COMUNIDADE
CRISTÃ É COMUNHÃO
Por muitos anos se entendia que a comunidade cristã ideal
é aquela onde os pobres são humildes e os ricos bons. Isso, foi pregado e
ensinado até mesmo por pessoas importantes das altas esferas eclesiásticas.
Eles, certamente tinham boas intenções, mas, será que de fato isso era o melhor
para as comunidades? Queriam, sem dúvida, harmonia entre os diversos segmentos
da sociedade. Porém, aprofundando mais o sentido da pessoa e do evangelho de
Jesus de Nazaré, percebe-se que isso está longe de ser conforme o que ele viveu
e anunciou.
Pobres
humilhados e ricos bons
Partindo das bem-aventuranças, muitas vezes, a Igreja
caía na confusão de ensinar que Deus queria a pobreza das pessoas para que
pudessem gozar de felicidade. Confundia pobreza (miséria) com liberdade de
espírito. Ser pobre, no contexto da pregação de Jesus, é muito mais do que não
ter bens; é estar livre deles para aceitar a pessoa e a proposta de Jesus, seu
Reino de justiça e de paz.
Ensinava aos pobres que necessitavam ser humildes e
submissos para que assim pudessem ser ajudados. Não deviam ser “teimosos”, nem
“reclamões”. E mais ainda, deviam rezar pelos ricos, para que eles sempre
tivessem muitos bens e, assim sendo bons, os ajudassem sempre de novo!
Igualmente, a partir da interpretação superficial de
diversos textos bíblicos, principalmente do Antigo Testamento, justificavam-se
as riquezas dos ricos com as bênçãos de Deus dados aos bons. Hoje sabe-se que a
“heresia” chamada de teologia da
prosperidade faz justamente isso! Alguém possui muitos bens porque Deus o
abençoou, dizia-se.
Para que Deus continuasse a olhar com bons olhos para os
ricos, pedia-se que fossem sempre bons; que ajudassem os pobres. (Falava-se com
entusiasmo dos ricos que dão esmolas). Os ricos que deram algo para a
comunidade são reconhecidos, e muitas vezes colocados em destaque, e, têm seus
privilégios.
O pobre que sofre e morre sem a mínima dignidade, sem
condições de sustentar e educar sua família, é sem sorte e, pior, padece porque
Deus assim o quer! Blasfêmia!
Deus
é comunhão
Mesmo que a partir do Vaticano II a Igreja e o mundo são
convidados a olhar a realidade com outros olhos – os do Evangelho e da pessoa
de Jesus de Nazaré -, ainda se constata muito da visão errada, como vimos.
Deus, com certeza, nunca quis esta divisão entre seus filhos, ricos bons e
pobres humilhados. Ele, para quem crê no mistério trinitário, é Pai, é Filho e
é Espírito de Amor. Isto é, comunhão. O Pai ama e se doa ao Filho; o Filho ama
e se doa ao Pai; e, este Amor é o Espírito. Comunhão perfeita.
O Deus Uno e Trino não nos ensina uma boa moral, mas Ele
mesmo se comunica e se doa. Que quer dizer isso? Muito mais do que dar
conselhos aos pobres e outros tantos aos ricos; quer dizer que este Deus convida
tanto pobres como ricos a entrar no seu mistério, deixando-se transformar pelo
amor verdadeiro que se doa. É a graça de Deus oferecida ao ser humano. É Deus
mesmo que se comunica para que o ser humano possa experimentá-lo e começar a
viver vida nova.
Se o Pai, o Filho e o Espírito Santo são comunhão, os
cristãos – que professam este mistério – tem a missão de retratar esta comunhão
no mundo. Claro é que tal comunhão sempre será imperfeita, uma vez que o ser
humano é imperfeito, mas colaborando com a graça de Deus, o ser humano pode
fazer “grandes coisas”.
Ser
cristão
Não existe outra
saída, ser cristão de verdade não admite continuar aceitando que é normal
existirem os ricos abençoados e os pobres amaldiçoados. Jesus é claríssimo: “Se
alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc
8,34), isto desafia a qualquer um. Aceitar a graça de Deus exige transformação.
Se Deus é doação total, o cristão deve começar a se doar, e onde houver
qualquer injustiça, qualquer sinal de egoísmo, lá ele vai ser uma pedra de
tropeço. O cristão não pode se acomodar. Ele, necessariamente, vai ter que
lutar contra tudo o que causa separação entre as pessoas, também o que causa a
separação entre os “ricos bons” e os “pobre humilhados”. É o que a Igreja em
nosso continente sul-americano tem anunciado com muita força nas últimas
décadas: o Evangelho precisa transformar as estruturas e os sistemas corruptos
que são causa de tantos males.
O cristão, coerente com sua fé, não pode aceitar
interesses espúrios, negociações vantajosas, mas prejudiciais aos outros,
falsas ideologias que justificam os lucros exorbitantes dos gananciosos. Se,
para Deus, o amor é o seu natural, como dizem os grandes teólogos, também para
o cristão o amor deve ser o seu natural.
Se, conforme Jesus anunciou, no Reino, Deus não é o
Senhor, mas o Pai misericordioso, também entre os cristãos não podem mais haver
os “senhores” e os “súditos”, mas somente os irmãos, lá reina a paz, fruto da
justiça e do amor. Amor este, infundido pelo Espírito do Pai e do Filho, mas
acolhido e vivido em comunidade. Portanto, a comunidade cristã não pode ser
outra coisa do que comunhão. Caso em nossas comunidades não existir uma
verdadeira busca desta comunhão, ainda não entendemos nada do mistério do
Deus-Amor revelado por Jesus de Nazaré, que tantas vezes proclamamos com o
Senhor, sem saber o que isso implica.
Pe. Mário
Fernando Glaab
www.marioglaab.blogspot.com