quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Religião e Salvação

RELIGIÃO, PARA QUÊ?

                        Se é Deus quem salva, mais ainda no cristianismo se crê que é Jesus quem salva, para que serve a religião? Alguns dizem que todas as religiões são boas, outros, pelo contrário, já pensam que as religiões não contam, mas que é preciso crer e esperar a salvação de Deus ou de Jesus – que é Deus. O que dizer das religiões e da religião cristã?

Religião e salvação
            Religião, num sentido muito amplo, quer levar ao conceito de voltar para a divindade. “Religar a Deus” as pessoas ou coisas que estão desligadas dele. Por traz desse conceito já transparece a ideia de que a salvação não está na religião em si, mas naquele ao qual ela leva ou liga. A salvação está além da religião. Está em Deus mesmo ao qual a religião “liga” o religioso.
            Os que afirmam tranquilamente que todas as religiões são boas, talvez não têm clara a função delas. Não há dúvida de que uma instituição séria que se arvora o título de “religião” deve estar preocupada em levar os seus adeptos a Deus; contudo, algumas fazem isto com mais segurança e comprometimento, enquanto outras o fazem por caminhos mais tortuosos. Não é tão simples assim, uma vez que em tudo isso está presente o elemento humano, que não deixa de ser dicotômico, isto é, uma mistura de boas e não boas intenções. É o ser humano que se torna religioso, mas em tudo isto ele leva consigo o bem e o mal. A maneira de “organizar sua religião” pode ter elementos muito bons e outros maus.
            Se não é a religião que salva – mas somente Deus -, ela para ser boa, precisa oferecer ao ser humano os meios para que este possa se encontrar com o Deus Salvador. Necessita dar-lhe condições para se abrir à salvação que vem de fora. Sem dúvida, existem tradições religiosas que pretendem garantir a salvação através de seus ritos e de suas normas de vida, mas não é esta a concepção de religião que nos orienta. Confundir Deus com religião não é bom.

Religião cristã
            No cristianismo dos últimos tempos há grupos que exageram em afirmar que “é só Jesus quem salva! A religião não salva ninguém”. Tudo bem, é Jesus quem salva. Porém, podemos perguntar a estas pessoas: como haveremos de chegar a Jesus, a não ser por meio de uma religião? O próprio fato de valorizarem tanto as Escrituras já conduz à valorização da religião. Quem “produziu” as Escrituras? Quem nos transmite e prega o Evangelho? Não foi uma religião, e os pregadores não são homens religiosos?
            Na fé cristã nada é mais importante do que o encontro vivo com Jesus Cristo, que se professa ser o Senhor. Caso alguém nega isto, não pode ser cristão. É de Cristo que se espera a salvação. Mas para isto, a religião fornece os meios. Ela ensina quem é Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, estabelece a conduta de vida que abre as portas para que Ele se torne o Salvador do fiel. Ensina e incentiva o sujeito a seguir, como discípulo, os passos do Mestre. A pessoa é treinada a viver como Ele viveu, isto é, no amor a Deus e às criaturas.
            Já no tempo da Reforma Protestante (século XVI) se tinha consciência de que da religião cristã – se ela quiser ser coerente – se deve esperar duas coisas: uma doutrina moral e uma orientação cívica para bem viver e, o consolo diante da morte e do juízo final. Como se pode ver, o primeiro aspecto trata do como viver; é exigência. O segundo é promessa de salvação futura; é tranquilizante. A religião deve conservar no fiel estes dois aspectos unidos, nunca acentuar demais um em detrimento do outro. As duas coisas necessitam andar juntas. Se quisermos, podemos dizer que a fé é o primeiro passo para alguém ser religioso, a caridade se inicia no caminhar, e a esperança ilumina tudo.

Jesus e a fé judaica
            Alguns dizem que Jesus, por ser judeu, apenas aprofundou a fé daquela tradição. Não é bem isso. Jesus renovou, não somente os costumes, mas principalmente a ideia e a experiência que se tinha de Deus. A partir da concepção e da experiência de Deus como Pai, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, é que se forma a religião cristã. Isto é muito importante.
            Assim, a religião cristã, para ser conforme o seu Fundador, deve levar os seres humanos a conceber Deus de modo novo. Não mais como um Deus distante e legislador, muito menos como um ameaçador, mas como aquele que é Pai Querido. De experimentá-lo na vivência concreta da caridade para com o próximo, e com todas as criaturas, que que são obras de seu amor.

Conclusão     
Precisamos ir a Deus por Jesus, o Salvador, mas a religião, que se concretiza na Igreja, tem a importantíssima tarefa de mostrar quem é Deus, e como se abrir aos seus convites de amor salvífico.
As religiões são boas e necessárias, sim. Tanto mais o são quanto mais levam a Deus que ser revela e que salva. Uma religião que não faz isto não é boa religião. Em todas elas é preciso discernir o que é bom do que não é bom; aproveitar do que é bom e eliminar o que não bom. Quanto mais as religiões se unirem para construir um mundo melhor, tanto mais estarão levando a Deus e, estão cumprindo sua missão. Por outro, lado, quanto mais elas brigam entre si, tanto mais são causa de discórdia entre os povos, e afastam de Deus, negando sua própria missão.
Pe. Mário Fernando Glaab.

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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Deus aqui e agora

ONDE ESTÁ DEUS?

            Onde está Deus, este de quem esperamos ajuda; de quem falamos tanto? Onde está o seu trono, onde podemos ver o Céu? Estas são perguntas que fazemos; aliás, sempre foram feitas, e mais ainda hoje com as conquistas da ciência que penetra cada vez mais no universo, que parece ser infinito. Mas, Deus e o seu trono não é encontrado.
            Foram exatamente estas questões que Peter Seewald perguntou ao papa emérito Bento XVI no final de uma longa entrevista, pouco tempo faz. (Entrevista que virou livro: Bento XVI – O último testamento em suas próprias palavras, Editora Planeta). A resposta de Bento XVI – fruto de seu profundo conhecimento teológico, e mais, da longa experiência da vida de fé – é bastante interessante. Ele diz: “Não existe um lugar onde Ele (Deus) está sentado em seu trono. O próprio Deus é o lugar sobre todos os lugares. Quando o senhor olha para o mundo, não vê o céu, mas vê em todos os lugares as marcas de Deus. E onde o senhor vês seres humanos encontrará as marcas de Deus. O senhor vê o vício, mas também vê a bondade, o amor. São esses os lugares, aí é onde Deus está” (p.277). E o bom Papa Emérito continua a explicar que Deus não está “num lugar” ou “num momento”, mas que Ele é o criador de todos os lugares e de todos os tempos. Justamente por isso, Deus está fora dos espaços e dos tempos, mas estes são frutos da sua mão criadora. Ele é o Criador Infinito, a Realidade. O estar em um lugar é limitação. “O Criador, que é tudo, se estende por todos os tempos e não é Ele mesmo o tempo, mas o cria e sempre está presente” em todos os lugares.

Deus em Jesus
            Deus está em todos os lugares e em todos os tempos. Contudo, Ele se fez um de nós – ser humano – em Jesus de Nazaré. Um homem concreto, histórica e geograficamente localizado. Jesus nos revela, não mais um Deus distante e inacessível, mas um Deus pessoal que está no meio de nós. Ele mesmo, em todo o seu ser, nas palavras e nos feitos, é Deus-conosco. É nele que se pode e se deve encontrar com Deus.
            Mas Jesus realiza este encontro do humano com o divino de que modo? Sem dúvida, ele o oferece o encontro, porém da parte do homem necessita ser acolhido. Esta acolhida é adesão de fé. Quem se deixa tocar pelo Homem-Jesus-de-Nazaré em sua concretude histórica e geográfica, experiencia seu amor incondicional defronte a seus pecados, este pode dizer “Deus está aqui agora!”. Este “toque”, no entanto, não se restringe aos homens que viveram na Palestina no século I de nossa era. Jesus, o Deus Encarnado, assumiu todos os seres humanos em todos os tempos e em todos os lugares, como toda a criação. Isso quer dizer que Ele se faz presente em toda a natureza, mas de modo especial nos pequenos e humildes, seus irmãos e irmãs pobres e doentes. É neles, estejam onde estiverem, que Deus continua a se fazer humano para se encontrar com os humanos. Lá Ele toca a humanidade sempre de novo. Mas somente os que se deixam tocar com fé por esta manifestação de amor são capazes de reconhecê-lo e comungar com Ele.

Deus pessoal em comunhão com pessoas
            A teologia e a catequese precisam ajudar o homem de hoje a se libertar de muitos conceitos ultrapassados, que a cultura científica não aceita mais. É necessário mudar a linguagem e os esquemas conceituais, que já não são compreendidos, para uma linguagem e tradução mais atualizadas, que possam ajudar o homem a compreender hoje que Deus não deve ser procurado em “um lugar” ou em “um tempo” determinados. Deus, que é Pessoa, está com cada pessoa em qualquer lugar e em qualquer tempo.
            Assim como para nós, seres humanos pessoais, o espaço e o tempo não são limites intransponíveis, pois nós os transcendemos; assim o Deus-Pessoa ultrapassa todo espaço e todo o tempo, uma vez que Ele sustém a tudo. Nós não estamos apenas em nosso corpo aqui e agora, mas vivemos uma amplidão, isto é possível, pois espaço e o tempo estão ao nosso dispor. Nossos relacionamentos, tanto amorosos quanto odiosos, vão além do que está aqui e é agora; podemos estar e influenciar em outro lugar e aqui ao mesmo tempo, assim como hoje e no futuro. Claro que sempre sob a comunhão ou não-comunhão com Deus que é Pessoa por excelência. Ele, Deus, é Pessoa, e não podemos fixá-lo em uma localidade física ou momento histórico, já que sua personalidade abrange todos os lugares e todos os tempos.
            Concluindo, nós não podemos e nem devemos fixar Deus e as pessoas a espaços e a tempos. Deus e as pessoas vão além deles. Deus, como Criador, sustém todos os lugares e todos os tempos; e os seres humanos, pessoas na Pessoa, estão acima das limitações de espaço e de tempo. Elas, na sua comunhão com Deus, trazem em si, no aqui e no agora, o próprio ser de Deus. Esta comunhão se atualiza em toda plenitude em Jesus de Nazaré e, na vida dos seres humanos que se abrem ao seu projeto. Lá, aqui e agora, está Deus! O seu trono está no coração e na história de cada ser humano que o deixa entrar e agir, assim como na natureza que Deus mantém na existência para o bem homem.
Pe. Mário Fernando Glaab

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Spessje

DAT FRITZJE AUS DE SCHUL

Das is doch mo traurich: dat Fritzje hot doch imme was fa sei Mamma se ergane. Die Toche kummt ea vun de Schul un saad: “Mammi, die letz Wuch hat die Lehrin de August heem geschickt weil de sich net richtich gewesch hot – de wo noch treckich am Hals”. “Oje, – antwat die Mamma – un hat dat was genutzt?” “Sicha, - soad dat Fritzje – heit wore jo schunn siewe Buwe um Medje wo sich net gewasch harre! Moie, will ich mo siehn ep es fa mich oach klappt”. Dunnawettekeil, noch mol! Da is doch mo schlimm mit de Kurizzadde wenn die die Mamma un die Lehrin kwehle wolle. Die misse mo Knut grien; awa wea machts? Die Mamma griet’se net, un de Papa is doch imma am schloofe wenn ea net in de Plantosch is.

Glaabsmario.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Hunsrikisch Geschichtje

JAKOBUS MAJOR

Fria is doch mo passiat dat mo so en Kolonist von unse deitsch-brasilionische Kolonie im die gross Stadt kum is. Dat wo jo doch imma en Freit wen Jimand die Gelechenheit hot un kunt mo raus, bisje unna die Leit.
Um dat wo so: No dem ea sei Geschefte abgemach hot, do horra mo gedenkt jetz kent ea ach mo die Kerich besuche gehen. Oje, so en gross un schen Kerich hot ma jo gonet im Land gekent. Dan mo hin um rin. Alles mo boguckt un gestaunt: “Was ma do net Alles schenes sien kan!” Bisje gebet, un die Runde is weita gang. Dan uff emol hot de Baua mo die Apostelstatue oangeguckt. Dat wore werklich schene Figure. Bei Jedem hat de Nome do gestan: Petrus, Andreas um so weita. Awa uff emol is doch mo was komisches uffgefall, un ea hot ach gleich mo de Mann wo do gestan hot um uffgepast, gefroht: “Na, soch doch mo: woa dann de Jakobus (Tiago) en  Soldot? Das wuscht ich doch noch net”. “Ja warum meint ihr das?”, antwatet de Man. “Ei, do steht doch ‘Jakobus Major’”.
(Jakobus Major heist uff Latain so viel wie in brasilianisch “Tiago Maior”; awa dat wusst halt unsa orme Baue net!).

Glaabsmário.

sábado, 4 de novembro de 2017

Natal Cristão

NATAL – O VERBO SE FEZ CARNE

            Todos os anos, ao se aproximar a solenidade do Natal do Senhor, ressoa em nossos ouvidos o que o evangelista João escreveu no prólogo de seu evangelho: “E o Verbo se fez carne e veio morar entre nós” (1,14). Esta afirmação da fé cristã é o motivo de toda celebração natalina. Se assim não for, o que se comemora não é Natal cristão. Pode ser qualquer outra coisa, menos o que os cristãos celebram nesta festa.

Verbo de Deus
            Verbo (Palavra) de Deus é, conforme o mesmo evangelista, Deus mesmo (Jo 1,1). Poderíamos dizer, em palavras mais acessíveis para nós que não somos especialistas em teologia bíblica, que o Verbo é a comunicação do próprio Deus – Ele que vem como o Deus-Amor. Não se trata de um “aviso” ou de uma notícia que Deus manda através de alguém; mas dEle mesmo. A Comunicação é Deus em pessoa.
            Estamos aqui no mistério da Trindade, um Deus em três Pessoas. Mas, ao professar que o Verbo se fez carne, crê-se na entrada deste mistério na história limitada das criaturas. A Eternidade tocando o tempo; melhor ainda, o Eterno entrando no tempo, para fazer história com o ser humano que, com as criaturas, caminha na direção de uma meta que lhe foi proposta pelo Criador.
            O Verbo de Deus é, portanto, o mistério do próprio Deus. É este Deus que habita em luz inacessível, e que justamente por isso, só pode ser vislumbrado pela fé. Aliás, todos os povos de todos os tempos sempre estão à busca deste Deus. É o que todas as religiões fazem. As religiões almejam “religar” as pessoas (também as coisas) a Deus – estabelecer contato com Ele. Cada uma o faz como “descobriu” ser o melhor caminho. Daí as inúmeras doutrinas e práticas religiosas que, quando seguidas por pessoas de boa vontade, levam a Deus.
            Nós cristãos, ao falar do Verbo de Deus já estamos nos apoiando na revelação de que Deus é comunicação. Ele se comunica no mistério trinitário, mas também se comunica para suas criaturas. E “Verbo” foi o termo que o evangelista encontrou para apresentar esta comunicação divina.

Se fez carne
            É o que se chama de “Encarnação”. Quer dizer, Deus Eterno se faz um de nós: “em tudo semelhante a nós, menos no pecado” (Hb 4,15). Este, que é Deus, é carne: um de nós! Com “carne” se entende a totalidade do ser humano. Ou então, “verdadeiro homem”. Poderíamos dizer ainda que Ele – Jesus - é o Homem Verdadeiro. O homem assim como Deus o concebeu ao criá-lo, e assim como Deus quer que seja cada um e todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares.
            Mas não podemos esquecer que Deus não deixou de ser Deus, uma vez que se encarnou. A fé cristã professa que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, consubstancial ao Pai pela divindade, e consubstancial a nós pela humanidade (Concílio de Calcedônia, 451). Deste modo cremos que em Jesus Cristo o Eterno se encontra com o tempo, com a história. O tempo e a história são próprios de nosso mundo criado, que por sua vez é limitado. É neste mundo que existe a bondade, o amor e a misericórdia; mas igualmente a maldade, o ódio e a injustiça. Contudo, a partir da Encarnação Ele está no meio de nós; nós, no aqui e no agora, nos comunicamos com o Mistério de Deus. Mais que comunicar, comungamos com Ele e nEle: “pois nEle vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28).

Natal cristão
            Natal cristão é fazer memória de tudo isso. É tornar presente esta riqueza da fé lá onde estão os cristãos. Natal não é recordar o que aconteceu a mais de 2.000 anos em Belém, mas muito mais do que isso, é deixar que o mistério do Deus Encarnado toque a todos os humanos e que nos renove para sermos verdadeiramente homens e mulheres plenos de Deus, construtores de um mundo novo, livre da injustiça, da maldade, da corrupção e da morte, uma vez que Ele veio, vem e virá sempre de novo para morar conosco.
            Feliz Natal. Natal de Jesus, que é Natal dos cristãos, e que quer ser Natal para toda a humanidade.
Pe. Mário Fernando Glaab

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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Maria, Mestra de contemplação

ROSÁRIO – CONTEMPLAR COM MARIA

            O rosário de Nossa Senhora é uma das orações mais populares e de grande atualidade, principalmente entre os fiéis mais simples e humildes. É, na verdade, pela sua simplicidade, uma oração fácil de se fazer, mas, por outro lado, exige muito esforço para não ficar em monótona repetição.
            A facilidade consiste justamente nisso, de ser uma oração bem estruturada e de pouca variação. Basta decorar os mistérios e lembrá-los em cada dezena. O Pai-nosso, as Ave-marias e mais algumas outras fórmulas fluem quase automaticamente. O difícil é manter a concentração no que se está rezando. Mais ainda, por se saber tudo de cor e, por demorar alguns minutos em cada mistério.

“Rezar o rosário para Nossa Senhora”
            Ouve-se frequentemente dizer: “Rezar um terço para Nossa Senhora”. Apesar de a expressão não estar correta, entende-se com isso que se quer honrar a Virgem Maria, demonstrando nosso carinho e nosso amor. Honra-se a Mãe de Jesus com a récita do rosário, agradecendo, louvando, e pedindo graças. Isso dá aos fiéis uma força e uma paz inexplicáveis com palavras humanas. Quantas vezes, nas mais diversas situações da vida, as pessoas recorrem a Maria, rezam o rosário e, recuperam o sentido de sua caminhada, que por vezes é tão desafiadora!
            É costume rezar o rosário em procissões, peregrinações, nos santuários, nas famílias ou nas viagens; mas também se usa desta devoção para agradecer o perdão dos pecados após a confissão sacramental. Às vezes a penitência da confissão recebida pelo penitente consiste em rezar uma ou duas dezenas do rosário oferecidas a Nossa Senhora, ou em honra dela.
            Pergunta-se: Nossa Senhora precisa que nós lhe demos esta honra, rezando o rosário? Alguém vai dizer que sim, uma vez que nas diversas aparições ela tem insistido com os videntes para que rezassem e divulgassem a prática. Todavia, olhando mais de perto, com os olhos da fé ou do coração, podemos afirmar que Maria não necessita de nossa oração, mas que, com toda certeza, ela a aceita como Mãe, uma vez que assim se estabelece uma relação de amor mais vivo entre nós e ela e consequentemente com todo o corpo de Cristo que é a Igreja. Quanto mais nós nos unimos no amor, tanto mais as graças de Deus podem agir em todo o corpo de Cristo. E é isto que interessa: desobstruir o caminho para a ação da graça de Deus, assim como Maria esteve totalmente aberta à ação do Espírito de Deus.
            “Rezar o rosário para Nossa Senhora” tem como pano de fundo a confiança em Maria que é intercessora. Esta é, no entanto, apenas uma parte da devoção à Mãe de Jesus. Existe outra. Veremos.

Maria Mestra
            É de todos conhecido que Maria é apresentada pelo Evangelho de Lucas como aquela que “conservava e meditava em seu coração” (Lc 1,29;251) os mistérios da vida e da ação de Jesus, seu Filho. Nas bodas de Caná ela diz aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser!” (Jo 2,5) ensinando, dessa forma, como os serventes precisam “aproveitar” a presença de Jesus na festa.
            Baseados nestas afirmações evangélicas podemos ver a Mãe de Jesus, não apenas como uma intercessora que resolve problemas pontuais, conforme o momento, mas como verdadeira mestra. Ela ensina, a quem quer que seja, como lidar com as coisas de Deus. Conservar e meditar leva a fazer o que Ele diz.
            Maria, aquela que acreditou, passou o seu tempo guardando e contemplando as realizações de Deus nela, em seu filho Jesus e, por Ele, em prol da humanidade. Ninguém como ela pode entrar nos mistérios de Deus, pois ela é a Imaculada, a que não deixou seus pensamentos se mancharem e pela maldade e assim se desviarem de Deus e de suas obras. Maria, contemplando sobre o que o Senhor fez, atualiza sempre de novo Sua ação a partir de sua memória. O que o Senhor fez é sempre de novo retomado em toda a sua profundidade. Assim ela é verdadeiramente mestra para todos os que querem meditar e contemplar, para acolher sua Palavra.

Contemplar os mistérios
            Para nós é um desafio rezar bem as dezenas do rosário. Anunciamos os mistérios, mas, às vezes não encontramos sabor neles e nos distraímos. Talvez seja preciso renovar a nossa fé; ter mais convicção de que os mistérios do rosário são os mistérios centrais do cristianismo, e que eles necessitam estar presentes em nosso coração para viver concretamente o que Ele nos diz.
            O rosário de Maria quer nos propor o modelo da Mãe de Jesus. Quer que olhemos a partir da perspectiva dela: a partir de sua memória de Mãe que acreditou. Como nossos olhos são turvos e embotados, queremos olhar com os olhos de Maria. Contemplar como ela contempla; sentir como ela sente. Imaginar-se no coração da Mãe quando contemplamos, por exemplo, a flagelação de Jesus: ela sentia cada açoite de Jesus que a feria no coração e no espírito; a vinda do Espírito Santo acolhido por Maria como só ela o sabia fazer, é outro exemplo.
            Portanto, olhando para os mistérios da nossa redenção – rezando o rosário – queremos fazê-lo de maneira simples, olhando e rezando através dela, uma vez que ela, como Mãe é verdadeiramente Mestra.
            “A fé é a entrega da pessoa por inteiro; uma vez que Maria, desde sempre, entregou tudo, sua memória foi a tábua perfeita sobre a qual o Pai, através do Espírito, pôde escrever sua Palavra por inteiro” (H. U. von Balthasar). Com ela, entreguemos também nós nossa vida ao Deus Uno e Trino, revelado em sua Palavra feito carne: Jesus Cristo, nosso Senhor.
Pe. Mário Fernando Glaab


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Igreja X Mundo

A IGREJA PERDIDA NO MUNDO

            A Igreja, desde seu início até hoje, consciente da ordem recebida de seu Mestre e Senhor, de levar a todos a Boa Nova da Salvação, sempre enfrentou desafios dos mais diversos tipos. Na sua prática, acertou ou errou; mais ou menos. Isto pode ser considerado normal. O importante é que ela continuou sua missão pelos séculos afora. Também hoje, e talvez mais ainda em nossos dias que no passado, ela enfrenta incompreensões, ataques e até perseguições dos mais diversos segmentos da sociedade, até mesmo de alguns da sua hierarquia.

Questões atuais
            O ano de 2017 é considerado o “ano da Reforma”, isto por causa dos 500 anos da Reforma Protestante, encabeçada por Lutero. Este acontecimento não passa despercebido para a Igreja Católica, pois o movimento ecumênico a confronta diretamente com o a questão de “Igreja sempre em reforma”.
            O Papa Francisco não esconde sua preocupação com uma Igreja que pretende ficar “trancada na sacristia”. Ele convoca, insiste e manda a Igreja para as ruas. Não quer uma Igreja doente e mofada, mas prefere uma Igreja que respire o ar puro (ou até poluído!) das periferias do mundo, mesmo que isto lhe cause ferimentos, perseguições ou até o martírio. Segundo Francisco, a Igreja deve estar em “saída” sempre.
            Em países da Europa (especialmente na Alemanha), já há alguns anos pululam debates, críticas, sugestões e apelos exigindo reformas nos mais diferentes campos da Igreja. Sem dúvidas por trás disso estão questões como escândalos dados por ministros, participação sempre menor das pessoas nas liturgias, diminuição de presbíteros, falta de possibilidade de participação na Eucaristia dominical (menos missas nas igrejas paroquiais, mas apenas celebrações da Palavra), mudanças no cuidado pastoral devido a reunião de paróquias, etc.
            As mesmas questões que afligem países da Europa, mais cedo ou mais tarde, estarão também entre nós e no restante do mundo, mesmo que a América Latina conta com uma situação diferente; o mundo globalizado atinge a todos.

A exemplo de Jesus de Nazaré
            Para que a Igreja tenha coragem e luz para enfrentar os novos desafios dos tempos atuais e, para que realize as reformas necessárias, também nas estruturas milenares tão difíceis de se moverem, não tem outro jeito, a não ser olhar para a vida e a pessoa de Jesus de Nazaré, atualizando-a para os dias de hoje.
            Jesus, no seu projeto salvífico (levar a todos a Boa Nova do Deus misericordioso), se perdeu no mundo. Não reservou nada para si. A condenação e a cruz foram a última palavra do mundo sobre Ele. Jesus, no entanto, se calou! O abandono foi total, até mesmo de Deus! Morreu!
            Na Igreja não pode ser diferente. Ela precisa, a partir de Jesus, ter diante dos olhos o Reino, não a si mesma. Toda a organização: a estrutura, os planos de ação, os projetos, a formação, etc. deve estar direcionada para o anúncio e a presença do Reino de Cristo no mundo concreto, lá onde estão as mulheres e os homens de hoje: nas mais diversas periferias. Isto vai trazer, com certeza, também para a Igreja a condenação e a cruz, mas é este o caminho. O Reino é fruto de amor. Amor sem medida. Na Igreja, então, não são as estruturas que devem ser transformadas simplesmente, mas devem ser vistas e compreendidas em suas funções para se colocarem novamente a serviço do verdadeiro amor. Somente esse testemunho irá impactar o mundo, pois Jesus diz: “Se vos amardes uns aos outros, nisso todos reconhecerão que sois meus discípulos” (Jo 13,35). Esta atitude da Igreja, a exemplo de Cristo, é reflexo espontâneo, não forjado, de diversas atitudes de renúncia abnegada, prefigurando o abandono de Cristo. A Igreja, também crucificada, perdendo-se no mundo.
            Há momentos em que a Igreja também precisa calar diante das incompreensões e ataques do mundo, como Cristo calou diante da cruz; mas por outro lado, assim como Cristo falou e até gritou, a Igreja jamais pode prescindir de falar e de ter seu profetas. Suplicar a Cristo ou aos seus santos que salvem a Igreja de seus adversários, pode ser bom, mas que estas súplicas contenham algo de compromisso, algo de corajoso abandono. Nada na Igreja é mais fecundo e transformador que a presença de uma autêntica santidade e profecia.

Perder para ganhar
            Os desafios estão na Europa, estão no mundo, estão aqui; como a Igreja os deve enfrenta-los?
            Talvez seja mais necessário hoje do que nunca, a Igreja se conscientizar de que ela não é mais o centro modelador da sociedade secularizada. Aparecer diante do mundo se auto incensando pode ser muito prejudicial. O ministros que gostam de se pavonear, vestir as couraças do poder e até desejosos de dominar a marcha da economia e da política mundial estão na contramão do Reino. Alguém já dizia com sabedoria: “Não é pedido a nós vencer, mas resistir” (Clodel), o resto se deixa para a Providência.
            Que a resistência e o trabalho da Igreja em todas as situações, seja com simplicidade, com inteligência, com sabedoria, sobretudo com a impotência da morte (perda, abandono), desde a qual ela pode dar o mais potente testemunho do amor que vem de Deus. “O mundo luta pelo bem-estar, a Igreja luta pela salvação, mesmo quando trabalham juntos pela superação da miséria” (H. U. von Balthasar).
            A Igreja, perdida e abandonada no mundo, entrega-se toda na fé e na esperança, pois sabe que antes dela alguém já venceu o mundo: morreu mas ressuscitou!
Pe. Mário Fernando Glaab
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