quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Igreja X Mundo

A IGREJA PERDIDA NO MUNDO

            A Igreja, desde seu início até hoje, consciente da ordem recebida de seu Mestre e Senhor, de levar a todos a Boa Nova da Salvação, sempre enfrentou desafios dos mais diversos tipos. Na sua prática, acertou ou errou; mais ou menos. Isto pode ser considerado normal. O importante é que ela continuou sua missão pelos séculos afora. Também hoje, e talvez mais ainda em nossos dias que no passado, ela enfrenta incompreensões, ataques e até perseguições dos mais diversos segmentos da sociedade, até mesmo de alguns da sua hierarquia.

Questões atuais
            O ano de 2017 é considerado o “ano da Reforma”, isto por causa dos 500 anos da Reforma Protestante, encabeçada por Lutero. Este acontecimento não passa despercebido para a Igreja Católica, pois o movimento ecumênico a confronta diretamente com o a questão de “Igreja sempre em reforma”.
            O Papa Francisco não esconde sua preocupação com uma Igreja que pretende ficar “trancada na sacristia”. Ele convoca, insiste e manda a Igreja para as ruas. Não quer uma Igreja doente e mofada, mas prefere uma Igreja que respire o ar puro (ou até poluído!) das periferias do mundo, mesmo que isto lhe cause ferimentos, perseguições ou até o martírio. Segundo Francisco, a Igreja deve estar em “saída” sempre.
            Em países da Europa (especialmente na Alemanha), já há alguns anos pululam debates, críticas, sugestões e apelos exigindo reformas nos mais diferentes campos da Igreja. Sem dúvidas por trás disso estão questões como escândalos dados por ministros, participação sempre menor das pessoas nas liturgias, diminuição de presbíteros, falta de possibilidade de participação na Eucaristia dominical (menos missas nas igrejas paroquiais, mas apenas celebrações da Palavra), mudanças no cuidado pastoral devido a reunião de paróquias, etc.
            As mesmas questões que afligem países da Europa, mais cedo ou mais tarde, estarão também entre nós e no restante do mundo, mesmo que a América Latina conta com uma situação diferente; o mundo globalizado atinge a todos.

A exemplo de Jesus de Nazaré
            Para que a Igreja tenha coragem e luz para enfrentar os novos desafios dos tempos atuais e, para que realize as reformas necessárias, também nas estruturas milenares tão difíceis de se moverem, não tem outro jeito, a não ser olhar para a vida e a pessoa de Jesus de Nazaré, atualizando-a para os dias de hoje.
            Jesus, no seu projeto salvífico (levar a todos a Boa Nova do Deus misericordioso), se perdeu no mundo. Não reservou nada para si. A condenação e a cruz foram a última palavra do mundo sobre Ele. Jesus, no entanto, se calou! O abandono foi total, até mesmo de Deus! Morreu!
            Na Igreja não pode ser diferente. Ela precisa, a partir de Jesus, ter diante dos olhos o Reino, não a si mesma. Toda a organização: a estrutura, os planos de ação, os projetos, a formação, etc. deve estar direcionada para o anúncio e a presença do Reino de Cristo no mundo concreto, lá onde estão as mulheres e os homens de hoje: nas mais diversas periferias. Isto vai trazer, com certeza, também para a Igreja a condenação e a cruz, mas é este o caminho. O Reino é fruto de amor. Amor sem medida. Na Igreja, então, não são as estruturas que devem ser transformadas simplesmente, mas devem ser vistas e compreendidas em suas funções para se colocarem novamente a serviço do verdadeiro amor. Somente esse testemunho irá impactar o mundo, pois Jesus diz: “Se vos amardes uns aos outros, nisso todos reconhecerão que sois meus discípulos” (Jo 13,35). Esta atitude da Igreja, a exemplo de Cristo, é reflexo espontâneo, não forjado, de diversas atitudes de renúncia abnegada, prefigurando o abandono de Cristo. A Igreja, também crucificada, perdendo-se no mundo.
            Há momentos em que a Igreja também precisa calar diante das incompreensões e ataques do mundo, como Cristo calou diante da cruz; mas por outro lado, assim como Cristo falou e até gritou, a Igreja jamais pode prescindir de falar e de ter seu profetas. Suplicar a Cristo ou aos seus santos que salvem a Igreja de seus adversários, pode ser bom, mas que estas súplicas contenham algo de compromisso, algo de corajoso abandono. Nada na Igreja é mais fecundo e transformador que a presença de uma autêntica santidade e profecia.

Perder para ganhar
            Os desafios estão na Europa, estão no mundo, estão aqui; como a Igreja os deve enfrenta-los?
            Talvez seja mais necessário hoje do que nunca, a Igreja se conscientizar de que ela não é mais o centro modelador da sociedade secularizada. Aparecer diante do mundo se auto incensando pode ser muito prejudicial. O ministros que gostam de se pavonear, vestir as couraças do poder e até desejosos de dominar a marcha da economia e da política mundial estão na contramão do Reino. Alguém já dizia com sabedoria: “Não é pedido a nós vencer, mas resistir” (Clodel), o resto se deixa para a Providência.
            Que a resistência e o trabalho da Igreja em todas as situações, seja com simplicidade, com inteligência, com sabedoria, sobretudo com a impotência da morte (perda, abandono), desde a qual ela pode dar o mais potente testemunho do amor que vem de Deus. “O mundo luta pelo bem-estar, a Igreja luta pela salvação, mesmo quando trabalham juntos pela superação da miséria” (H. U. von Balthasar).
            A Igreja, perdida e abandonada no mundo, entrega-se toda na fé e na esperança, pois sabe que antes dela alguém já venceu o mundo: morreu mas ressuscitou!
Pe. Mário Fernando Glaab
www.marioglaab.blogspot.com


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Deus por Maria, nós com Maria

POR MARIA E COM MARIA

Por Maria Deus vem ao encontro da humanidade; com Maria a humanidade vai ao encontro de Deus. Este é um ensinamento que aprendemos desde criança, mas que pode e deve ser aprofundado, principalmente em época de muita devoção mariana e, igualmente em tempos e situações de críticas da parte de cristãos separados que creem e pensam diferente.
Dom Leomar Brustolin (bispo auxiliar de Porto Alegre), na conclusão de seu livro Eis tua Mãe – Síntese de Mariologia, assim se expressa: “Em Maria, Deus vem ao encontro do humano. Com Maria, a humanidade vai ao encontro de Deus da forma mais perfeita” (p. 119). Assim ele mostra como Maria é “duplamente Mãe”. Mãe por conceber Jesus Cristo na fé e na carne, Mãe por ser o ícone da Igreja, ou então, por cooperar com os discípulos de seu Filho em sua caminhada de fé e no encontro sempre mais profundo com o mistério do Deus Uno e Trino.

O caminho de Deus
            Para Deus todos os caminhos estão abertos; Ele não encontra obstáculos que o impeçam de vir a nós, suas criaturas. Mas nós, seres humanos, por causa de nossas limitações, não estamos em condições de o receber por qualquer caminho. Temos dificuldades enormes para abrir as portas de nosso ser às infinitas maneiras de Deus vir. Porém, Deus não se deixa vencer diante da pequenez de suas criaturas. Ele “usa” todas as possibilidades para transpor as portas do nosso interior.
            A mulher e o homem, acostumados a confiar em si mesmos, são medrosos diante daquilo que vem de fora. Desconfiam e procuram se defender de quem bate à porta do lado de fora. Até mesmo de Deus! Veem em tudo uma intromissão indevida; algo que pode incomodar, ou melhor, destronar do lugar cômodo onde se julgam estar tranquilos. Já os primeiros pais da humanidade ficaram com medo de Deus e fugiram (cf. Gn 3,10), mas este não os abandonou em sua frustrada sorte.
            É maravilhoso ver as inúmeras tentativas de Deus para se encontrar frente a frente com o ser humano. Ele procura se revelar e estabelecer diálogo e comunhão pela palavra dos profetas, pelos feitos de homens santos, pelos acontecimentos da natureza, enfim, pela história individual e comunitária do povo. Mas a “criatividade máxima” de Deus – se isto é permitido dizer -, acontece quando Ele mesmo se encarna no seio de uma mulher, que se torna Mãe, para por este caminho vir aos homens que entendem um pouco do que é ser mãe, pois a primeira experiência de vida de todo homem vem por meio do amor, do carinho e do cuidado de sua mãe. Jesus, o Filho de Deus, vem a nós por meio de Maria, uma mulher que é sua Mãe; uma vez que nós começamos a entender o mundo por meio de nossa mãe.
            Em Jesus Deus se revela em toda a plenitude (até onde o ser humano, ajudado pela iluminação do alto, é capaz de acolher). Revela o seu amor até as últimas consequências. Ele, no entanto, inicia esta maravilha por meio do caminho do amor materno, de Maria sua Mãe. Alguém pode se desculpar, dizendo que não entende nada do amor de mãe?  A realidade do amor de mãe é tão envolvente que ninguém se pode furtar dele. Até mesmo os que não tiveram a sorte de ter uma mãe que os acolhesse com amor, de uma ou de outra forma, experimentaram amor materno, pois sem ele não estariam vivendo.
            É claro que este não é o único caminho que Deus percorre para se comunicar e se doar à humanidade, mas é, sem dúvida, um caminho tão humano que todo homem por ele pode ser alcançado e lhe consegue abrir as portas. Basta ter humildade e vontade acolhedora. Mesmo que a abertura seja pequena, um pouco do infinito amor de Deus, com certeza, entrará e tocará o íntimo do coração humano.

O caminho da humanidade
            A humanidade também tem um caminho a percorrer, rumo a Deus. Quem a ajudará nesta tarefa? Quem se coloca na frente ou ao seu lado?
Já dissemos acima que Maria é ícone da Igreja, ou então, colaboradora dos discípulos de seu Filho na caminhada de fé e no encontro sempre mais profundo com o mistério de Deus Uno e Trino, agora vamos aprofundar este dado. A atitude da Mãe de Jesus, diante do desafio lançado por Deus não é outra a não ser de acolhida humilde e confiante. Ela, dessa forma, encontrou graça diante de Deus que, ao ser acolhido, se encarna em seu seio: “E o anjo se retirou” (Lc 1,38). Maria havia restabelecido o caminho que Eva tinha rompido quando temerosa fugiu de Deus (cf. Gn 3,8-10). Assim, como Eva é considerada “a mãe de todos os viventes” (Gn 3,20), Maria é a Mãe de todos que acreditam nas maravilhas que o Senhor realizou nos tempos messiânicos (cf. Lc 1,45).
            O ser humano sempre busca caminhos que levam a Deus. As religiões dão respostas a esta busca incessante: tem a intenção de “religar” o homem a Deus. A religião cristã, com o mesmo intento, ensina que Deus mesmo quer estabelecer comunhão com o homem perdido ou impedido de retornar. Cabe a ele responder. E, é justamente aí que entra a resposta de fé e confiança dada por Maria, a Mãe de Jesus. É a resposta modelar da Mãe para todos os que quiserem responder ao Deus que vem. No seu sim, Maria creu em Deus, mas igualmente “contemplou” o povo que haveria de aceitar o plano de Deus que agora estava se realizando nela e por ela, e que iria restabelecer a comunhão com a humanidade. Maria contemplava a Palavra de Deus e ao mesmo tempo contemplava o povo que haveria de acolher a Palavra feito Carne.
            Assim, pode-se dizer que o caminho para Deus, proposto pela fé cristã, é acolhida do projeto de Deus na história humana. E, para esta acolhida temos o exemplo da Mãe que no amor materno crê com toda a confiança. Seu amor ultrapassa todas as explicações lógicas ou quaisquer raciocínios humanos. Ela, como Mãe, entende de seu Filho e, o apresenta como o Caminho a ser seguido.

Por Maria e com Maria
            Portanto, o caminho de Deus para a humanidade e o caminho da humanidade para Deus se encontram em Jesus Cristo. Porém, Jesus é o Filho de Maria. Isto nos permite dizer que o caminho que Deus percorre, para vir até nós, passa por Maria; mas também que Maria aponta o caminho que nós precisamos percorrer para chegar a Deus. Nunca é demais recordar as palavras dela aos servos naquela festa de casamento quando estes estavam em apuros porque perderam a alegria da festa, uma vez que faltava o vinho: “Fazei tudo o que ele vos disser!” (Jo 2,5). Maria crê e Maria pede para obediência dos servos a Jesus. Tenhamos fé e sigamos a Jesus como Maria.

Pe. Mário Fernando Glaab