quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A Renúncia de Bento XVI

PARA SERVIR, NÃO PARA SER SERVIDO
A Renúncia de Bento XVI
            Que José Ratzinger – Bento XVI – foi um teólogo de grande envergadura qualquer um, que se interessa pelo assunto, o sabe. Talvez muitos não soubessem da grande lição que ele preparou para dar no final de seu pontificado. Podem até saber, mas uma reflexão há de fazer bem e servir para aplicar à realidade na qual nos encontramos todos os dias. Ratzinger lecionou, escreveu e falou bastante. Fez isso como professor, como teólogo e como pastor. Sua preocupação era ir ao encalço da verdade. O seu trabalho buscava traduzir a Boa Nova de Jesus Cristo para a Igreja e para o mundo. Interpretar a mensagem evangélica para o homem de nossos dias. Diante de sua maneira de fazer teologia, cada um tem o direito de se posicionar a favor ou contra, contudo, ninguém pode, sem soberba, não lhe reconhecer dedicação e profundidade teológica.
            Ratzinger, no entanto, reiteradas vezes lembrou que “a melhor interpretação do Evangelho e do cristianismo é a vida dos santos”. Todo ensino teológico é importante e necessário, mas o exemplo testemunhal dos santos confirma e traduz para nós hoje o que Jesus ensinou e fez. A teologia deve-lhes respeito confirmação. Com isso torna claro que teologia e vida cristã não podem estar separadas do Evangelho. Este é fonte para as duas, a teologia se alimenta do Evangelho e o traduz para a vida cristã, está última, por sua vez, interpreta e confirma a veracidade de ambos.
            Conforme Alfred Läple – teólogo de renome na Alemanha e ex-aluno de Ratzinger -, quando este professor falava de sua nobre missão, explicava: “quando você dá aulas, o máximo é quando os alunos deixam de lado a caneta e ficam ouvindo o que você diz. Enquanto eles continuarem a tomar notas sobre o que você diz, isso significa que você não os tocou. Mas, quando deixarem de lado a caneta e olharem para você enquanto você fala, é possível que você tenha tocado o coração deles”. A partir dessas duas considerações, podemos dizer que ante a vida dos santos, que se tornam “aula de Evangelho e de teologia”, se formos bons alunos, teremos que deixar a caneta de lado para apenas olhar, contemplar e acolher; deixar de escrever para que o ensinamento da aula possa penetrar no coração e na vida de cada um de nós.
Professor, teólogo e santo
            Jesus de Nazaré, o Divino Mestre, ensinou que não veio para ser servido, mas veio para servir. Como mestre o ensinou e como santo o interpretou. De fato serviu até as últimas consequências: deu a sua vida como serviço à humanidade, para que todos tivessem vida. Diante dessa “aula” deixamos a caneta de lado, contemplamos e ficamos mudos, pois a Palavra se cala por amor. As palavras já não conseguem mais explicar o que é dirigido ao coração do aluno (discípulo) que está ao pé da cruz do Mestre.
            Ratzinger para servir e não ser servido renunciou inúmeras vezes – a vida toda foi de renúncia – mas interpretou magistralmente o ensinamento de seu Mestre ao deixar todos “sem caneta na mão”, muito surpresos, ao anunciar que iria renunciar ao ministério petrino por não ter mais condições de fazê-lo adequadamente. O que ele sempre ensinou, conforme aprendera de Cristo, agora ele interpreta definitivamente como santo. E o faz com tal competência que não podemos, como bons alunos, não deixar de lado a “caneta”. Somos tocados no profundo de nosso coração. Ele nos diz e dá testemunho de que não devemos sonhar com honras e glórias, mas toda a vida de seguidores de Jesus de Nazaré há de ser serviço contínuo. Nenhuma ambição tem lugar na vida do cristão.
A lição
            Que lição fica para nós do professor, do teólogo, do Papa Bento XVI e do “santo Ratzinger”? Seria muita ousadia querer resumir em poucas palavras a lição que esse homem deu para a Igreja e para o mundo. No entanto, como “aluno que deixou a caneta de lado e tentou abrir o coração para acolher um pouco da mensagem”, quero sonhar. Não seria possível, de agora em diante, contarmos com mais servos e com menos servidos? Mais homens e mulheres dispostos a buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e sem medo de perder os privilégios que o mundo oferece e que o dinheiro compra, mas que corroem a vida cristã? Mais bispos que tenham coragem de se “casar” com a Igreja (sua diocese), colocando-se como pastores ao serviço justo de todos, sem favorecer alguns em detrimento de outros; dispostos a dialogar sem tomar decisões precipitadas, baseadas em interesses individuais? Que bispos inescrupulosos, que justificam seus atos de governo a partir de afirmações como: “é que este sempre me ajuda!”, ou “aquele outro contribuiu com mais”; se renovem interiormente e tomem consciência de que não são os donos da Igreja? Que padres tenham coragem para se desapegar de seus títulos, seus cargos, suas importâncias, suas influências e suas qualidades, para estarem a serviço, em nome de Cristo, a todo o povo, mas principalmente dos mais pobres e necessitados? Que os presbíteros não fiquem perdendo tempo em se autojustificar diante do superior e do povo, mas que, com sinceridade, trabalhem para o bem da Igreja e contribuam na implantação do Reino de Deus? Que diáconos e líderes das comunidades tenham o serviço comunitário em primeiro lugar? Que nenhum ministro da Eucaristia, que nenhum catequista ou membro das comissões, de movimentos e pastorais se sinta dono da comunidade, mas que todos tenham a coragem de dar o lugar para outro que possa desenvolver melhor a função? Enfim, que todos, ministros ordenados, ministros extraordinários, líderes comunitários e povo em geral, aprendam com o Divino Mestre, por meio da aula magna do mestre e Santo Padre Bento XVI, a servir e não querer ser servido, e, se for melhor, saber renunciar até ao próprio serviço dentro e a favor da Igreja?
Outros, quem sabe, contando com a nossa oração e nosso sacrifício, poderão ser mais produtivos. O que vale é servir.
Pe. Mário Fernando Glaab
www.marioglaab.blogspot.com.br

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Jesus, os pobres, e nós...

FELIZES OS POBRES!
Pe. Mário Fernando Glaab
            “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!” – é assim que Jesus, segundo Lucas (Lc 6,20), se dirige para os presos, cegos, oprimidos, famintos, desolados, aborrecidos, difamados, perseguidos, marginalizados, coxos, leprosos, surdos e até mortos; àqueles que para a ideologia hegemônica - a dos dominantes - são a escória, os dejetos e a imundície da sociedade. Estes são os que recebem a boa notícia e que são convidados a ser seus discípulos. Jesus quer com eles instaurar o Reino de Deus. E, por outro lado, conforme o mesmo evangelista, Jesus é duro contra os ricos e a riqueza, “mas, ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação!” (Lc 6,24).
            Sempre houve entre os cristãos uma tentação espiritualizadora em relação a Jesus e à sua mensagem, levando tudo para um relacionamento individual com Deus – distante das questões concretas que produzem os pobres. Hoje, a mesma tentação é mais forte ainda. Para uma sociedade que coloca sua confiança na riqueza, no sucesso, na fama, os pobres não são felizes. Nem sequer servem para tornar felizes os ricos. Quando muito, são usados para produzir riquezas, riquezas que caiem sempre no tesouro dos mesmos ricos. Uma vez que não se prestam mais para render lucros, os pobres são descartados e excluídos. Eles incomodam muitos, comovem outros, mas a maioria se faz indiferente diante da dor, do clamor e da morte deles. Permanecem indiferentes quando os pobres não os incomodam. Quando estão no seu devido lugar: excluídos do convívio social e até do religioso. Os indiferentes não gostam nem dos que falam dos pobres! Mesmo entre “bons fiéis” de nossas comunidades existem aqueles que não querem nem ouvir falar da Igreja comprometida que faz “opção preferencial pelos pobres”. Acham que esta Igreja já é coisa do passado e que foi sob a influência de partidos políticos de esquerda que ela fez seu discurso em favor dos que só perturbam a ordem estabelecida. Descalabros de governantes que se dizem de esquerda são usados para justificar seus argumentos. Nesse triste contexto pululam, tanto na Igreja Católica quanto nas diversas denominações evangélicas, movimentos e tendências pentecostais que exaltam a teologia da prosperidade. Pseudoteologia que inverte as palavras de Jesus: “felizes vós, os ricos, porque vosso é reino dos homens!”. Os pobres, bem ao contrário do que Jesus de Nazaré disse e fez, são vistos para ela como desgraça, são os possuídos dos espíritos maus. Necessitam ser exorcizados. E optar pelos ricos – ser rico – é ser abençoado! Que evangelho é esse, e que reino é esse?
            Jesus, ao acentuar “vós, os pobres”, dá conotação bem concreta à situação. Elimina por completo ideais abstratos, mas se dirige àquelas pessoas que estão aí, diante dele, com suas carências e com seus anseios de justiça e de vida. “Vosso é o Reino de Deus”, pois não tendes riquezas para nelas confiar. Por trás dessas palavras e das ameaças que Jesus faz aos ricos dá para entender que a riqueza é, quase sempre, uma armadilha mortal para a pessoa humana, uma vez que, frequentemente a envolve num processo de desumanização. A riqueza promete estabilidade, reforça a autossuficiência e se torna causa de muitas injustiças. Os ricos, até onde podem, desfrutam dos pobres, mas não os amam.
            Para Jesus, segundo Lucas, os pobres são seus discípulos, pois são eles que escutam a Boa Notícia: “vosso é o Reino de Deus”. É com eles que o Mestre se identifica, com eles irá contar. São Pedro e São João, Apóstolos de Jesus, quando interpelados pelo coxo de nascença, declaram sua absoluta pobreza ao afirmar que não possuíam nem ouro nem prata, mas somente a Palavra do Senhor que revigora e reanima os cansados (cf. At 3,6). É a pobreza, a fome, a aflição, o ódio e o exílio que caracterizam a situação concreta e existencial dos discípulos de Jesus de Nazaré, e são estes os que Ele declara felizes. Jesus mostra-se muito duro com os ricos e a riqueza (Lc 6,24). Mas esta ameaça é para que os ricos tomem consciência do perigo das riquezas, para que se libertem da idolatria do ter e do poder – causa de tantas injustiças -, e comunguem com a vida e o ser dos pobres. Alguém dizia: “O mundo vai virar um paraíso no dia em que os ricos desejarem passar fome” (Padre Alfredinho).
            Hoje, apesar da crescente consciência ecumênica, há, no entanto, verdadeiro espírito de competição entre igrejas e igrejas. Vergonhosamente até na mesma Igreja Católica existem concorrências entre movimentos, pastorais e comunidades. Não é difícil encontrar os que se julgam melhores que os outros, os que se preocupam em aumentar o seu grupo; outros ainda querem, por todos os meios, estancar a saída dos fiéis para outras denominações, e para isso fazem planos, procuram estratégias para convencer as pessoas a ficar. As promessas de curas, de soluções miraculosas, de prosperidade, de bênçãos e de realizações fazem parte do dia-a-dia. Onde estão os verdadeiros profetas que como Jesus tem coragem de dizer para os desvalidos e injustiçados de nossas ruas e bairro, “felizes vós!”? Pena que cada vez mais líderes religiosos se preocupam com o respeito às regras da comunidade, com os ritos e com quem pode ou não pode participar da reunião ou receber os sacramentos; deixando no esquecimento total os empobrecidos e excluídos. Isso faz lembrar os falsos pastores que já no tempo do profeta Ezequiel “apascentavam a si mesmos e devoravam as ovelhas” (Ez 34,8-10).
            Se Jesus de Nazaré, segundo Lucas, se encontra com os pobres e com eles se compromete, está bem consciente de que sua notícia é boa para eles, mas é péssima para os ricos, para os opressores e violentadores dos pobres. Ele não se conforma com o que causa pobreza, com o que faz sofrer, com o que exclui e com o que mata. Ele não vai contra os ricos, mas contra o sistema ao qual os ricos prestam culto e com o qual se comprometem, o sistema da injustiça. Jesus tinha os pés no chão, mas o coração nos céus; por isso diz “vós, os pobres” e “vosso é o Reino de Deus”.
            A partir de Jesus e de seu movimento, todos os discípulos e todas as igrejas cristãs são desafiados a envolver-se, apaixonar-se, compadecer-se pelo povo sofrido e revelar um grande esforço de transformação. Todos, iluminados pelas palavras e gestos de Jesus, devem colaborar para desmistificar o senso comum que idolatra a riqueza e o poder – também o poder religioso. Os líderes religiosos e todas as pessoas de boa vontade hão de se esforçar para que não haja mais separação entre puro e impuro, entre santo e pecador, entre sagrado e profano, pois “ninguém deve chamar de impuro aquilo que Deus criou” (At 10,15). Ninguém é melhor que ninguém! Pois quem se julga bom é orgulhoso, e o orgulho é causa de todos os males.
            Que cada um de nós, inspirado pela relação de Jesus com os pobres, junto com ele e com os pobres, colabore na construção de uma Igreja e de uma sociedade onde todos podem experimentar a alegria da presença do Reino de Deus; e isso, concretamente aqui e agora.
(Baseado no artigo de Frei Gilvander Luís Moreira, Os pobres na obra de Lucas (Lc e At) E em nós?, publicado pelo IHU da Unisinos, 06/02/13).
www.marioglaab.blogspot.com.br

domingo, 23 de dezembro de 2012

Pensamento natalino

Para pensar sobre o Natal

     "O Natal nos quer comunicar que Deus não é aquela figura severa e de olhos penetrantes para perscrutar nossas vidas. Não. Ele surge como uma criança. Ela não julga; só quer receber carinho e brincar" (Leonardo Boff).

domingo, 16 de dezembro de 2012

Dízimo - bênçãos e graças

DÍZIMO: FONTE DE BÊNÇÃOS E DE GRAÇAS
Pe. Mário Fernando Glaab
            Dízimo está ligado com bênção e graça. Desde o Antigo Testamento criou-se a mentalidade do dízimo como resposta aos dons de Deus para o seu povo. Dar o dízimo atrai novas bênçãos e graças de Deus e tudo irá bem (cf. Ml 3,10). No Novo Testamento aprofunda-se esse aspecto ao se afirmar que “Deus ama quem dá com alegria” (2 Cor 9,7). A questão merece ser atualizada, uma vez que hoje a teologia da prosperidade está conquistando sempre mais fiéis menos informados, provocando confusão entre igrejas, e mesmo, entre os diversos segmentos da Igreja Católica. Essa teologia ensina que é próspero aquele que observa as leis, e o contrário também é verdadeiro. Movimentos de linha mais “carismática” privilegiam a visão da recompensa; movimentos de linha mais libertária e comprometida com a realidade dos pobres privilegiam a visão da colaboração que abre o coração para acolher sempre mais o amor de Deus.

Deus se doa sempre e o ser humano deve acolher sempre.
            Deus que se revela progressivamente ao ser humano, conforme a capacidade dele, mostra-se como aquele que ama incondicionalmente. Não exige nada em troca de seu amor. Ele é só amor. Isso quer dizer que, em contrapartida, o ser humano não pode “comprar” nada de Deus, pois, ele não vende nada. Não existe nenhuma forma de barganha entre o ser humano e Deus, uma vez que Deus não se deixa vencer em generosidade. É sempre ele que se antecipa a tudo que suas criaturas necessitam para que tenham vida, e vida em abundância (cf. Jo 10,10). Fazer a experiência desse amor de Deus consiste em acolhê-lo. Acolher o amor de Deus não é passividade, mas atividade. Somente se experimenta, sempre limitadamente, o que Deus reserva para nós quando amamos o próximo e todas as formas de vida. Ou então, quando o amor de Deus se torna ação em nós – quando o amor de Deus, revelado em Jesus de Nazaré, produz frutos bons para a salvação do mundo. Jesus o deixa bem claro quando diz que em primeiro lugar se deve praticar a justiça e o amor de Deus, sem omitir os “dízimos” (cf. Lc 11,42). A observância dos mandamentos, das leis, doação dos dízimos, ofertas, etc., tudo deve consistir em exercícios que abrem o ser humano para o amor sem limites de Deus. Quanto mais o ser humano se doa por amor, tanto mais ele experimenta e acolhe o Deus que é só amor.

Deus conta com o ser humano para implantar o seu Reino
            Jesus anunciou o Reino de Deus presente em nosso mundo. Ele o testemunhou até as últimas consequências. Mas, por outro lado, por amor, conta com todas as pessoas de boa vontade para que a sua obra possa atingir a toda criatura. Mais uma vez, pode-se afirmar, sem medo de errar, que o melhor “dízimo” que se pode dar a Deus é acolher a proposta de Jesus de Nazaré e se fazer anunciador e colaborador do Reino de seu Pai. Quanto mais alguém doa de si e de seus bens para que o Reino de Deus possa estar e crescer neste mundo, tanto mais ele experimenta e acolhe as graças de Deus. Isso não tem nada haver com prosperidade no sentido de não ficar doente ou ter sucesso nos negócios, muito dinheiro e bens materiais. A prosperidade que vem da gratuidade de Deus há de lhe proporcionar a certeza de estar no caminho certo e de estar colaborando na construção de um mundo mais justo, fraterno e humano, onde os irmãos podem viver na presença de Deus.

Dízimo não é pagamento.
            Dentro dessa visão, dízimo não é pagamento. Muito menos uma “antecipação pecuniária” a Deus para obter dele soluções para os problemas da vida que precisam ser enfrentados por cada um. Como já afirmamos, Deus não precisa e nem quer o nosso dinheiro e o nosso sacrifício para com ele se beneficiar. O que ele quer, e convida instantemente, é que acolhamos seu amor e o façamos produzir frutos em prol do mundo. O mundo é obra de seu amor. E que cada um o acolha com o seu jeito de ser, assim como é. Então, seguindo o exemplo de Jesus, ao nos doarmos e darmos algo do que é nosso, estamos contribuindo gratuitamente para que uma nova realidade onde a vida plena pode florescer para todos se instaure sempre mais.
            Necessita-se de cuidado especial para não desdizer os que veem o dízimo como fonte de bênçãos e de graças. Sempre aprendemos que Deus sabe recompensar qualquer gesto de bondade, por mínimo que seja (cf. Mt 10,42), mas que o entendamos bem. Mesmo que Deus não aceite pagamento, nem antes e nem depois de nos dar seus dons, ele cumula seus amigos com a graça de o experimentarem na gratuidade. Quer dizer, quem dá o seu dízimo com generosidade, faz seu o amor de Deus. Essa é a maior bênção e a maior graça! Quanto mais alguém se doa, mais ele é abençoado e agraciado. Ser abençoado não quer dizer que está imune dos sofrimentos que atingem a todos os humanos, mas é alguém que age impulsionado pela bondade de Deus. Bênção é uma graça concedida por Deus, é a ação de Deus na vida de uma pessoa, que pressupõe que a mesma acolheu Deus e que se abriu para a ação dele em sua vida.

Mostrar o amor de Deus
            Jesus mostrou até onde vai o amor de Deus por nós. Hoje somos nós que precisamos mostrar esse mesmo amor de Deus ao mundo. São tantas as maneiras de fazê-lo. Sem dúvida, a nossa doação em prol da comunidade paroquial onde residimos é um sinal eficaz desse amor divino. A Igreja, que por vontade de Cristo é sinal universal de salvação (cf. LG 129), se concretiza para nós na comunidade onde os fiéis se reúnem e onde vivem no dia-a-dia sua vida cristã. É lá que o fiel vai mostrar que Deus é amor. O dízimo é, então, muito mais do que pagar os serviços religiosos que da comunidade se recebe. Ele é o resumo de tudo o que o fiel crê e vive do amor concreto de Deus. Com o seu dízimo ele mostra que acredita que na comunidade o Reino se faz realidade, por mais limitadas que sejam as pessoas que a compõem. O dízimo é sinal de sua doação de sua colaboração.
            Na comunidade o fiel experimenta o amor gratuito de Deus que, por sua vez, passa pela convivência fraterna. Também na comunidade, ao se doar fraternalmente e doar do que é seu, o amor de Deus passa adiante; outros também o poderão experimentar. É a comunidade como um todo que se torna sinal eficaz e, o fiel que colabora com seu dízimo ajuda na construção do Novo Reino.
            Dízimo é generosidade, é doação, é bênção, sim. Bem entendido, é vida para todos. Vida comprometida com o projeto do Deus de amor que cria, mantém e salva por amor todo ser humano, e quer que todo ser humano acolha e compartilhe o mesmo amor.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Scheene Weihnachtszeit

WEIHNACHTE IN DE KOLONIE
Wie mea noch Kinnacha wore do wo es doch alles viel anneschta. Mea hon doch in de Kolonie gewohnt, wo doch die Leit all ormche wore awe doch zu friede, un aach gut religiesich. In de selwiche Kolonie hon Katholische un Evangelische Familie beisamme gewohnt. Die Kinna hon imme mit samme gespielt un die grosse hon sunntachs do gehuckt un Schimaron gelapscht. Iwe alles is gesproch geb, iwas Wetta, iwa das Vie, iwa Gesundhet, un aach alsmols iwa Religionsgeschichte. Wenn die Weihnachtszeit kum is do hon di Kinna jo doch viel vun de Geschenka gesproch, wose grin solte wenn se sich gut geschickt here. Dat wo alles spannent. Die Eltere hon aach Plene gemach wie sie in die Kerich kehme: die katholische in die Mess un die Evangelische in de Gottesdienst. No dem hon se aach gepleent was desse packe teere: Kuche, Toss, Weissbrot, un epse va das Mittachesse en Schuraske odda en Galinhode mache teere. Wo en Familie woa wo net gut dran wo, do honse sich samme gemach un hon denne aach en stick Fleisch odde Weissmehl rumiert, fa dass keene ohne Weihnachte geblieb is. Das woa doch so scheen!
En odda zwoi Toche foa de Weihnachte is das Kristbeimje gemach woa. Do is alle Schmuck drohn gehonk woa: Kuchle, Kette, Ketzja, Farwichespapia, un noch viel Aneres. Uff de Heilicheomht sin dan die Leit in die Kerich. Das woa doch die grescht freit fa die Kinna un fa die Juchend. Schun lang defoa des die Kerich on gang is wore se dat. Die Kinna sin dorum geschprung, un die Junge hon sich getroff fa se prose un aach fa bisje riwa un niwa no de Med ze gucke. Das woa alles so pua un rein; do hot keine Schlechtichkeite in Sinn gehat. Fa de Kinna die Geschenka se brenge honse vun Kristkinntje gesproch. Dea Weihnachtsmann is im zweite Platz geblieb. Die Kinna hon das gleich gewuscht des Weihnachte dem Kristkinntje sei Geboatstoach is, un des das es Haupte vun Fescht is. Wenn die Kinna dan nachts am schlofe wore is das Kristkinntje komm un hat die Geschenka uff de Tisch gelecht odda unna das Kristbeimje. Moiens wenn die Kinna uffgestie sin un hon dan die Geschenka geguckt, do woa blos noch Freit. Wenn das aach blos Kleinichkeite wore, awa fa die Kinna woa das alles gut. Die Mamma hat de Kuche ferschnitt un en gute Kaffi gemach. So Erlebnisse hatte die reiche leit siche net! De ganse Toach dorich wore die Leit froh: hon sich besucht un gut gess.
Schoot dass es nimma so is. Heitsentoche schpreche die Leit jo blos noch vun Papainoel un uff dea grosse Toche tunse sich vollfresse un vollsaufe, un keine kimmat sich um de Neschte. Die Kinna tun konet me mit samme so einfach spihle, sin doch blos noch me am Komputadoa. Un das Kristkinntje is gans vorgess!
Weihnachte wore gute un scheene Zeite!
Glaabmário
www.marioglaab.blogspot.com.br

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Para refletir

PENSAMENTO
            Os pobres não são melhores que os demais, mas os ricos certamente são piores! Por isso a opção preferencial pelos pobres. A Igreja tenta fazê-la sempre de novo, porque Jesus de Nazaré fez dessa opção o norte de sua vida.

sábado, 24 de novembro de 2012

Reflexão natalina

NATAL: JESUS ENTRE OS ÚLTIMOS

Pe. Mário Fernando Glaab

            Cada ano se repete o dia do Natal. Para alguns ele é aguardado, para outros nem tanto. Para os cristãos o Natal tem significado todo especial. É a comemoração na qual fazem memória da presença humana de Deus no mundo e com o mundo, desde que Jesus nasceu até hoje e pelos séculos futuros. Cada cristão, além de reavivar a fé na presença de Deus no mundo, sente-se desafiado a levar essa notícia para todos os que ainda não creem nela. Deve compartilhar o Natal.
            Pergunta-se, no entanto, se o homem de hoje ainda se deixa impressionar pelo discurso tradicional que partia das verdades dogmáticas ensinadas durante muitos séculos, quando a visão do mundo era muito diferente de como é agora. Para o mundo hodierno, onde as pessoas estão envoltas em intermináveis questões de ordem social, moral, religiosa, política, econômica etc., ainda tem sentido dizer que o Deus eterno e todo-poderoso deixou o céu para, em Cristo Jesus, trazer a salvação ao ser humano? Falar isso para quem não conhece Deus, para quem só conhece dor, decepção, vícios, drogas; para quem não experimenta o calor da família, para quem não sente apoio e carinho de uma comunidade; para quem só sabe que no mundo existe roubalheira, exploração, corrupção, traição, injustiça, ou que vê as igrejas se digladiando entre si tentando atrair mais fiéis, prometendo resolver todos os problemas em troca de pesados dízimos, tem algum sentido? Anunciar para meninos de rua, para jovens drogados, para famílias separadas, para idosos abandonados, para pobres sem esperança, que esse Cristo nascido em Belém há dois mil anos expulsou demônios e que ele pode milagrosamente solucionar tudo isso, tem sentido? Mesmo que as igrejas estejam cheias de fiéis, estejam iluminadas e bastante enfeitadas, mesmo que nas casas se destaquem papais-noéis, as músicas soem por todos os lados, a mensagem natalina não será entendida e menos ainda, acolhida por esse mundo que tanto precisa dela. Que fazer?
            A verdade a ser celebrada e anunciada é sempre a mesma: Deus está conosco, está em nosso mundo, junto a todo ser humano. Ele veio para ficar. Ele é o Deus-Conosco: Jesus Cristo, o Salvador e, ele quer atrair todos a si. Tem palavras de salvação para todos, a começar pelos mais necessitados, os pobres de todos os rostos. A questão toda está em atualizar esta verdade para o tempo e o espaço que é o nosso. Levar a mensagem para fora dos templos, para as casas, para as ruas, para as cidades e para os campos, lá onde a maioria das pessoas está. Pouco resolve dizer para quem se encontra em situação de extrema necessidade que Deus o ama e que ele deve ser procurado na igreja no dia do Natal. Isso vira afronta desrespeitosa do miserável!
            A proposta mais viável talvez seja a de seguir os mesmos passos que os evangelhos de Mateus e de Lucas dão ao falar do nascimento e da vida pública de Jesus de Nazaré. Eles não usam altas teologias para falar do mistério, mas, na simplicidade falam do nascimento de um menino que não teve onde nascer; apresentam seus pais na mais na mais conflituosa situação, diante de Deus, da religião e das pessoas; falam da vida desse homem que, quando crescido, soube se colocar em favor da vida dos mais miseráveis, daqueles nos quais ninguém mais confiava, dos rejeitados por Deus e pelos observadores das leis religiosas. E o fez a tal ponto de enfrentar todos os obstáculos que encontrou até as últimas consequências: deu literalmente a sua vida por essa causa. Foi condenado à cruz em meio a esses miseráveis. O fez para que todos tenham vida; entendendo vida em dignidade e em plenitude. Os evangelistas chamam esse sonho-realidade de Reino de Deus.

Proposta atual
            Para que esse anúncio natalino seja atual para o homem e mulher de nossos dias e de nossa sociedade ele precisa de inserção na vida de cada um deles. Descer o anúncio das torres das igrejas, dos mercados, das lojas, das árvores enfeitadas. Os evangelistas fizeram-no em seu tempo, a Igreja ao longo dos séculos tentou fazê-lo, hoje os cristãos também precisam encontrar o jeito. Em paralelo aos relatos bíblicos, hoje se pode chamar a atenção sobre o casal, José e Maria, que em situação irregular não abandona a missão de pai e de mãe, mesmo que o mundo os emplaca de atrasados. José que não deixa sua noiva quando ela aparece grávida – não dele –, aparece com muita atualidade; Maria que aceita a vida em seu seio, mesmo não sabendo onde isso a iria levar, é mais do que atual! Quantas jovens mães solteiras passam por situações semelhantes? Quantos moços, quando ficam sabendo que a moça com quem “ficaram” está grávida, são tentados a sumir? O desprezo que o casal experimenta por ser pobre, a perseguição, o trabalho duro, tudo pode lembrar casos e mais casos bem atuais. Essa história, por ser tão atual, não deve ser contada como do passado, mas anunciada como a realidade presente hoje. É a vida de cada um e de cada uma, por pior que possa parecer. Nessa realidade, nua e crua, é preciso dizer que “Deus está conosco”. O anúncio se torna presença somente lá onde o cristão o pratica. Assim como Jesus, como José e Maria, o cristão deve se tornar anunciador da boa notícia para os “pastores” de hoje. Deve estar lá onde eles estão, compartilhando de suas vidas, compartilhando os seus problemas; ajudando-os a vencer os demônios que os possuem, anunciando-lhes o perdão dos pecados e prometendo-lhes vida nova com muita esperança no Pai que instaura constantemente o seu Reino neste mundo.

Ao mistério de Deus por outro caminho
            Com essa proposta não se nega em nada o mistério de Deus entre nós que se celebra no Natal. Quer-se apenas chegar a ele por outro caminho, pelo caminho dos que ocupam o primeiro lugar no Reino anunciado e vivido por Jesus: pelo caminho dos pobres e abandonados. Ao experimentar com eles e neles um pouco do verdadeiro amor, chega-se, sem dúvida, ao que é central no mistério do Natal e de Jesus, ao Amor infinito de Deus presente no mundo. Se o mundo já não consegue mais entender discursos dogmáticos e abstratos sobre Deus, sobre o seu poder e sobre a moral cristã, ainda pode entender e aceitar a linguagem do amor vivido e compartilhado na verdade e na pureza do coração. Por esse caminho talvez seja possível chegar e levar ao Deus que é Pai, que é Filho e nosso irmão, que é Espírito porque está presente em todos os lugares. Também os que não estão no mundo do consumismo estão nesse caminho. Podemos até dizer que eles são o caminho mais seguro para se chegar ao mistério do Natal.
            Celebremos Jesus que nasce em nossos templos com cantos, orações e muita festa, mas não deixemos de senti-lo e compartilhá-lo junto aos desvalidos da sociedade. É sem dúvida lá que ele renasce com mais intensidade, pois onde está um necessitado, lá ele está entre nós. Caso não o buscarmos e o encontrarmos lá, entre os “pastores” de hoje, os excluídos e espoliados da sociedade, provavelmente também não o encontraremos em nossos templos.
www.marioglaab.blogspot.com.br