador e Consumador.
Pe. Mário Fernando Glaab.