sexta-feira, 7 de maio de 2021

A Igreja e a Cruz de Cristo

 

DIANTE DA CRUZ DE CRISTO – PIEDOSOS E ÍMPIOS

 

            A Igreja cristã não se cansa, e nem deve se cansar, de anunciar que Cristo Jesus Ressuscitou. Este é o anúncio que os apóstolos, desde o início, deram e testemunharam com tanta convicção que imediatamente muitos quiseram ser do grupo deles. Por meio desta pregação o Espírito tocava os corações das pessoas de boa vontade, fazendo com que buscassem conhecer quem era Jesus, e como viviam seus discípulos.

            Porém, logo surgiram dificuldades. Alguns acentuavam demais só este aspecto que levava a desvios com consequências negativas. Encantavam-se tanto com a ressurreição que esqueciam o que antecedeu a ela: a vida, a paixão e a morte na cruz. Coube então aos pregadores cristãos insistir que era o Crucificado que agora estava vivo. Aliás, os evangelhos insistem neste aspecto: “Sou eu mesmo” (cf. Lc 24,39). A crucificação era vergonhosa e não encantava. Porém esperar o retorno do Ressuscitado que haveria de levar consigo os que o aguardavam, atraia bem mais. Mas assumir a caminhada de Jesus até a cruz, para então chegar à ressurreição, era outra história.

            Durante os séculos afora, a Igreja sempre se preocupou em anunciar Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. Contudo, isso nem sempre foi tão claro assim. A tentação de ficar somente com o Cristo ressuscitado acompanhou a história até os nossos dias. Também hoje existe esta dificuldade e às vezes até se caracteriza como heresia.

Cristãos sem cruz

            Ninguém gosta de sofrer. Jesus também não gostou. No entanto, não é possível fugir da dura realidade que todo ser humano enfrenta. Mais cedo ou mais tarde, a dor e o sofrimento aparecem na vida de cada um. É bem tentador pedir Àquele que venceu a dor e a morte que afaste de nós toda experiência de sofrimento. Mas, sabe-se que isso não acontece assim. Muitas vezes é preciso aceitar a cruz, e mesmo assim, tocar adiante e confiar.

            Hoje a imagem da cruz se tornou mais um objeto ornamental: enfeita nossas casas, igrejas, cemitérios, e até nossos peitos. A cruz ocupa destaque entre os símbolos religiosos cristãos. Todavia, isto não quer dizer que ela é assumida conscientemente e testemunhada com os compromissos que ela simboliza. Parece que cada vez mais, apesar dos muitos sinais da cruz, existe um cristianismo de cristãos sem cruz.

            Mas, é possível uma Igreja do Ressuscitado sem o Crucificado? A vida, e o próprio Jesus, ensinam que não. Não dá para se desvencilhar da cruz e ser discípulo somente do Cristo ressuscitado.

Igreja e Cristo crucificado

            A partir do Cristo crucificado é que se torna claro o que é uma igreja cristã e o que ela não é. Sabendo do que levou Jesus à cruz, sabe-se por qual caminho a Igreja necessita ir para ser verdadeira. Assim como para Jesus não teve outra via, também para a Igreja não há outro caminho. O Cristo foi fiel ao projeto do Pai até o fim. Confiou mesmo quando se sentiu abandonado por todos. Assim igualmente a Igreja precisa confiar e, esperar que o Pai a receba junto com o Filho, vencedor da morte.

            Contemplando Jesus na cruz, vemos que Ele – a Palavra feito carne – se cala por amor aos homens para que os homens possam falar (se decidir). Vemos aí também a missão da Igreja, que diante do mundo, muitas vezes precisa se calar. Jesus, com sua cruz nos abriu à esperança da salvação; por isso, nós é que devemos nos decidir a favor ou contra. Ele se calou, está morto; e os mortos não falam. Nós, sentindo-nos confrontados com Ele, precisamos dar a nossa palavra e falar. Também a Igreja deve se calar – morrer – muitas vezes, para que os pecadores, os ímpios, possam falar.

            Aí se percebe como o desvio para uma igreja só do Ressuscitado (que esquece o Crucificado) é alienante. Quem é desse grupo, julga-se piedoso, e até se eleva a uma realidade superior dos demais. Contudo, quem se julga salvo, não carrega sua cruz, nem confia na salvação que há de vir de Deus.

            Diz um grande teólogo de nossos dias: “O conhecimento da cruz gera um conflito de interesses entre o Deus que se fez homem e o homem que quer ser deus” (Moltmann). Supera-se este conflito quando o homem deixa de querer ser deus e aceita na cruz de Jesus a condição do verdadeiro homem. Este homem que fala no silêncio de seu amor; não com o orgulho de suas conquistas. E continua o mesmo teólogo: “É difícil falar de Deus (de sua cruz) entre os piedosos, mas entre os ímpios nos sentimos livres para falar sobre ele”.

            Na cruz de Cristo Deus se faz um com todo ser humano, mesmo com o maior ímpio. Seu amor engloba a todos. Contudo, somente aquele que se reconhece pecador, pode compreender um pouco do que é a cruz de Jesus. Passando por ela, ele pode esperar compartilhar com Ele a Ressurreição.

Pe. Mário Fernando Glaab

sábado, 20 de março de 2021

Jesus e a Doença

DEUS DE JESUS

 

            Nós não temos dificuldades para falar de Deus atribuindo a Ele a responsabilidade do que nos acontece e foge de nossa capacidade de interferir ou de mudar. Facilmente dizemos que foi Deus quem quis isto ou aquilo! Será que é esse o ensinamento de Jesus? Jesus ensina que é Deus quem manda doenças, sofrimentos e castigos? Será que o Deus anunciado por Jesus é este Deus que nós tão facilmente classificamos como um deus que faz o que ele quer, castigando a uns e abençoando a outros ao seu bel prazer?

 

Para Jesus Deus é Pai

Na verdade, somos acostumados a falar de Deus como se o conhecêssemos de antemão, isto é, antes da revelação de Jesus. Até nos colocamos a pergunta se Jesus é Deus? Porém, esta não pode ser a atitude do cristão. Quando muito, esta pergunta pode ser formulada por alguém que se atém no Antigo Testamento. Um cristão, todavia, olha para Deus através de Jesus. Jesus é quem revela, ou melhor, mostra quem é Deus. E ele o mostra como Pai.

            A grande mensagem de Jesus em suas palavras, mas principalmente em seus feitos, está centrada em mostrar que Deus quer o bem de todos; mais, quer a salvação de todos. Na visão do evangelista João ela é chamada de Vida Eterna que já se inicia com a vinda de Jesus. Os sinóticos a traduzem por Reino de Deus.

            Quando Jesus ensina que precisamos acolher a vontade do Pai não está dizendo que devemos ser fantoches que não sabem o que fazem, mas que nos coloquemos em sintonia com Ele para que verdadeira Vida, o Reino, aconteça já aqui e agora. Jesus diante da morte iminente se coloca conscientemente na vontade do Pai para o bem do mundo, com o ato de amor mais puro; e assim mostra até que ponto Deus ama o mundo: entregando seu Filho para que o mundo tenha vida.

 

Deus e a dor

            Todas as criaturas são finitas, e como tais, sujeitas às limitações, isto é, às privações e aos sofrimentos. E sabemos por experiência que todos passamos por muitos sofrimentos, e o último desafio será a morte, que paira sobre cada um. Onde está este Deus bondoso e todo-poderoso quando sofremos, quando a dor nos encontra com toda sua realidade tremenda? Quando a doença crassa e faz suas vítimas; faz sofrer o doente e os que estão ao seu redor? Como responder cristãmente a estas intrigantes perguntas?

            Claro que não temos respostas lógicas para a dor e o sofrimento, seja de quem for; temos, no entanto, a resposta da fé cristã que nos diz: Ele está aí, não na doença, mas no doente! Ele está não no que faz sofrer, mas no sofredor. Este Deus, anunciado e vivido por Jesus (agora vivido pelos cristãos), está onde há dor, angústia, sofrimento, morte; mas sempre nas vítimas; nunca nos causadores destas coisas. Quem não protege, quem não cuida dos doentes e sofredores não está com Deus!

            Este é o Deus de Jesus, e o Deus que os cristãos professam. E é bom que cada vez possamos proclamar com mais convicção: “Ele está no meio de nós”. Porém, não vamos deixar a responsabilidade de combater o mal só para Ele, pois Ele conta conosco. Se nós estamos neste mundo é porque Ele nos colocou aqui e conta conosco para deixar o mundo um pouco melhor. Precisamos de Vida, do Reino de Justiça e de Paz; como cristãos contamos com a presença dEle, todavia, temos consciência de que podemos e devemos fazer a nossa parte, por pequena que seja. Ninguém é indispensável; todos contam. Que o Crucificado seja nossa iluminação e nossa força.

Pe. Mário Fernando Glaab.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Quaresma e Páscoa hoje.

 

O GRITO DOS CONDENADOS

 

            São tantos os gritos dos condenados que muitas vezes não os ouvimos mais. Eles acompanham a história da humanidade desde o início, e também hoje não deixam de ecoar por todos os lados. Há, no entanto, um grito que é sempre atual: o grito daquele que por fazer somente o bem a todos foi culpado pela maldade de toda a humanidade: o grito de Jesus de Nazaré.

 

Pai, afaste..., mas...

            Os cristãos sabem muito bem quando e porque Jesus deu este grito. Porém nem sempre veem nele a profundidade da tragédia. Lá estava todo sofrimento humano concentrado; lá estava igualmente toda confiança no amor a Deus, e a esperança de que o bem venceria sobre o mal.

            Jesus, como qualquer ser humano, grita diante da dor da condenação. Ele vê toda sua ação misericordiosa, todo seu anúncio do Reino de Deus sendo frustrado. Ele, inocente, condenado à morte ignominiosa, a mais terrível e vergonhosa: abandonado por todos, inclusive por Deus. Pai, afaste isso de mim, mas que não seja feita a minha vontade. É muito difícil captar a profundidade dessa oração do Homem de Nazaré. Ela vai além de qualquer explicação lógica, ou de qualquer compreensão humana.

            A resposta a esta oração vem somente no domingo da Ressurreição que, no entanto, só pode ser aceita na fé. Ele vive e é o Senhor. Ele bebeu o cálice dos condenados até as últimas consequências, sofreu com todos os condenados, e agora é o Vencedor.

 

Ele me entende

            Mesmo que se quer abafar o grito de tantos condenados, seus gritos continuam a perturbar nossos ouvidos. São os gritos dos famintos, dos doentes, dos viciados, das crianças abandonadas, dos idosos desamparados, dos injustiçados; enfim, de todos os pobres e sofredores. Existe também hoje todo um movimento condenatório: jogar a culpa sobre as vítimas. Elas são culpadas; pois são todos vagabundos, comunistas, ladrões, pior ainda, são diferentes! Os juízes são os bons (!).

            Não é possível entender o que se passa quando se usa somente a lógica humana. As vítimas sabem muito bem que os seus algozes nunca os entenderão. Eles têm as suas justificativas. Os que assistem suas tragédias, na maioria, ficam alheios. Mas, alguém os entende. Olhando para o Crucificado, todos os condenados de todos os tempos e lugares, vítimas de qualquer sentença, podem dizer, sem medo de errar: “Ele me entende!”.  Que seja assim, para que a esperança não morra no coração de ninguém, mesmo que seja o pior condenado.

            Porém, fica igualmente um forte apelo para que nós, como espectadores e membros da comunidade humana, tenhamos o olhar compreensivo. Não cedamos às campanhas de ódio disseminadas em nossa sociedade, mas saibamos ouvir o grito dos condenados, vendo neles o grito do Homem de Nazaré hoje e aqui. Não esqueçamos nunca que para o cristão, Jesus é o Senhor, e mais ninguém. Seu ensinamento é “amai-vos”, não “armai-vos”. Em consequência disso, a cruz (sofrimento, condenação) e a tragédia humana estão entrelaçados para sempre. Sejamos coerentes.

Pe. Mário Fernando Glaab.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Pandemia e liberdade cristã.

 

LIBERDADE E COMUNIDADE

 

            É interessante observar como as pessoas veem e se comportam diante de acontecimentos que atingem a todos, ou ao menos a muitos. Há as reações mais diversas possíveis. É o que podemos ver concretamente quanto à pandemia que mexe com todos nós. São inúmeras as reações das pessoas.

 

Diante da crise da pandemia

            Encontram-se muitas pessoas preocupadas que buscam uma saída para se defender a si e aos seus. Alguns buscam refúgio na ciência, aceitam as orientações de prevenção, esperam a solução pela vacina e pelo tratamento médico; outros tentam encontrar na fé a proteção; outros ainda, minimizam a coisa; dizem que não é bem assim, que dificuldades sempre têm, e que não é dessa vez que as coisas irão ser diferente. Por último existem também os negacionistas. São os que negam, não somente a gravidade, mas até a existência do problema. Na verdade, estes últimos, procuram desviar o olhar; esconder a cabeça na areia.

            Estas são algumas maneiras de as pessoas enfrentar a crise da pandemia que atinge o mundo todo, e que já vitimou muita gente pelo mundo afora, que está desafiando terrivelmente o nosso País. Qual será a melhor resposta que podemos e devemos dar diante destes acontecimentos que tanto sofrimento trazem consigo?

            Ciência e fé não se excluem. Nem uma nem outra sozinha têm a totalidade da resposta. Não há dúvida, que a ciência é fruto do desenvolvimento das capacidades que o ser humano recebeu de Deus. E, quando ele a usa para o bem, ela está conforme o plano deste mesmo Deus. As conquistas científicas devem ser para todos; nunca, para um pequeno grupo apenas, que por acaso pretende delas se apossar.

            A fé, quando verdadeira, confia no poder e na proteção de Deus. Isto não quer dizer que deixa de lado o esforço humano. Pelo contrário, quanto mais fé, tanto mais compromisso. O homem de fé sabe muito bem que Deus conta com o seu trabalho, e que deve ver no desenvolvimento e nas conquistas científicas a bênção do Senhor. Os trabalhos científicos respondem ao mandato de Deus de dominar a Terra. Portanto, não é verdadeira fé a daquele que se “esconde” em seu egoísmo, a atitude da pessoa que não vai à luta, mas diz que Deus deverá protegê-lo. Pode ser uma forma de tomar o nome de Deus em vão.

            Minimizar pode ser um grande perigo, fruto de imprudência e da irresponsabilidade. A crise está aí, ninguém a pode ignorar. Porém, à medida que se minimiza, não se dá a devida atenção e os cuidados para se precaver e cuidar dos outros. Isto pode ser muito perigoso.

            Negar é o pior que alguém pode fazer! Além de eliminar todo cuidado, ainda engana aos outros. Quem faz isto está fazendo um desserviço; está prejudicando a si e ao próximo. Não só mente, mas faz o mal ao outro, favorecendo a disseminação da doença. É ódio mesmo!

 

Que fazer? Ser livre em comunidade

            A crise mostra muito egoísmo disseminado. Em todas as atitudes ele pode estar presente e seduzir as pessoas. Nas soluções científicas o egoísmo pode se manifestar lá onde alguém, com mentalidade capitalista, quer se beneficiar egoisticamente, tirando lucros de algo que deve ser para todos. Infelizmente existem os que estão interessados em explorar também este campo.

            Nos que deixam toda responsabilidade apenas a Deus – ou até iludem aos outros a fazê-lo também -, o egoísmo é mais visível ainda. Além de não fazerem nada, levam outros ao engano. Às vezes, chegam até a roubar o próximo, aproveitando-se maldosamente da boa-fé das pessoas.

            Os que minimizam e os que negam a realidade crítica, não contribuem com nada. E, também eles são embusteiros. O egoísmo é a sua norma. Não pensam no outro, contudo, eles acham que sabem tudo e não ligam para o sofrimento do próximo.

            Alguém vai perguntar onde fica a liberdade de cada um? Sim. Somos livres, mas nunca para fazer o mal. E, mais ainda, prejudicar o outro que conosco forma comunidade. Todos somos livres para fazer o bem. E nossa liberdade vai até à liberdade do outro. Não somos ilhas, mas estamos em comunidade. A comunidade é um valor imenso, contudo, ela exige renúncia e sacrifício de cada membro para que tudo funcione bem.

            Para que exista verdadeiramente comunidade é preciso que o bem de todos ocupe o primeiro lugar. Cada um deve colaborar para que o bem comum seja atingido. Isto é exigência em qualquer comunidade, porém muito mais, na comunidade cristã, uma vez que ela, a partir de Jesus Cristo se fundamenta no amor mútuo, “amai-vos como eu vos amei”.

            Concretamente, quem diante de crise tão séria, como é a pandemia da Covid 19, age egoisticamente pensando somente em si, é um malfeitor. Alguém que diz “eu não vou tomar a vacina porque sou livre e faço o que bem entendo”, está prejudicando não somente a si, mas está fazendo o mal a numerosos outros. Ele não tem liberdade para tal. Afirma o grande historiador da Igreja, Pe. Beozzo, “Não somos livres, quando estamos em comunidade, para fazer o mal aos outros”. E quem não leva a sério as recomendações das autoridades sanitárias, não quer cuidar de si, está fazendo o mal ao próximo; e assim, destruindo a comunidade.

            É bom lembrar que além de pertencermos à comunidade cristã, pertencemos à comunidade humana que está no mundo todo. Somos responsáveis por toda a humanidade. Que o Espírito de Deus seja nossa luz para este grande desafio.

Pe. Mário Fernando Glaab.

sábado, 12 de dezembro de 2020

A Palavra de Deus e as palavras humanas

 

ESCOLHER OU OUVIR A PALAVRA

 

            Para nós cristãos existe a Palavra e as palavras. Entendemos como Palavra a que é de Deus, e como palavras as que são dos homens. A Palavra de Deus é única, é verdadeira e imutável, é sempre a mesma; as palavras dos homens são várias, limitadas e, muitas vezes mudam, conforme a situação e o momento. Quando muito, estão no encalço da verdade, mas em si não são a Verdade. A Verdade é somente Deus. E nós, os cristãos, cremos que esta Verdade se manifesta plenamente em Jesus Cristo.

 

A Palavra em palavras humanas

            No Evangelho de João encontramos, logo no início, uma afirmação central para a fé cristã. Ele diz: “A Palavras se fez carne e veio morar entre nós, e nós contemplamos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). É o mistério da encarnação do Filho de Deus: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

            Jesus viveu no tempo e no espaço; há dois mil anos na Palestina. Viveu na tradição deste povo, com seus costumes, sua cultura religiosa e sua fé. Era a Palavra falando nas palavras do seu povo. Tudo, na vida de Jesus de Nazaré, era manifestação de Deus, porém numa linguagem acessível às pessoas que com ele se encontravam. Claro que, da parte de quem com ele se encontrava, era necessário acolhida, boa vontade, que se transformava em fé. Nem todos viam nele o mistério de Deus. Muitos não o acolheram, se opuseram, e até o odiaram. Assim, não tiveram a graça de se encontrarem com a Palavra, pois viram nele apenas palavras que julgavam ser falsas.

            Porém, como diz João, os que o acolheram contemplaram sua glória. Isto é, transpuseram os limites do humano para chegar ao divino. Este é também o desafio para os discípulos de todos os tempos, também o nosso!

 

Saber discernir

            Estamos num mundo onde se escutam muitas palavras. É preciso escolher as que mais nos interessam; ouvi-las e peneirá-las para ficar com aquelas que de fato podem ser boas e úteis para nós. Isso não é tarefa fácil, e frequentemente acontece de nos perder em tantas ofertas, tantas escolhas que nos atordoam.

            Com relação à Palavra não deve ser assim. Não devemos colocá-la entre as muitas palavras. Apesar de usar nossas palavras (humanas), ela é sempre a Palavra. Ela não está diante de nós como as palavras humanas que precisam ser selecionadas. Ela exige decisão: sim ou não. Quem lhe dá seu sim, há de levá-lo a sério, e deixar que ela o ilumine e conduza. Quem lhe dá um não, há de ser coerente com sua escolha, no sentido de não a usar para justificar suas intenções que são particulares.

            No entanto, às vezes queremos usar da Palavra em nosso favor. Escolhemos passagens dos evangelhos ou das Escrituras para justificar o que já concebemos antes. Selecionamos certas passagens para justificar nossas atitudes. Só das que gostamos. Ou então escolhemos textos para “dar uma lição” aos outros. Isto é reprovável.

            Na verdade, isso acontece porque não queremos ter a Palavra muito perto de nós, uma vez que ela nos corrige, é exigente e propõe conversão. Nós preferimos andar pelos nossos caminhos, usar a nossa luz ao invés da luz da Palavra.

            Aquele que de fato é discípulo da Palavra – ou quer sê-lo – sabe ouvir. Não escolhe esta ou aquela passagem que lhe agrada. Ele acolhe a Palavra como um todo. Deixa-se orientar por ela. Não se faz de mestre dos outros, mas discípulo que quer compartilhar com os outros a sua experiência. Ele se alegra por poder ouvir sempre de novo o que a Palavra tem a lhe dizer ao coração.

            Portanto, é a Palavra que possui a iniciativa, orienta e conduz; não cabe a nós escolher o que queremos ouvir, porém estar atento ao que o Senhor fala.

Pe. Mário Fernando Glaab.

sábado, 14 de novembro de 2020

ANO NOVO, VIDA NOVA.


PERDOAR E RECOMEÇAR

 

            O fim do ano está aí; um novo ano se anuncia. Sabemos muito bem que numerar os anos é uma conveniência. O tempo sempre continua, ou melhor, nós continuamos no tempo. E na verdade, somos nós que dizemos que 31 de dezembro é o último dia do ano velho e 1 de janeiro é o primeiro dia de um novo ano. As coisas continuam no seu ritmo, sem levar em conta se é fim ou início de ano.

            No entanto, para nós que estamos no tempo, é ao menos oportuno fazer uma reflexão sobre o tempo que passou, o tempo que se chama hoje e, o tempo que virá (esperamos que para todos nós!).

 

Olhando para trás

            Não temos dúvida de que este ano que está se findando foi atípico. Trouxe muitos desafios e dificuldades para praticamente todos nós. Tivemos a surpresa assustadora da pandemia com todas as suas consequências. Muito sofrimento, dor, separações, mortes etc. Isto se refletiu nos relacionamentos familiares, laborais, eclesiais e, em toda a sociedade.

            Não podemos esquecer que a nível mundial aumentou o número de refugiados e de pobres em muitos países. Humilhações de todos os tipos; até as atitudes racistas cresceram. Em nosso Brasil, ao invés de se buscar convivência pacífica, o ódio, a violência, a mentira, a corrupção (até em ambientes religiosos) o descalabro com o meio-ambiente e com os grupos minoritários cresceram demais!

            Se por um lado nos sentimos obrigados a agradecer por estarmos bem, ou ao menos estarmos aqui, podendo viver e aguardar um novo ano; por outro lado precisamos tomar consciência dos nossos erros, pedir perdão e tentar perdoar.

            Este é o tempo que chamamos “hoje”. É hoje que olhamos para trás e para frente, mas com os pés no chão; uma vez que o passado já se foi, o futuro ainda não veio, mas o presente está aqui. Olhar para o futuro com esperança faz bem, e é necessário ter confiança em Deus e nas pessoas de boa vontade. Porém de nada vale tudo isso, se no presente não tivermos a coragem de corrigir o que no passado não deu certo, o que não foi bom.

 

Perdão

            É muito difícil pedir perdão, e mais ainda, perdoar. Na verdade, somente quem ama de fato sabe fazer isto; ao ponto de se afirmar que perdoar é divino. Nós cristãos aprendemos que o amor é uma virtude infusa por Deus (teologal) em nossos corações quando nos tornamos filhos dEle no dia de nosso batismo.

            Em sua nova Encíclica, Fratelli Tutti, o Papa Francisco ensina que “se o perdão é gratuito, então pode-se perdoar até a quem tem dificuldade de se arrepender e é incapaz de pedir perdão” (FT 250). Sábias palavras! Isto é possível somente para quem sabe ser pecador e, que se humilha diante de Deus com o coração contrito, acolhe gratuitamente Seu perdão. Sabe que não o merece, mas que é por pura graça do amor sem medida do Deus Amor. A partir dessa experiência – possível somente na caridade – é que se pode perdoar a quem nos ofendeu; mesmo, como diz o Papa, se ele tem dificuldade de se arrepender.

            Portanto, façamos hoje o esforço para nos abrir à experiência do amor misericordioso de Deus, e, a partir dele, pedir perdão a todos, também à natureza, ao meio ambiente, por todo bem que deixamos de fazer, por toda ofensa que fizemos; imbuídos do amor de Deus, perdoar a tudo, aos que nos ofenderam, mas também aos acontecimentos que não nos agradaram. Assim poderemos nos programar para um novo tempo, para o que desejamos a nós e aos outros no novo ano.

 

Recomeçar

            Nada melhor para recomeçar é ter presente o que já se foi, o que se vive hoje, para planejar o amanhã. O amanhã a Deus pertence, mas quem está nas mãos de Deus pode e deve sonhar com um amanhã sempre melhor. Quanto mais nós nos abrirmos ao amor de Deus, tanto melhor será o nosso futuro. Isto se faz num contínuo diálogo com Deus, com as pessoas e com o mundo que nos cerca. Todos devem ter o seu lugar e merecer o devido respeito. Sem diálogo sincero e respeitoso nada se faz e nada se consegue.

            Em um mundo tão violento e disseminador de ódio, onde se coloca a confiança nas armas que matam, termino com mais uma citação do Papa Francisco: “Armemos os nossos filhos com as armas do diálogo! Vamos ensinar-lhes o bom combate do encontro! ”. (FT 217). Não podemos esquecer que a violência (armas) gera violência, mas o amor (diálogo) cura e salva.

Pe. Mário Fernando Glaab.

sábado, 17 de outubro de 2020

Finados - Cura pela Cruz.

 

CURADOS PARA CURAR

 

            A Congregação para a Doutrina da Fé na conclusão da Carta Samaritanus Bonus, publicada em julho passado, falando sobre o cuidado das pessoas nas fases críticas e terminais da vida, diz: “Curados por Jesus, tornamo-nos homens e mulheres chamados a anunciar o seu poder que cura, a amar e a cuidar do próximo como Ele nos testemunhou”. É um forte apelo para que os cristãos, como Jesus, estejam próximos com seu amor e seu cuidado, a todos os sofredores. Porém, parte da própria cura: “curados”. Assim, antes de curar alguém é necessário fazer a experiência de ser curado.

Curados

            Somente quem se sente curado pode curar. Todos nós sofremos com doenças físicas, psíquicas e espirituais. Isto é próprio da limitação humana, pois somos todos criaturas, e como tal, imperfeitos. E além de tudo, erramos tantas vezes, causando sofrimentos a nós e a outros.

            Então, antes de mais nada, cada um deve se humilhar e acolher a cura que lhe é oferecida. Claro que existem inúmeras formas de curas. As doenças mais leves podem ser curadas com meios ordinários; outras com a ajuda de profissionais da saúde; ainda outras, através de orientações espirituais e intercessões, e assim por diante. No entanto, o conjunto de todo sofrimento que se abate sobre o ser humano somente pode ser curado por alguém que está acima dele. Somente por alguém que tem “palavras de vida eterna”, uma vez que a morte, humanamente falando, dá a última palavra para esta vida terrestre.

            A fé em Jesus Cristo que, como Deus e como homem, está entre nós a nos conduzir para a vida plena onde “não haverá mais choro, nem grito, nem dor” cura todo sem-sentido, e dá um sentido que vai para o além. Portanto, antes de pretender curar alguém, dando-lhe um sentido que transcende a todas as dores humanas, é preciso que se faça a experiência de ser curado. Uma vez curados por Ele, é possível ajudar na cura de tantos “doentes” que estão pelos caminhos do mundo. O verdadeiro cristão – curado por Cristo – torna-se anunciador do poder curador de Jesus Cristo. Bem mais que dizê-lo, ele o anuncia, para que todos também o possam acolher.

 

A cruz do sofrimento

            A dor e o sofrimento são simbolizados pela cruz. Tomar a cruz significa assumir o desafio do sofrimento. Mas também as cruzes de madeira, de metal ou que qualquer outro material que usamos sobre nós, que estão em nossas mesas e em nossas paredes, são sinais muito fortes da confiança em Jesus; este que carregou sua cruz até o Calvário, morreu nela, e ressuscitou. Assim, a cruz dá um sentido transcendente às nossas cruzes. Mostra que, apesar de sofrermos e sabermos que iremos passar pela morte, com Ele seremos vencedores. Até mesmo a morte não terá a última palavra. A cruz nos leva para além da morte.

            Neste mês de novembro, quando iremos visitar os cemitérios, certamente veremos muitas cruzes sobre as sepulturas. Elas podem até nos dar a impressão da derrota, da morte. Mas não. Na verdade, quando os familiares colocam uma cruz sobre as sepulturas onde jazem seus entes queridos que já partiram, estão expressando sua fé e sua esperança naquele que passou pela morte e voltou à vida. Podemos dizer que colocar uma cruz sobre as sepulturas é “curar” aquele que aí está sepultado. É entregá-lo com confiança, sob a sombra da cruz, nas mãos de quem ressuscitou; e que nos fez experimentar um novo céu e uma nova terra que se aproximam.

 

Carregar a cruz

            Ter coragem de abraçar e carregar a cruz é bem mais do que fazer alguma renúncia ou penitência. É colocar-se junto à dor do próximo; é curá-lo com a cruz que nós assumimos. Não a nossa cruz, mas a cruz de Jesus; amar e cuidar do próximo como ele o fez. Não é fácil levar a cruz para onde o sofrimento pesa mais. Bem mais fácil seria - se possível fosse - eliminar com um toque de mágica tudo o que faz sofrer. Mas, levar a cruz é ajudar o sofredor a olhar para frente com esperança, é fazê-lo sentir que é amado por Deus, mesmo que a dor parece negá-lo.

            Da mesma forma, vir ao encontro dos falecidos com a cruz, não somente como um objeto, mas como vida na esperança, é gesto de coragem curador. É preciso, portanto, ter muita coragem para colocar uma cruz no sofrimento do irmão, assim como colocar a cruz sobre uma sepultura. Somente os “curados” por Jesus o fazem com sentido. Tudo mais não passa de ritualismo vazio. Sintamo-nos curados e curemos com a cruz de Jesus.

Pe. Mário Fernando Glaab.