quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Amar é conhecer


O conhecimento pelo amor

            Existem muitas formas de conhecimento: conhecimento teórico, prático, profundo, superficial etc. Tudo depende de como alguém se aproxima do objeto que quer conhecer. Ao se tratar de uma pessoa a ser conhecida, as coisas são mais complexas ainda. Não basta dizer que se conhece alguém, é preciso explicar melhor sobre o que se sabe de determinada pessoa. Mesmo que se tenha um vasto conhecimento, sempre existem “mistérios” que não são captados. E, que na medida em que se aprofunda a forma de aproximação, vão surgindo novos horizontes, novos aspectos; sempre da mesma pessoa.

O conhecimento que vem da fé
            A fé também é uma maneira de conhecer. Ela escapa das comprovações científicas, mas não deixa de ser conhecimento. Mais ainda, quando leva ao compromisso do amor como consequência.
            Temos um exemplo no evangelho de João onde Jesus, ao se encontrar com o cego de nascença que havia curado, e que havia enfrentado os judeus que não aceitavam sua cura, lhe pergunta: “Tu crês no Filho do Homem?”; ao que ele responde: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?”, e Jesus se lhe apresenta com tal. O cego curado se prostra e afirma: “Eu creio, Senhor!” (cf. Jo 9,35-38). O cego curado, a partir daquele momento conhece o Filho do Homem de uma outra forma, bem mais profunda do que os demais, que talvez tinham inúmeras informações sobre Jesus que ele não tinha; mas que não criam. Ele crê por ter experimentado amor. O amor faz conhecer mais profundamente. Certas pessoas e realidades não são conhecidas, a não ser por amor. Quem conhece melhor a mãe do que um filho? E isso não por acúmulo de dados, mas por via do amor experimentado, mesmo sem explicações racionais e lógicas.
            A criança acredita nos seus pais e por isso sabe, pelo amor, quem são eles. Muito mais se sabe sobre Deus, quanto mais se crê e se ama. Aliás, Jesus Cristo é, talvez o ser humano mais estudado de todos os seres humanos que já pisaram sobre a face da terra; mas só o conhece verdadeiramente (até onde é possível para a limitação humana) quem o ama. O amor a Jesus dá outra dimensão que escapa a tudo o que as ciências podem captar. Este amor é sempre compromisso com o Amado, no sentido de se fazer um com Ele. No caso de Jesus, quem o ama, fazendo o que Ele faz, experimenta-o nas obras. Se Jesus ama os pobres, os pecadores, os desvalidos, os marginalizados; também quem com ele está comprometido, ama os mesmos. E aí conhece realidades que de outra forma nunca iria conhecer. Conhece o mistério de Jesus no amor aos últimos, àqueles aos quais ninguém quer amar.
            O cego curado, talvez nos ajude a compreender um pouco do conhecimento amoroso de Jesus para com ele (e para nós): Jesus acreditou nele, e por isso amou. Aprendemos que não se deve amar por causa do valor que o amado tem, mas pelo amor que se lhe pode dar.

Amar a Igreja para conhecê-la
            São muitos os que criticam impiedosamente a Igreja, esquecendo de que antes é preciso conhecê-la. Sabem, sem dúvida, dos pecados do passado e também dos erros no presente de alguns de seus pastores. Porém, com muita facilidade atribuem à Igreja os pecados deles. Como se isso os justificasse a ficar de fora. Quanto mais fora estiverem, menos conhecimento terão.
            Por outro lado, quem de fato crê que a Igreja recebe de Jesus a missão de levar a Boa-Nova a todos os cantos desta terra, e que para isso Ele conta com todos os membros dela, coloca-se na esfera da resposta amorosa. Sente o peso dos pecados sobre seus ombros, mas sabe que é amado, e que no amor colabora no projeto de transformar o mundo para ser um pouco melhor; para trazer vida e alegria para a humanidade. Em outras palavras, colaborar na instauração do Reino de Deus já aqui e agora. Portanto, só conhece a Igreja quem a ama e com ela se compromete. Os que ficam criticando por fora são injustos e correm o perigo de praticarem coisas bem piores do que as que acusam da Igreja.
            Concluindo, é bom e necessário buscar conhecer sempre mais, mas deve-se estar atento para não se esquecer de que existem muitas formas de conhecer; e que as coisas mais profundas exigem aproximações mais profundas. Amar comprometidamente é uma forma de conhecimento que nem todos buscam, mas que também os pequenos e humildes conseguem alcançar.
Pe. Mário Fernando Glaab.

sábado, 5 de outubro de 2019

Julgados, mas julgamos!


Que mundo queremos?

            Impressionados com o mundo cheio de maldade, de injustiça e de corrupção às vezes nos perguntamos: que mundo queremos, afinal? É este que está aí, ou queremos um outro? Um outro mundo é possível?
            Não é tão fácil responder. Mas, a partir de um olhar cristão, vamos tentar uma reflexão. Com certeza, não é assim que o cristão sonha o mundo criado por Deus e no qual o Reino de Cristo se constrói e se faz presente. Tendo Jesus de Nazaré e o seu projeto como base, o cristão busca uma maneira diferente de estar nele e de colaborar na transformação dele em um lugar bom para se viver e, onde há espaço para todos, e mais ainda, para todas as manifestações de vida.

Julgados pelo mundo
            O mundo nos julga. Aliás, todos são julgados pelo mundo. Quem está conforme a maneira de ser do mundo é aprovado por ele; quem é diferente, é reprovado por ele. Basta ter os olhos aberto para percebê-lo. Alguns o mundo coloca como seus modelos, como seus heróis e mitos; outros como seus opositores, como os que incomodam e prejudicam o andamento. Quem não se adapta ao seu ritmo, à sua maneira de estabelecer sua “ordem”, é considerado obstáculo.
            Mais do que nunca, os cristãos são julgados pelo mundo de hoje. O mundo, enquanto traça seus próprios caminhos, defendendo seus interesses, lança um forte juízo sobre os cristãos por terem outros projetos, os projetos do Reino de justiça, de perdão, de fraternidade e de inclusão. Quando os interesses do mundo e dos cristãos não se afinam, o mundo emplaca os cristãos de atrasados, de alienados e de comunistas. Cada vez mais, fruto da mentalidade mundana de nosso tempo, preocupar-se com o pobre é visto como sendo comunista! Pobre é vagabundo e desordeiro, e quem o defende não é nada mais do que um deles!
            Até o Evangelho é julgado: ele não pode ser lido em seu contexto histórico, mas somente no sentido de dar conselhos práticos para ter sucesso na vida; ter prosperidade. Jesus é tirado de sua história e de seu ambiente geográfico; colocado nos tronos onde não incomoda; e muito longe das multidões de pobres de nossas periferias. Mas aí, com certeza, ele não se encontra.

Julgamos o mundo
            Não é só o mundo que nos julga; mas nós, como cristãos também julgamos o mundo. Aderindo ao projeto de Jesus de Nazaré mostramos outros valores que desafiam o mundo e seu interesses. É Jesus, seu Evangelho – o Reino – que no cristão estão julgando o mundo. Dizem, sempre de novo: “Felizes os pobres!” (cf. Mt 5,3); e, “todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (cf. Mt 25,40). Isto com palavras, mas principalmente com a forma de agir e de se relacionar com o mundo, e nele, com todo e qualquer tipo de pobre. É aí que se mostra que ser verdadeiramente cristão – seguidor de Cristo Jesus – não deve nada ao comunismo, e que o mundo é muito injusto e mentiroso ao classificar dessa forma os cristãos engajados na realidade e desejosos de construir um mundo mais justo, mais fraterno e melhor para todos viverem.
            Jesus foi julgado, mas este julgamento lançou luz sobre o seu projeto. Defender o pobre, o pequeno, o injustiçado valeu-lhe a morte na cruz; mas é o sinal mais forte e eficaz da justiça divina: Deus justo para com os que sempre são injustiçados. Deu a vida por eles. Portanto, também nós – os cristãos – não somos só julgados, mas julgamos o mundo, ou seja, sentenciamos com eficácia, colocamos o mundo na ordem à qual o mundo é chamado toda vez que praticamos a justiça do Reino. O cristão é sinal de contradição: o mundo destrói e mata; o cristão constrói e faz viver. Sejamos cristãos autênticos, criticados e perseguidos pelo mundo, mas sinais de vida e vitória para os homens de boa vontade. De que lado estamos? É possível outro mundo? É possível ser cristão hoje? Que Jesus sempre seja nosso caminho, verdade e vida.
Pe. Mário Fernando Glaab

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Celebração e Vida


EUCARISTIA: COMUNGAR COM O POBRE

            Eucaristia é ação de graças. Uma obra de agradecimento. Quem agradece, senão aquele que recebeu algo? Algo que não possuía, algo que o enriqueceu. Aí estão em jogo dois elementos: doação e recepção; alguém que dá e alguém que recebe. Dois pobres. O primeiro é pobre porque não está apegado ao que tem e sabe doar; o segundo, porque acolhe um dom que não possuía e o valoriza. Comunhão de pobres que se faz ação de graças.

Ação de graças
            Só o pobre dá graças. O rico não agradece, pois ele acha que merece tudo o que tem. Não questiona de onde vêm os seus bens. Sua ganância não tem limites, só pensa em aumentar mais suas riquezas. Não se importa se os meios para possui-los são corretos ou não. Dar graças é próprio de quem reconhece sua pobreza e sabe valorizar o que recebe. Acolhe e faz frutificar.
            Não é possível dar graças sem compromisso efetivo. Ao acolher um presente, necessariamente, se assume um compromisso: usá-lo para o bem. Isto é ação de graças. Quando uma criança recebe um brinquedo de presente, ela dá graças quando com alegria vai brincar. Assim ao ser contemplado por uma dádiva, dá-se graças por ela na medida em que ela será usada para a finalidade que lhe é própria.
            Nos evangelhos se diz que Jesus, seguindo a tradição dos ritos judaicos, tomou o pão e o vinho e deu graças. Agradeceu ao Pai por estes dons que representavam a vida de seu povo. Mais ainda, fez com que eles se tornassem seu próprio corpo e sangue – sua existência toda – para com eles dar graças a Deus. Ele, Jesus, é o verdadeiro pobre! Ele recebe a missão salvífica do Pai na força do Espírito, e por isso, no seu corpo e sangue dá graças. Entrega-os para a salvação do mundo. Acolhe e faz frutificar.

Cristãos na esteira de Cristo
            O cristão aprende com Cristo. Cristo deu graças ao Pai com sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição, sacramentadas na Eucaristia. O cristão, cada vez que celebra com Jesus estes mistérios, coloca-se como pobre na mesma dinâmica: recebe e dá. Acolhe o maior presente de amor de Deus – Jesus Salvador -, e alimentado dele, o dá para a salvação do mundo.
            Assim o cristão, na esteira de Cristo, colabora com a salvação do mundo à medida em que, como pobre, acolhe a existência toda de Jesus e a oferece aos demais pobres. Faz frutificar em sua vida os dons recebidos. Isto é Eucaristia, isto é Ação de Graças.
            Quem toma parte da Ação de Graças de Cristo e da Igreja nunca pode afastar seu olhar do pobre; nunca pode negar a ele uma palavra de consolo; nunca pode deixar de lhe estender a mão; nunca pode deixar de lhe dar alguma coisa, por mínima que seja.
            A comunhão na Eucaristia de Cristo implica num aprendizado, numa caminhada contínua. Inicia com uma caridade mínima como atitude assistencialista: dar algo ao pobre, mas que não o tira de sua situação. Outro passo é a o estar com o pobre: partilhar sua vida, seu modo de rezar e de conviver. É uma forma de amor solidário. Mas alguns chegam, por graça especial de Deus, a viver como pobre. É um despojar interior e exterior, viver com o estritamente necessário, alegrando-se como os pobres, sofrendo como os pobres e rezando como eles rezam. Fazem assim a mais alta Ação de Graças, uma vez que dão um sentido todo novo para a existência. Colocam tudo no seu devido lugar, diante de Deus e diante do mundo.
            Quem comunga dessa forma com o pobre, comunga igualmente com Jesus Cristo e, com este está construindo o verdadeiro Reino de Deus sobre a face da Terra.
            Conforme Jesus explicou, quem de fato irá julgar nossas “eucaristias” é o pobre. O pobre será o nosso juiz! Verifiquemos as palavras de Jesus em Mt 25,31-46.
Pe. Mário Fernando Glaab.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Pobre, Sociedade e Deus.


Os pobres incomodam!

            No seu primeiro inverno na Região Sul, Dom Walter Jorge ao experimentar o nosso frio, retomou uma pergunta de Dom Luciano Mendes, que questionava: “Onde estão dormindo os pobres?” (Gustavo Gutiérrez já perguntava “Onde dormirão os Pobres?” em 1996).  O Bispo chamou a atenção de todos para que ninguém ficasse alheio à situação das pessoas que não têm o suficiente para se abrigar nas noites frias de nosso inverno. Pretendo continuar a reflexão.
            Primeiramente gostaria de perguntar, por que alguém é pobre? Será que é assim mesmo; Deus quis que alguns nascessem ricos e outros pobres? Sem entrar em questões sociológicas, e, partindo do pouco que sabemos de Deus pela nossa fé, devemos admitir que não pode ser assim. Deus não pode fazer acepção entre seus filhos: uns abastados, outros carentes. Devem existir outras causas.
            Deixando de lado o emaranhado de explicações dos porquês, os teólogos da libertação afirmam com convicção que na verdade não existem pobres, mas empobrecidos. Quer dizer, se alguns têm demais, outros têm de menos. E isto significa que ninguém é pobre por natureza, mas é empobrecido. E cada vez que o empobrecido aparece, ele incomoda, uma vez que sua simples existência é um clamor de justiça e pergunta sobre o Deus que cria por amor.

A sociedade se faz surda
            Só existe quem é ouvido. A sociedade faz tudo para não ouvir os empobrecidos: tira-lhes a voz para que “não existam”. Pior ainda, nos últimos tempos assiste-se a uma onda de ódio contra os pobres, pois eles incomodam os ricos, querem se apossar dos seus direitos. Nada melhor do que colocar a culpa sobre as vítimas, os empobrecidos. Esta mentalidade os exclui por completo. Eles são a escória da humanidade, precisam ser esquecidos. Os direitos sociais são rejeitados, pois tiram dos ricos para dar aos pobres. Os ricos mereceram, enquanto os pobres são culpados de sua desgraça e mesmo assim querem ter direitos! Odiá-los é o melhor meio de abafar sua voz. Aliás, os pobres por si não têm voz. Quem grita por eles?
            O pobre dificilmente consegue gritar; não sabe expressar a sua dor, sua carência. Ele não tem palavras, e nem sabe que é um empobrecido que precisa clamar. Aqueles que querem interpretar sua dor, geralmente falham. Pois olhar de fora não é a mesma coisa do que ser um deles.
            Mas, e por que o pobre é odiado? Porque incomoda! Não ouvi-lo é não existir para o pobre.

Deus é o “Sou”
            Deus ouviu e ouve o grito dos pobres. Seu Espírito (chamado Pai dos Pobres) é que grita, é quem dá forças para os pobres clamarem. Porém, ouve a voz do Espírito somente aquele que entende do Espírito. Quem não se abre ao Espírito não consegue ouvir sua voz.
            Deus é o “Sou” porque ouve a voz do Espírito no empobrecido. Ele desce para libertá-lo. E mais, ele vem pessoalmente em Jesus para salvá-lo. Justamente por isso, este Deus de Jesus é odiado, também hoje. Cada vez que se despreza um irmão mais pequeno (empobrecido) é Jesus que é desprezado e odiado. Ele continua sendo julgado, condenado e crucificado. O importante é colocar a culpa nele! Ele é vítima, pois sua maneira de ser é uma blasfêmia diante de Deus: como pode se misturar com esta gente de má índole? Todavia, quanto mais ele é rejeitado, tanto mais ele incomoda.
            Porém, para quem sabe ouvir a voz do Espírito, este Jesus odiado e rejeitado pelos ricos é o Deus verdadeiro; aquele que “é”. Pois, é este que ouve e se identifica com o mais humilde de todos os seres humanos. Ele não observa de fora, mas é um deles. Muitos não ouvem a sua voz porque não têm o Espírito em si.
            Mesmo que a mentalidade neoliberal faz tudo para que os sem voz sejam esquecidos, que sejam “não existentes”, os verdadeiros cristãos – seguidores de Cristo Jesus – devem lhes dar ouvidos, tornando-se assim eles, como Deus, “existentes”, e por sua vez, dando voz ao clamor do Espírito no empobrecido, que quer renovar a face da terra. Somente nesta renovação haverá vida para todos, e todos terão vez e voz.
            Não tenhamos medo de ir onde dormem os pobres, mesmo que a noite seja fria e eles sejam difamados pelos que tem demais. Eles incomodam, sim; mas Jesus de Nazaré também incomodou. Por isso foi pregado na cruz. E ressuscitou!
Pe. Mário Fernando Glaab


sexta-feira, 5 de julho de 2019

O Reino de Cristo como horizonte


MALDADE E BONDADE

            Um teólogo atual escreveu: “O mal é inteligente, ativo, voluntário, decidido, perverso e produtor de perversão – é demoníaco e é pessoal, é o maligno ‘e seus anjos’ (Mt 25,41) -, os anjos de carne e osso, mensageiros do maligno que infernizam a vida do mundo” (L. C. Susin); e no mesmo livro (O tempo e a eternidade) o autor escreveu: “Não há melhor representação dos deuses do que as estátuas em sua imutabilidade, bela mas trágica eternidade sem o movimento da vida”. Isto me fez pensar, e resolvi compartilhar o seguinte:

Maldade
            O mal, dizem os filósofos, não existe; ele é apenas a ausência do bem. Pode ser verdade. Mas, a maldade se mostra com muitas caras; e como! Talvez ela não esteja solta por aí, porém em muitas pessoas que deveriam ser boas, há carências; e, em consequência disso tornam-se más. Aí está a maldade. Elas não são o mal, mas a maldade está nelas. Ou ainda, por não serem boas, deixam que a não-bondade as possua.
            Quando o teólogo fala das qualidades do mal (inteligente, ativo, voluntário...), ele está apresentando a dinamicidade das carências. Os vazios de bondade que se preenchem com maldades. Não há nada de estático, de parado. Os espaços vazios serão ocupados. Esta é uma lei da natureza. E isso vale também para as pessoas que deixam espaços em suas vidas sem ocupá-los com coisas boas. Já dizia um formador espiritual: “Quem não se ocupa, o diabo ocupa!”
            A maldade que se instala no coração das pessoas faz muito mal. Mal que afeta, não de forma abstrata, mas diretamente a “vida do mundo”. É a perversidade agindo e infernizando. Contudo, isto por haver anjos maus “de carne e osso” que agem pessoal e diretamente. Quando se diz que “infernizam”, entende-se que dificultam, ou lutam contra a vida do mundo. Isto quer dizer que a maldade impede a verdadeira vida; e que o mal instalado nos humanos é obstáculo e até morte, por impedir a vida.

Bondade
            Bom é aquele que possui o Bem. Sabe-se também que o Bem está acima de toda capacidade humana, ele é infinitamente superior à criatura humana; então pode-se dizer que bom é aquele que é possuído pela Bem. Ou ao menos, é o sujeito no qual existe uma parcela da bondade do Bem.
            Se a maldade é dinâmica, se ela perverte o mundo; muito mais a bondade transforma e renova a vida no mundo. O autor citado, ao falar da imutabilidade dos deuses representados nas estátuas, lembra que eles nada fazem contra os ataques da maldade. São sem movimento. Então, a bondade que vem do Bem no íntimo das pessoas não pode ser estática. Ela é vida, e vida que se renova, que cresce, que se movimenta em direção a uma meta. Existe um horizonte que é a força motriz de toda a bondade. A bondade vem do Bem que é o Deus da vida, não dos deuses sem vida.
            A bondade, como valor positivo, tem muito mais força transformadora que a maldade, uma vez que engloba tudo em si. Se a maldade usa as armas da violência, a bondade usa a vitalidade do amor que não reage ao violento, mas o procura converter. O amor somente busca justiça, no sentido de que a bondade possa atingir a todos, transformando igualmente o maldoso.

O Reino como horizonte
            Sem dúvida, no mundo convivem as duas realidades, a bondade e a maldade; porém elas estão em luta contínua entre si. Não abstratamente, mas no interior das pessoas e entre as pessoas. Mesmo que às vezes se tem a impressão de que a maldade está vencendo, não se deve esmorecer. Alguém já venceu em nome do amor. Este é Jesus Cristo, o Filho de Deus humanado, que foi a vítima de todos os malvados. Ele ressuscitou e está vivo; na força de seu Espírito move os corações de todos os que o aceitam na fé para levar adiante seu projeto de vida e bondade, o Reino de Deus.
            Para nós o Reino ainda está no horizonte, isto é, algo que se aproxima sem se tornar objeto possuído, pois está no além do próprio Deus; mas para o Ressuscitado ele é realidade possuída. Tenhamos este horizonte diante de nós; e, na fé em Jesus Cristo, na força de seu Espírito, lutemos contra qualquer maldade, venha ela de onde vier, na certeza de que um dia a bondade, presença do Bem nos humanos, há de vencer também em nós.
Pe. Mário Fernando Glaab

sábado, 25 de maio de 2019

Pelo Pobre ao Espírito.


ESPÍRITO, COMUNIDADE E POBRE

            Há novo despertar do cristão e dos povos para a presença do Espírito, na Igreja e no mundo, assim como nas atividades diárias da humanidade. Cada vez mais se toma consciência de que a história das pessoas e dos acontecimentos possui uma “alma”, e que esta, mesmo latente, é de grande importância. O cristão, sem esquecer a dimensão trinitária de sua existência, sabe que está na “era do Espírito”. O Espírito, derramado pelo Pai e pelo Filho, está no mundo conduzindo a história para o seu fim, querido por Deus.

Espírito do Ressuscitado
            Existe o risco de se pensar o Espírito separado do Pai e do Filho. Isto deve ser evitado. Sempre se deve falar a partir do Pai que enviou seu Filho Jesus que morreu e ressuscitou. O Pai e o Filho, para completar a obra da salvação, enviam o Espírito Santo. Portanto, o Espírito Santo é sempre o Espírito do Ressuscitado. O mesmo Espírito, doador de vida, que esteve com Jesus desde o início até o fim, e que o ressuscitou dentre os mortos (cf. Rm 8, 11), é o que está e atua também hoje entre nós e no mundo todo.
            O Espírito do Ressuscitado, derramado sobre a nova comunidade, faz com que as mais diversas procedências entendam em sua própria língua a mesma mensagem. A mensagem da igualdade, da fraternidade, do amor. Surge aí, pois, uma nova comunidade, representada pelos mais diversos povos que se reúnem e entendem (cf. At 2,8-12).
            A maravilha do Pentecostes produz o seu fruto na comunidade onde cada um coloca os seus dons ao serviço do Reino. É na comunidade que as coisas acontecem. Então, o Espírito está na comunidade e leva à comunidade. A comunidade se torna o grande sinal eficaz de uma realidade nova. Apesar das limitações de cada uma, na comunidade já está em realização o sonho de Jesus: o Reino de Deus, seu Pai, em andamento.

O Espírito e o pobre
            No Reino de Deus todos têm o seu lugar; todos são chamados a tomar parte. Os últimos serão os primeiros, conforme Jesus ensina. E, para os pobres é anunciada a boa nova: “um ano do agrado do Senhor” (Lc 4,19). Isto é obra do Espírito que está sobre Jesus.
            Quem é o pobre do qual Jesus fala e que é possuído pelo Espírito? Partindo de Jesus que diz “eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), e de seu projeto de libertar os necessitados, podemos afirmar que o pobre é aquele que menos vida tem. Hoje em nossa realidade, pobre é todo aquele que não consegue viver bem: o doente, o idoso, a criança desamparada, o carente de bens, de justiça, de cidadania, de cultura, de dignidade, todos os excluídos da sociedade, os que vivem nas “periferias sociais” e até religiosas. Existem os que são discriminados por serem diferentes, por racismo, por intolerância; alguns são perseguidos e até torturados. Tudo isso sem falar dos inúmeros desempregados, dos sem-terra, dos sem-teto, dos sem-educação e dos sem-saúde, dos sem-liberdade. A cada dia estamos em contato com o pobre. Perguntamos: o que o Espírito tem a nos dizer sobre tudo isso? Onde está Ele? Em nós? No pobre? Onde podemos experimentá-lo como renovador da face da Terra?

Dinamismo espiritual
            O Espírito é força, é dinamismo. Jesus, na força do Espírito nunca parou e nem desistiu. Ele agiu até o fim. Assim também acontece com quem se deixa encontrar pelo Espírito hoje. Ele o transforma e o faz agir. Não fica alheio ao irmão pobre. Junta-se a ele, com ele, e forma comunidade.
            Todas as iniciativas, sejam elas conscientes ou não, quando promovem o bem das pessoas, da sociedade, do mundo, são manifestações da ação do Espírito. Em toda pequena oferta, na força da união, no pobre que se liberta está o Espírito de Deus com o seu dinamismo. Quanto mais movimentos de libertação começam, tanto mais o Espírito é experimentado. Ele está aí, basta ter os olhos da fé bem abertos para enxergá-lo, ter um pouco de boa vontade para senti-lo, um pouco de esperança para aguardá-lo.
            Toda a coragem que homens e mulheres testemunham quando enfrentam maledicências, perseguições, violências, prisões, torturas, exílios, assaltos e assassinatos, representam a força do Espírito Santo sustentando as comunidades na luta e na esperança.
            O Espírito não foi embora do nosso mundo, mas está aí, agindo, iluminando e conduzindo. É claro que os poderosos desse mundo não o conhecem, mas os que são pobres, humildes e misericordiosos o conhecem e colaboram com Ele. É na comunidade onde vivem e que defendem a vida que encontram o Espírito.
            Vinde Espírito Santo, e renovai a face da Terra.
Pe. Mário Fernando Glaab

terça-feira, 2 de abril de 2019

Celebração e vida.


EUCARISTIA: COMUNGAR COM O POBRE

            Eucaristia é ação de graças. Uma obra de agradecimento. Quem agradece, senão aquele que recebeu algo? Algo que não possuía, algo que o enriqueceu. Aí estão em jogo dois elementos: doação e recepção; alguém que dá e alguém que recebe. Dois pobres. O primeiro é pobre porque não está apegado ao que tem e sabe doar; o segundo, porque acolhe um dom que não possuía e o valoriza. Comunhão de pobres que se faz ação de graças.

Ação de graças
            Só o pobre dá graças. O rico não agradece, pois ele acha que merece tudo o que tem. Não questiona de onde vêm os seus bens. Sua ganância não tem limites, só pensa em aumentar mais suas riquezas. Não se importa se os meios para possui-los são corretos ou não. Dar graças é próprio de quem reconhece sua pobreza e sabe valorizar o que recebe. Acolhe e faz frutificar.
            Não é possível dar graças sem compromisso efetivo. Ao acolher um presente, necessariamente, se assume um compromisso: usá-lo para o bem. Isto é ação de graças. Quando uma criança recebe um brinquedo de presente, ela dá graças quando com alegria vai brincar. Assim ao ser contemplado por uma dádiva, dá-se graças por ela na medida em que ela será usada para a finalidade que lhe é própria.
            Nos evangelhos se diz que Jesus, seguindo a tradição dos ritos judaicos, tomou o pão e o vinho e deu graças. Agradeceu ao Pai por estes dons que representavam a vida de seu povo. Mais ainda, fez com que eles se tornassem seu próprio corpo e sangue – sua existência toda – para com eles dar graças a Deus. Ele, Jesus, é o verdadeiro pobre! Ele recebe a missão salvífica do Pai na força do Espírito, e por isso, no seu corpo e sangue dá graças. Entrega-os para a salvação do mundo. Acolhe e faz frutificar.

Cristãos na esteira de Cristo
            O cristão aprende com Cristo. Cristo deu graças ao Pai com sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição, sacramentadas na Eucaristia. O cristão, cada vez que celebra com Jesus estes mistérios, coloca-se como pobre na mesma dinâmica: recebe e dá. Acolhe o maior presente de amor de Deus – Jesus Salvador -, e alimentado dele, o dá para a salvação do mundo.
            Assim o cristão, na esteira de Cristo, colabora com a salvação do mundo à medida em que, como pobre, acolhe a existência toda de Jesus e a oferece aos demais pobres. Faz frutificar em sua vida os dons recebidos. Isto é Eucaristia, isto é Ação de Graças.
            Quem toma parte da Ação de Graças de Cristo e da Igreja nunca pode afastar seu olhar do pobre; nunca pode negar a ele uma palavra de consolo; nunca pode deixar de lhe estender a mão; nunca pode deixar de lhe dar alguma coisa, por mínima que seja.
            A comunhão na Eucaristia de Cristo implica num aprendizado, numa caminhada contínua. Inicia com uma caridade mínima como atitude assistencialista: dar algo ao pobre, mas que não o tira de sua situação. Outro passo é a o estar com o pobre: partilhar sua vida, seu modo de rezar e de conviver. É uma forma de amor solidário. Mas alguns chegam, por graça especial de Deus, a viver como pobre. É um despojar interior e exterior, viver com o estritamente necessário, alegrando-se como os pobres, sofrendo como os pobres e rezando como eles rezam. Fazem assim a mais alta Ação de Graças, uma vez que dão um sentido todo novo para a existência. Colocam tudo no seu devido lugar, diante de Deus e diante do mundo.
            Quem comunga dessa forma com o pobre, comunga igualmente com Jesus Cristo e, com este está construindo o verdadeiro Reino de Deus sobre a face da Terra.
            Conforme Jesus explicou, quem de fato irá julgar nossas “eucaristias” é o pobre. O pobre será o nosso juiz! Verifiquemos as palavras de Jesus em Mt 25,31-46.
Pe. Mário Fernando Glaab.