sábado, 8 de setembro de 2018

Céus e Terra em Deus


Um Deus para o Mundo e um Mundo para Deus

            É verdade o que se diz: “O mundo sem Deus está perdido”, ou “Estas coisas (violência, corrupção, injustiças...) acontecem por falta de Deus no mundo”, ou ainda, “Precisamos colocar tudo nas mãos de Deus”. Porém, estas afirmações merecem algumas considerações. Será que existe distância entre Deus e o mundo, um aqui, outro lá; pode existir um mundo sem Deus? O que fazer para que volte de novo a ter harmonia entre os dois?

Somos da terra e do céu
            Nós, seres humanos dotados de consciência, é que fazemos perguntas assim. Às vezes nos sentimos demais da terra, outras vezes demais do céu. Da terra, quando julgamos que todas as situações de impasses daqui de baixo devem ser enfrentadas com as capacidades e forças que adquirimos ao desenvolver nossas dimensões humanas. Do céu, quando confiamos demais em forças do alto em detrimento de nossas iniciativas aqui da terra; às vezes sonhando com um futuro no além que nos deixa acomodados diante das questões mais complicadas deste mundo. É também verdade que o mundo pode prender, e que o céu pode alienar. Todavia, para que isso não aconteça deve haver equilíbrio. Um justo meio. Nós somos de Deus, mas somos do mundo; somos espirituais, como corporais; somos santos e somos pecadores.
            Da mesma forma deve-se entender que somos do céu e somos da terra. Não podemos ficar somente no céu, pois isto nos abstrai de nossa história concreta onde nascemos, crescemos e vivemos; como também não podemos ficar somente na terra, pois assim perderemos o rumo de nossa existência. Que sentido tem uma vida – mesmo que bem sucedida – se no fim tudo acaba na doença e na morte? Portanto, somos da terra e somos do céu. Estamos de pé: os pés bem fixos no chão da existência histórica, no mundo das contradições e acertos; mas com a cabeça na altura, apontada para o céu. É de lá que vem a luz e a coragem para continuar a caminhada. Não é possível caminhar se não se está na posição correta: os pés no chão e a cabeça no alto. Todo o resto do corpo está em meio aos pés e a cabeça; e tudo avança harmonicamente.

Novos Céus e nova Terra
            O cristianismo, a partir da tradição judaica, espera “novos céus e nova terra”; uma realidade nova onde Deus mesmo está “na” terra. Ali ele fixa sua morada, e tudo será transformado. Já não haverá mais alienação nem fixação no egoísmo, pois tudo será recriado conforme o plano do Criador. A criatura assumirá sua condição de criatura e não mais dominará sobre sua igual. Haverá paz e verdadeira igualdade. Deus será tudo em todos.
            Talvez, ao invés de dizer que se precisa um Deus para o mundo, ou um mundo para Deus, seja melhor está outra visão: deixar que Deus e mundo se unam cada vez mais. Assumir cada vez mais no mundo a presença de Deus. A esperança dos novos céus e da nova terra fazem a história de hoje ser história nova, pois já brilha no horizonte a grande Novidade. Mesmo que ainda existem muitas ambiguidades, uma vez que a história é limitada, já existe a certeza da esperança que está transformando o mundo e a história da humanidade, hoje. É o “já, mas ainda não” da esperança cristã que orienta a história de Deus com o Mundo por Ele criado e por Ele conduzido, até chegar ao Fim Definitivo: a glória de Deus e a glória do Mundo.

Unidade no Espírito
            Esta reflexão pode parecer abstrata, uma vez que nossa concepção de Deus e de Mundo são tão antagônicas. No entanto, não podemos esquecer de que o Espírito de Deus foi derramado sobre o Mundo; e, a partir de então, tudo será possível. Ele está no Mundo, apesar de o Mundo não o querer. Toda a criação é permeada pelo Espírito de Deus. Sua intervenção é criadora e consumadora. É o modo como Deus e o próprio Senhor Jesus entram na história e a impulsionam para o seu fim.
            Portanto, a unidade entre Deus e Mundo não é construída por forças humanas, mas pela própria força do Espírito de Deus. Nós, os seres humanos com todos as criaturas, colaboramos nesta obra maravilhosa livre e espontaneamente. Que cada um faça a sua parte nesta grande obra da criação que vem das mãos amorosas de Deus Criador, Salvador e Consumador.
Pe. Mário Fernando Glaab.

sábado, 28 de julho de 2018

Indiferença hoje - egoísmo


ESPERANÇA EM TEMPOS DE INDIFERENÇA

            Estamos em tempos de indiferença. Fala-se até da “globalização da indiferença”. Cada um tem seus interesses particulares e se fecha egoisticamente em seu pequeno mundo. Isto afeta a fé, a religião, a ética a política, enfim, toda a vida. Ainda é possível falar da esperança cristã nesta situação?

Esperança, fé e amor
            Não se pode viver a esperança cristã, uma das virtudes teologais, sem fé. Ou ainda vale dizer: ela não é demonstrável, não se pode provar, como um mais um é dois. Ela vai além das experiências puramente empíricas. Também as pessoas com esperança são atingidas pela onda da indiferença, do “salve-se quem puder”. Ninguém vive fora do mundo. Mas, como então viver a esperança?
            Isto somente será possível à medida em que se fundamente a vida na fé. Fé em Deus que antecipa, em sua promessa amorosa, aquilo que de fato ainda não se possui. Assim a esperança vai além do que se pode provar. Isto lhe é dado pela fé. Mas, como esta esperança vivida na fé pode ser compartilhada num mundo tão fortemente golpeado pelo egoísmo, pelo indiferentismo? O único caminho é juntar à esperança e à fé a terceira virtude teologal, o amor. No amor a Deus e no amor concreto ao próximo, como a toda a criação, a esperança se torna certeza e, é possível ser compartilhada com os demais, com toda a criação. No amor tudo é antecipado: Aquilo que se espera já se faz presente; mesmo que de forma imperfeita. Não há dúvida de que o amor ultrapassa as barreiras do egoísmo, mesmo que as pessoas ainda sofrem as consequências das inúmeras formas em que ele se apresenta.
            Por outro lado existe, no entanto, a necessidade da boa vontade nas pessoas que hão de interpretar os sinais de esperança no mundo da indiferença. Sem a boa vontade, nada se consegue. Poder-se-ia até dizer que somente lá onde há um mínimo de boa vontade a fé, o amor, e a esperança são revelados, são experienciados. O mundo não consegue ver esta realidade, mas ela é revelada aos pequenos e simples; aos puros de coração.
            A partir de Jesus, que amou até o fim, sabe-se que o amor abraça a cruz; e que a cruz leva ao julgamento. Diante dela, da cruz, todos deverão se decidir: a favor ou contra, aceitá-la ou rejeitá-la. À medida em que se foge da cruz cai-se no egoísmo; à medida em que se assume a cruz (de Jesus) liberta-se para o amor, e consequentemente à esperança verdadeiramente cristã. Espera-se o que ainda não se possui, não das próprias forças, mas do Deus que ressuscitou Jesus de entre os mortos.

Religião, ética e política
            Mesmo que a tentação de se fechar diante dos desafios do mundo pós-moderno seja grande para qualquer religião, o cristianismo não pode deixar de assumir sua função profética de denúncia e de anúncio. Hoje, mais do que nunca, o Evangelho deve ser Boa Notícia para este mundo do indiferentismo. Anunciar o Evangelho é missão da Igreja de Cristo.
            O Evangelho ilumina igualmente a ética dos povos, assim como sua política. Ética e política, valores hoje tão deformados em nossa sociedade, precisam ser permeadas da luz evangélica. Caso contrário, a globalização e a mercantilização da sociedade devorarão a dignidade e a vida de todos. Ética se baseia nas leis justas e na ordem para qualquer civilização; política busca o bem comum de todos. Sem o tempero da fé, da esperança e do amor, que a religião fornece para a sociedade, tanto a ética como a política se perderão nos labirintos do egoísmo. Assim como estas virtudes ultrapassam os limites próprios deste mundo, levam para o além sem deixar de estar neste mundo; também a missão da Igreja recobre as duas dimensões, a religiosa e a temporal. Sua missão é sempre evangelizadora: é evangelicamente que a Igreja faz política. Não faz política politicamente. É por razões evangélicas e éticas que a Igreja intervém quando a sociedade pisoteia os pobres, os pequenos, os miseráveis. Por isso ela condena qualquer corrupção, abuso do poder, injustiça ou mentira.

Novo começo
            Olhar para o mundo sem fé, sem esperança e sem amor é assustador. Confiar nos poderosos, nos sábios e nos ricos leva certamente ao abismo, ao fim de tudo. Porém, existem sinais de outra realidade: existem tantas pessoas que na simplicidade, na pobreza, na insignificância, e até no medo, ainda confiam e lutam por um mundo melhor, mais justo, mais fraterno e solidário. Pessoas que deixam o Evangelho regar a secura de suas vidas. Existem pessoas que não fazem alarido mas que vão ao encontro dos caídos à beira do caminho; existem os que não perguntam sobre o que levou a cair, não perguntam sobre o passado do caído; somente estendem a mão para ajudar a levantar. Existem aqueles que confiam em Deus e por isso agem.
            O Papa Francisco – grande sinal de Deus para o mundo – convida a humanidade toda para um novo começo mediante uma radical conversão ecológica, isto é, mudar a maneira de ver as coisas, todas as coisas. Não mais com olhar interesseiro, não mais fundado na vontade de poder-dominação-conquista, própria do mundo egoísta e corrompido, mas no cuidado responsável por tudo o que existe e que vive.
            Que nunca nos faltem a fé, a esperança e o amor; e que possamos colaborar para que a humanidade recomece uma nova história. História onde tem lugar para todos. Que as religiões, a ética e a política sejam para o bem de todos os povos, hoje e sempre.
Pe. Mário Fernando Glaab.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Igreja "com Espírito"


IGREJA EM SAÍDA E NOVO PENTECOSTE

            Mais do que nunca, hoje, nos tempos do Papa Francisco, a Igreja é desafiada a sair de si mesma para cumprir sua missão no mundo. A necessidade de um “Novo Pentecostes” para a Igreja é tema recorrente, desde o Vaticano II, mas agora, com Francisco, a questão toma novo vigor. Ele critica os hierarcas, mas também os fiéis em geral, que não têm coragem de se abrir para o mundo e de ir onde estão as pessoas com suas alegrias e suas dores, seus anseios e suas angústias. A Igreja não deve chamar a atenção sobre si mesma (autorreferencialidade), porém precisa ser presença de Cristo em todas as periferias da sociedade e do mundo. Esta é a ordem que recebeu de Cristo antes de subir ao Pai.

Trabalhar com Espírito
            Francisco fala da evangelização lembrando que os cristãos devem sempre trabalhar “com Espírito”. Esta expressão ensina que não basta ter qualidades ou boa vontade; mas que é preciso estar “possuído” pelo Espírito Santo. Isto é possível para os evangelizadores que “rezam e trabalham”; aqueles que se deixam transformar interiormente. A própria evangelização é a oração, e vice-versa. Sem esta união profunda entre a oração, abertura ao Espírito, e trabalho, dedicação ousada, não existe anúncio eficaz da Boa Nova de Jesus Cristo. O Papa escreve: “Do ponto de vista da evangelização, não servem as propostas místicas desprovidas de um vigoroso compromisso missionário, nem os discursos e ações sociais e pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração” (EG 262).
            Os discípulos, ao receberem o Espírito Santo no Pentecostes, saíram imediatamente para fora. Para fora do lugar onde estavam, mas também para fora de si mesmos. Transformaram-se em anunciadores das maravilhas de Deus com muita ousadia. Igualmente hoje a Igreja necessita de anunciadores ousados que trabalhem com Espírito. Por isso, como dizem os bispos no documento de Aparecida, há necessidade absoluta de um Novo Pentecostes para a Igreja na América Latina e no mundo, para que assim, convertidos “em uma Igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora, temos que ser de novo evangelizados e fiéis discípulos” (Ap. 549).

“Saída”: Por quem, para onde e por quê?
            A proposta de Francisco merece ser aprofundada para não ficar no abstrato, só na teoria. Perguntamos: Quem precisa sair? Para onde deve sair? E, por que deve sair? À luz destas perguntas pode-se descer para algo bem mais concreto. Veremos:
            Há na Igreja uma tentação que, quando não é combatida, acaba com todo o trabalho pastoral. Trata-se do clericalismo. Ele se verifica no clero, mas também em meio aos leigos. É aquela ideia de que a Igreja é a Igreja dos clérigos, e, daqueles que estão diretamente ligados a eles. Tudo depende deles, uma vez que eles são uma classe especial; pois são mais treinados no saber teológico e na santidade. O clericalismo é uma doença que busca desenfreadamente o poder e a fama. Separa do povo comum. Também leigos pensam e agem “clericalisticamente”; são como “super-leigos” pelo fato de se julgarem iniciados em caminhos clericais.
            A Igreja em saída com Espírito, é a Igreja toda: pastores e leigos. Não temos como separar uns dos outros. Cada um tem sua missão no corpo clerical, mas ninguém tem o direito de se fechar na sacristia. Certamente cabe ao clero ir adiante para os campos do mundo onde acontece a vida; mas lá eles não estão sozinhos, pois é o lugar próprio dos leigos. E, como lembra o Papa Francisco, o pastor sabe ir à frente do rebanho, outras vezes caminha com ele, e ainda, conforme a situação, segue atrás. Então, nada de separação ao perguntar quem deve sair: todos, Igreja Povo de Deus.
Para onde? Para onde houver vida humana. A vida é o dom mais precioso da criação de Deus, e, a Igreja tem a missão de torná-la viável. Jesus diz que veio trazer vida para todos, e a Igreja, como sacramento de Cristo não pode negar sua tarefa de continuar fazendo o que Jesus fez. Lá onde a vida é mais ameaçada a Igreja deve estar mais presente para ser fiel ao seu Mestre.
            Por quê? Consciente do dom gratuito recebido de seu Senhor, a Igreja leva vida a todos sem nada esperar em troca. Nenhum interesse, somente a partir da experiência do encontro com a misericórdia de Deus em Jesus Cristo, o Salvador da humanidade. A alegria de compartilhar a fé, a esperança e o amor.
Concluindo
            Somente uma Igreja “com Espírito” pode trazer um novo Pentecostes para o mundo. A Igreja desejada por Francisco é uma Igreja pobre para os pobres, isto é, uma Igreja livre para ouvir a voz de seu Senhor e dizê-lo a todos. As riquezas amarram e não deixam a vida se desenvolver. Elas têm o seu próprio “espirito”, o espírito do da não-vida para todos.
            Portanto, neste ano do laicato, a grande chamada é para que todos, leigos e ministros ordenados, se conscientizem que é o Espírito que conduz a Igreja, e que ela deve ser dócil aos seus apelos de sair com coragem para as periferias onde a vida é massacrada, esquecida e morta. Todos devem dar gratuitamente do que receberam, pois o Espírito quer renovar a face da terra. Quanto mais a Igreja se envolve na defesa da vida de todos – a começar pelos mais pequeninos -, tanto mais ela cumpre sua missão recebida de Jesus de Nazaré que é levar a Boa Notícia da presença amorosa de Deus entre toda a humanidade. Lá onde está a vida, lá está o Deus de Jesus Cristo.
Pe. Mário Fernando Glaab

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Cristo, Cruz e Cristão

O CRISTÃO E A CRUZ DE CRISTO

            “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me” (Lc 9,23). Estas palavras ditas por Jesus resumem toda a sua missão e, convidam os discípulos a orientarem-se para uma nova maneira de ser e de agir. Assumirem a mesma missão.

Cristão longe da Cruz
            A linguagem da cruz sempre encontrou resistência, mas as palavras de Jesus continuam firmes pelos séculos dos séculos. Assim como Pedro, as comunidades primitivas, e tantos depois deles se escandalizaram diante da cruz; também hoje os cristãos são tentados a evitar ou amenizar a cruz de Cristo. Existe, infelizmente, uma onda de marginalização da cruz, e isto também dentro de grupos cristãos, e até entre movimentos, pastorais e ministros da Igreja. Tudo parece muito bonito: a cruz é enfeitada e toda a sua dureza é escondida. Busca-se o sucesso, a prosperidade; e a cruz perde seu simbolismo de renúncia, de luta e de morte, para se tornar objeto de proteção, amuleto, e até de beleza. O poder de Deus – amor até as últimas consequências – já não conta, porém é a superstição que envolve a cruz.
            Cada vez mais, nos dias de hoje, a cruz e o Crucificado são negados e renegados, até mesmo pelos cristãos. Basta lembrar os discursos entusiásticos de pregadores que vivem longe dos compromissos com o Crucificado; as teorias psicológicas que eliminam qualquer culpa e, consequentemente o arrependimento sincero, a ambição por poder, glória e reconhecimento...
            Cristão longe da Cruz de Cristo é impossível! Isto não existe. A Igreja no seu discipulado, e em cada indivíduo, tem sua eficácia missionária da presença profunda da cruz de Jesus de Nazaré. O cristão sem a cruz de Jesus é mentiroso e sua missão não é a missão da Igreja de Cristo. A consolação não há de faltar, mas será sempre a consolação que vem de Deus que prometeu, em Jesus, estar presente até o fim dos tempos. “A Igreja peregrina caminha entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, anunciando a cruz do Senhor até que ele venha” (LG 8).

A cruz e o ministério da Igreja
            A Igreja, “sacramento universal da salvação” (LG 48), realizando no tempo a obra de Cristo salvador da humanidade, não pode deixar de carregar a cruz de Jesus. Assim como Jesus foi incompreendido, perseguido e morto, também ela o é, à medida em que é coerente com seu Mestre. Na sua missão de levar vida e salvação ao mundo, denunciando o pecado que destrói e mata, ela toma sobre si as dores e os pecados que afligem a humanidade. De fato, todos deverão ver na Igreja Aquele que foi crucificado, para que crendo nele não pereçam, mas tenham a vida eterna (cf. Jo 3,14). Isto será possível se a Igreja não tiver medo de tomar a cruz e segui-Lo.
            Nunca será demais lembrar que a Igreja não é uma entidade abstrata representada por uma grande multidão, mas é uma comunidade real de homens e mulheres concretos. Pessoas que vivem nos altos e baixos da história: santos e pecadores. Também nós, cada um de nós que cremos, os batizados, crismados, alimentados pela Eucaristia e pela Palavra de Deus, mas igualmente vítimas das fraquezas, limitações e pecados como toda a humanidade, somos a Igreja: Igreja santa e pecadora. Nós carregamos a cruz do Redentor, mas não podemos negar o fato de sermos responsáveis por torná-la tão pesada e dura ao Senhor e à sua Igreja. São Francisco de Assis, falando sobre a responsabilidade que cada um tem diante da Cruz, assim se exprime: “Nós cristãos, que proclamamos conhecê-lo, e não obstante, o negamos com os fatos, de alguma forma real estendemos nossas mãos contra Ele. Tão pouco os demônios o crucificaram. Foste tu, junto com eles, que ainda o crucificas, deleitando-te nos teus vícios e pecados” (Admonitio 5,3).
            A Igreja, com a palavra da cruz, no viver crucificada e, portanto, anunciando a cruz desde a cruz, faz acontecer na história, com todo o poder de Deus, a reconciliação e a nova vida.

A cruz como julgamento divino
            A cruz, com tudo o que contém, em seu amor sem limites, revela o julgamento de Deus sobre o pecado e a morte. “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que por Ele nos tornemos justiça de Deus” (2 Cor 5,21). O mal foi vencido pelo bem. O pecado foi condenado na morte do Filho de Deus; e, continua sendo condenado em todos os que seguem o Filho carregando Sua cruz até o fim, por amor. A doação voluntária de Cristo para tirar o pecado do mundo configura-se hoje na história do mundo onde o cristão assume a sua vocação e missão: ser sal da terra e luz do mundo.
            Fixando os olhos no Crucificado, podemos dizer: Senhor Jesus, o nosso olhar está voltado para vós, cheio de vergonha, de arrependimento e de esperança. Que diante do vosso supremo amor (na cruz) nos invada a vergonha por ter-vos deixados sozinho a sofrer pelos nossos pecados. A vergonha de termos corrido diante da provação, apesar de termos dito milhares de vezes: ainda que todos vos deixem, eu nunca vos deixarei. A vergonha por ter perdido a vergonha (cf. Oração de Francisco na sexta-feira santa).

Pe. Mário Fernando Glaab

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Para o mês de maio

MAIO: MARIA E PENTECOSTES

            Maio é o mês dedicado a Maria, a Mãe de Jesus e nossa Mãe do Céu. Mas, por coincidência, comemoramos também neste mês o dia de Pentecostes. Pentecostes é a vinda do Espírito Santo de Deus sobre a Igreja nascente que O acolhe surpresa e se deixa transformar. Aqueles discípulos, que até então eram medrosos e fechados, agora saem para fora com vida transfigurada pela presença de Deus. Porém, antes disso, alguém também acolheu com muito amor o Espírito em sua vida. O Espírito a engravidou com o seu Amor. Era aquela que se colocou inteiramente, como serva, ao seu dispor. E o Espírito fez nela maravilhas.

Maria vai, os discípulos vão
            Maria, cheia do Espírito Santo, vai às pressas visitar sua prima Isabel que precisa de ajuda. Assim ela começa sua missão de servir a toda a humanidade como a Mãe de Jesus e de seu filhos espalhados pelo mundo todo. Até o fim de sua vida nesta terra, Maria serve a Jesus e a todos os que dele se aproximam; missão que nem no céu terminou. Ela é sempre a intercessora nossa junto de Deus. Tudo isso é obra do Espírito Santo.
            Os discípulos, cheios do Espírito Santo, vão por todas as regiões anunciando a Boa Nova de Deus: Jesus é o Senhor. Todos os que nele acreditam são batizados e convidados a formar comunidade, onde experimentam a vida em comum. Este é o serviço que o Espírito inspira nos discípulos.
Que mais este mês de maio ajude a todos nós, que formamos a Igreja de Jesus em nossos dias e em nossas comunidades, a reavivarmos o Dom de Deus. Que, a convite de Maria e dos inúmeros apelos da Igreja, nos coloquemos na linha do testemunho evangélico. Que todos saibamos superar a vergonha diante do mundo – mesmo que existam escândalos também entre líderes cristãos -, que o mês de maio e o Pentecostes nos impulsionem para que livres do cansaço, da desilusão, da acomodação ao ambiente, renovem nossa alegria e nossa esperança para aproveitar essa hora da graça: graça para nós que escrevemos a história aqui e agora.

Ação do Espírito Santo
            Nunca será possível haver testemunhas e profetas da esperança sem a ação do Espírito Santo. Se o mundo, hoje mais do que nunca, necessita de testemunhas e profetas da esperança, é mais do que preciso voltar ao primeiro Pentecostes e à Pobre Serva do Senhor. Eles nos abrem à ação do Espírito.
            Neste ano dedicado ao leigos não podemos esquecer que na Igreja todos são missionários de Jesus: os ministros sagrados, os religiosos, mas também os fiéis leigos. Às vezes paira sobre as igrejas um espírito missionário medíocre, isto é, com pouca disposição para o serviço, para a missão. Isto é, sem dúvida, falta de vida no Espírito. É fechamento egoísta em si mesmo. Vamos abrir as portas, ou melhor, o nosso coração ao sopro novo do Espírito, pois o Espírito foi derramando sobre todos com abundância.
            Todavia, não podemos esquecer que o sair às pressa de Maria, o sair para fora dos discípulos, deve ser hoje para nós o voltar-se aos mais necessitados, aos pobres, aos periféricos de nossa sociedade. Assim como Jesus veio implantar a justiça e o direito, a misericórdia e o conhecimento de Deus no seu mundo de tantos pobres, também nós, cristãos e cristãs do século XXI, não nos podemos furtar dos pobres que estão aí para quem quiser ver. O serviço e a identificação a eles é a prova da ação do Espírito em nós. O Espírito é vida, por isso, alimenta a quem morre de fome porque se não o alimentas, o matas! A ação do Espírito é conversão, por isso, contra a fome, converte-te.
            A ação do Espírito em Maria, nos primeiros discípulos como também em nós hoje, concretiza a opção pelos pobres que, como ensinava Bento XVI, está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós para nos enriquecer com sua pobreza.
            Sejamos agradecidos a Deus por tantas graças que a nossa diocese tem recebido de Deus nestes últimos meses, mas de modo especial pelo novo sacerdote, o Pe. Ronaldo, ordenado no dia 08 de abril. Que Deus seja louvado. E, continuemos com a missão de rezar pelas vocações: “Cada Comunidade uma Nova Vocação”.

Pe. Mário Fernando Glaab

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Dízimo e Comunidade

A COMUNIDADE DE FÉ SE SUSTENTA COM O DÍZIMO

            A Igreja Cristã, desde os primórdios, tem consciência de que é uma comunidade: a comunidade dos discípulos de Jesus Cristo, reunidos pelo Espírito Santo para viver no amor ensinado e vivido pelo mesmo Jesus. A comunidade é fruto da Boa Nova e é, ao mesmo tempo, o lugar próprio da vivência e do impulso missionário para que o Anúncio se espalhe por todo o mundo. É a comunidade de fé e de amor o início e o fim de toda a ação evangelizadora da Igreja de Jesus Cristo.

A manutenção da comunidade
            A comunidade cristã se mantém pela fé em Jesus, vivo e Ressuscitado, e pelo amor vivido concretamente no cotidiano, nas relações entre seus membros e nas relações com o mundo. Ela não é do mundo, mas está no mundo. Relaciona-se com tudo o que tem no mundo. Nesse sentido, ela não está imune a todas as implicâncias que o mundo tem na vida das pessoas. Também ela necessita se organizar e se sustentar, como qualquer outra organização. Aí vêm os desafios próprios dessa realidade, junto ao mundo que a circunda, para, como outras entidades, se manter coesa e unida.
            Não só de pão vive o homem, mas também ele é necessário. O pão é uma necessidade indispensável. Ninguém pode sobreviver sem pão. Sendo assim, a comunidade cristã não pode deixar de se preocupar com esta dimensão, a sua manutenção. Como fazer para que o sustento seja garantido?
            A partir da tradição judaica, a comunidade cristã entendeu que o dízimo é bíblico. Não é mera invenção humana, mas vem da própria Revelação. Conforme as diferentes situações históricas, a Igreja foi se adaptando aos costumes dos povos que se convertiam ao cristianismo, porém nunca deixou de se preocupar com o pão material para seu sustento. Mesmo chamando de modos diversos, a manutenção sempre foi vista como um meio para que a Igreja pudesse ser evangelizadora. Disso se pode concluir que:
1.      O fim sempre é a comunidade evangelizadora, seja ela oferta, dízimo, taxa, etc. Nenhuma campanha financeira empreendida pela comunidade cristã se justifica se não tiver como fim o bom funcionamento da evangelização. O dízimo nunca se justifica a si próprio. Uma comunidade que acumula bens sem investi-los na evangelização, perde seu sentido e sua identidade cristã.
2.      Desta forma os bens que os fiéis oferecem para a manutenção da comunidade adquirem um sentido que vai além do imediato. Eles contém em si uma participação evangelizadora. É um pouco daquilo que cada fiel faz para que o Anúncio do Reino siga pelo mundo afora. É a renúncia da fé que exige desapegar-se daquilo que é deste mundo em prol do Reino de Deus. É renúncia, mas renúncia livre e alegre.
3.      Neste sentido é eliminada toda barganha com Deus. Não se dá o dízimo ou qualquer outra oferta como pagamento. Sabe-se que é a comunidade que evangeliza, e não se compra a graça de Deus. A comunidade experimenta e faz experimentar a bondade de Deus e, quem contribui para a existência dela, este se abre para acolher o que o Deus de Bondade tem a oferecer.
4.      A manutenção da comunidade de fé dá ao contribuinte a oportunidade de participar, não somente pelo desejo, mas com obras concretas. Ele se doa por completo, na dimensão espiritual e material.
5.      Quando assumido como dever sagrado, a manutenção da comunidade educa e converte. Educa porque ensina a colocar os bens no seu devido lugar, não deixá-los tomar conta do coração humano; converte porque exige renúncia e sair de si. O egoísmo fecha o homem em si mesmo, mas a generosidade o abre para novos caminhos. Seguir o caminho do Evangelho pede muita generosidade.

Comunidade em vista do Reino
            Sendo tão importante para a pessoa de fé a participação e o anúncio do Reino, não deve haver dúvida de que é necessário prover a manutenção da comunidade para que ela possa cumprir a sua missão. Ela é o lugar onde se experimenta e vive a realidade do Reino e é também o ponto de partida para o trabalho missionário. Todo missionário tem atrás de si uma comunidade de fé.
            A Pastoral do Dízimo, que foi assumida pela Igreja no Brasil, está preocupada com esta questão. Ela não visa arrecadar dinheiro por dinheiro. Mas tem consciência de que as comunidades necessitam ter condições para se sustentar. Uma vez sustentadas – mesmo pobres, mas com dignidade -, elas têm o pão para o caminho que o anúncio do Reino percorre.
            Ao se entender o que é comunidade cristã, não é mais preciso insistir na quantidade da contribuição de cada fiel, pois sabe-se que ela vive daquilo que lhe é colocada à disposição dos membros. Cada membro se faz presente de corpo e alma, também com a sua ajuda financeira, para que tudo funcione bem. Aqueles que dependem diretamente das comunidades para fazer seu trabalho, não precisam esmolar, pois têm o respaldo de todos que colaboram livres, conscientes e generosamente. Este é o ideal.
            A comunidade cristã, que existe em vista do Reino e, que conta com cada um de seus membros na sua tarefa de implantar o mesmo nas realidades deste mundo, automaticamente valoriza e inclui a todos em seu seio. O dizimista é abraçado e abençoado na comunidade. É lá que ele se realiza na busca do Reino e na difusão dele.
            Que cada cristão possa descobrir a importância da comunidade, e, uma vez convencido disso, opte pelo dízimo, não como obrigação, mas como uma oportunidade para ser membro em todos os sentidos. Que o Reino de Cristo, inaugurado por Jesus, anunciado pela Igreja através dos séculos, esteja sempre diante do dizimista e das pessoas que doam do que é seu com generosidade.

Conclusão
            O fim do dízimo ou de qualquer oferta do povo de Deus não é arrecadar dinheiro, mas sempre, dar suporte à comunidade. É porque Jesus formou e mandou formar comunidade que se necessita dos bens que a mantém. A comunidade cristã, por sua vez, existe para que os membros possam “experimentar” o Reino. O fim último de tudo é o Reino. Mas como qualquer comunidade precisa dos meios para sua sustentação, também a comunidade cristã não escapa desta lei.
            Todo trabalho pastoral, no sentido de conscientizar para a responsabilidade da partilha, tem, na verdade, a meta de formar comunidade. Esta, tendo garantida sua manutenção, proporciona aos membros o acesso ao Reino, e dá-lhes suporte para anunciá-lo também além dos seus limites.

Pe. Mário Fernando Glaab.

sábado, 17 de março de 2018

Páscoa: Ressuscitou!

ELE RESSUSCITOU!

            Segundo o evangelista Marcos (16,5-6), quando as mulheres foram ao túmulo onde Jesus tinha sido colocado, viram um jovem vestido de branco que lhes disse: “Não vos assusteis! Procurais Jesus, o nazareno, aquele que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vede o lugar onde o puseram! Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro: ‘ele vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis, como ele vos disse!’”

O crucificado e a sepultura
            Muito sugestivo que o jovem diz para as mulheres assustadas que devem ver o lugar onde o crucificado foi colocado: a sepultura. Lá é o lugar dos mortos! Contudo, ele não está lá no lugar dos mortos.
            Jesus, o nazareno, aquele que passou fazendo o bem a todos, acabou morrendo numa cruz. Esta foi a recompensa que recebeu do seu povo por tudo que lhe havia feito. Tanto amor que foi pago com ódio. A cruz tornou-se para Jesus o sinal da condenação; e, a sepultura o sinal da morte e da vitória do mal sobre o bem. De fato, Jesus morreu na cruz e foi sepultado. Nada mais valia aquilo que ele fizera, assim como toda a sua vida, o seu ser. Ele estava morto!
            As mulheres que iam embalsamar o corpo de Jesus, na verdade, estavam prolongando o sinal de morte: queriam conservar por mais tempo um corpo morto. Tudo está envolto pela sombra da morte. A experiência de vida que fizeram com o Homem de Nazaré agora somente se resumia em alguns momentos de saudades e de dor. Logo mais este corpo estaria se decompondo para sempre. E elas iriam voltar para casa, retornando à vida de antes. Nada restaria.

Ressuscitou: ide dizer
            Se o jovem com vestes brancas chama a atenção das mulheres sobre o lugar onde colocaram o crucificado, e dizendo que ele não está ali, muito mais atenção merece quando diz: “Ele ressuscitou! Ide dizê-lo a seus discípulos...” Este é o anúncio da Páscoa. Passagem do Crucificado para o Ressuscitado; do medo para o corajoso anúncio. Transformação total. O que era já não é mais. Agora é o primeiro dia da semana; o sábado já passou. Tudo está renovado.
            Mas o que aconteceu não pode ficar escondido. É preciso anunciá-lo, é preciso testemunhá-lo. Dizê-lo aos discípulos e a Pedro para que se dirijam à Galileia, pois lá o verão. Por que dirigir-se à Galileia? É que ali na Galileia tudo começou. Ali estavam aqueles homens e aquelas mulheres do povo pobre e sofrido que um dia se encontraram com um homem que olhou para eles com olhar diferente. Um homem que os convidou a fazer uma caminhada; caminhada rumo à vida. Na verdade, caminhada rumo a Jerusalém e à cruz. Porém, na cruz e na morte ele doou a sua vida para que os seus pudessem ter vida. Agora esta vida, compartilhada com os seguidores, pode ser vista novamente na Galileia. Lá, à medida em que os discípulos e Pedro souberem compartilhar vida, eles o verão. E mais ainda, muitos poderão “vê-lo” e receber de sua vida.
            Portanto, Ele ressuscitou! Não está mais na sepultura. Ide dizê-lo a todos. Mas voltem para o lugar onde ele os atraiu por primeiro; voltem às periferias da sociedade. Voltem para onde as pessoas têm mais carência de vida, e compartilhem com estas a Vida que vem do Ressuscitado. Lá ele estará presente até o fim dos tempos.
            Feliz Páscoa a todas as pessoas que querem um mundo mais justo e fraterno; um mundo onde tenha vida, e vida em abundância para todos. Boa Páscoa para todos os que lutam pela paz, a todos os que têm coragem de desmascarar os sinais de morte, de desrespeito, de violência. Que o Ressuscitado seja a nossa força”

Pe. Mário F. Glaab