sábado, 4 de abril de 2020

A Economia como serva da Vida.


VIVER OU ECONOMIZAR

            Longe de pretender dar soluções para a questão tão discutida nestes tempos de pandemia sobre o que é mais necessário, proteger a vida das pessoas ou cuidar da economia, apenas quero fazer uma pequena reflexão a partir da fé cristã que se alimenta da Palavra de Deus. Jesus diz: “amai-vos” (Jo 15,12) e “quem quiser salvar a sua vida a perderá” (Mc 8,35), entre muitas outras afirmações que poderiam nos servir como material para pensar.

Viver e economizar para quê?
            Boa pergunta. Quando não se tem clara a resposta a esta pergunta as coisas podem tomar rumos diferentes, e até catastróficos. Se o viver consistir apenas na busca de satisfações, do ter, do poder, do prazer, enfim do consumir desenfreadamente, ele logicamente se preocupa com a economia. Como organizar as coisas para cada vez possuir mais? Caso a economia se justificar pela economia, a vida se torna sua escrava. Mas, por outro lado, se a economia estiver ao serviço da vida, tudo muda. Sua finalidade será viver.
            Popularmente se diz que alguns “comem para viver, outros vivem para comer”. Talvez seja simplório, mas ajuda a entender. Poderia se dizer também que alguns vivem para economizar (acumular bens), outros economizam para viver (trabalham com inteligência e esforço). Qual das duas atitudes vai ao encontro do ensinamento evangélico? Salvar a vida e amar o próximo, conforme o Divino Mestre ensina, vai em que direção? Sabemos que Jesus deu a sua vida para que nós tivéssemos vida. Ele a perdeu, segundo a “economia”, mas a recuperou para nós e para ele, segundo uma outra visão de vida.
            No mandamento do amor Jesus nos ensina que precisamos ir além daquilo que se pode merecer, pois quando ele diz “como eu vos amei”, deixa claro que o nosso amor deve ser gratuito, uma vez que nós não fizemos nada para merecer o que ele fez por nós. Ele não nos perguntou se queríamos sua entrega na cruz, simplesmente se entregou. Amar, então, é para nós o desafio de sairmos de nós mesmos para nos perder no outro. Deixar de ser, para que o outro seja. São João Paulo II, dirigindo-se às famílias, disse: “Amar significa dar e receber aquilo que não se pode comprar nem vender, mas apenas livre e reciprocamente oferecer” (Gratissimam sane, 11), salientando assim a maravilha da gratuidade que o verdadeiro amor contém.

Amar para viver
            A economia, os bens em geral, devem estar ao serviço da vida de todos. E quem ama sabe disso; quem não ama não consegue entende-lo, uma vez que adora os bens, fazendo-se deles servo.
            Todos temos necessidades e contamos com a caridade do próximo para atendê-las. Da mesma forma, sabemos que os outros têm necessidades e que contam conosco para satisfazê-las. No entanto, geralmente raciocinamos assim: eu ajudo conforme as minhas possibilidades e, aí cada um faz os seus cálculos, posso ajudar com tanto, ou não posso, porque tenho estas e aquelas despesas... Partimos de nosso mundo para o mundo do necessitado. Mas, será que é isto que Jesus ensina ao dizer “como eu...”?
            Chama-me a atenção uma passagem do Deuteronômio onde se lê: “Se houver no meio de ti um pobre (...), não endureças teu coração, nem feches tua mão a teu irmão pobre. Ao contrário, abre-lhe generosamente a tua mão e empresta-lhe o que lhe falta em sua necessidade” (Dt 15,7-8). Aí se vê que o pobre é o ponto de partida; é a sua necessidade que importa, não a nossa quantidade de bens ou os nossos projetos. É a vida do pobre que está em jogo, não a nossa economia. Essa foi a motivação de Jesus: ele olhou a nossa necessidade e por ela se doou.
            Portanto, acho não ser justo separar vida e economia, no sentido de se optar ou por uma ou por outra. A vida sempre está em primeiro lugar, e, a economia deve estar ao seu serviço. Todos necessitamos lutar para ter o suficiente para defender a vida de todos, a começar pelos mais pobres e fragilizados. É isto que a Palavra de Deus ensina, que Jesus viveu, e que nós, seus discípulos precisamos aprender e colocar em prática. Que a vida de todos esteja sempre em primeiro lugar e, que ninguém se arvore em achar que pode “sacrificar” a vida dos mais fracos para salvar uma economia!
Pe. Mário Fernando Glaab.

terça-feira, 10 de março de 2020

En Hunrickisch Spessche


EN WITZCHE

Heitzens Toche sin die Zeite jo anneschta wie Fria. Die Kurissade die sin so schlau, die tun jo die Grosse vielmols in schlechte Leientiche leche. Emol hot mo so em Kuri sich was geplent: ea wolt so em Biciclet vun Papai hon, awa dea wolt keins koofe. Naja, horra gedenkt, un geht zum Papai. “Papai, sorra, ich weis Alles!” De Papa is so vorschrock; “du weist Alles? Dan bleib schen ruich! Soo mo Nicks fa die Mamma”. “Ja, dass mach ich, awa du muscht mich en Biciclet koofe” soat dan de traurich Kuri. Un so hat das Kuriche sei Spielsache kriet.

Weil das so funcioniet hot, do hot de Jung mo gedenkt: “Och ich sprementiere das mo nochmol”. Wie ea die Mamai gesien hot do is ea gleich no gelof un gesaat: “Mamai, ich weis Alles!” Barbaridode: die Mamai is vun Schrecke necksch umgefal. Sie soat zum Kuri: “Ruich, ruich! Los net des de Papai do was wisse gricht”. “Gut, ment de Kerl. Awa Mamai, dan will ich em Celular han”. Die orm Mama must dem traurig Kuriche dat Celular beischaffe.

Das hat spass gemach. Wen ich jedesmol en schen Geschenk grieche, um blos soon ich weis Alles, dan mus ich das doch noch viel benutze, hat dea Lausbub fa sich gedenkt. Un im dem Moment kommt de Postmann – de Carteiro -, das wolt de Kuri net verliere. Geht jo hin un guckt de Kerl oan, un gleich gesoat: “Ich weis Alles!” De Cartere is stehn geblieb wie en Statue; un uff emol komme die Trene in die Aue. Noch en Moment un ea nemt de Kuri in die Orme un halt oan: “Mei Kind, ich liwe dich, awa pass uff un soch Nicks iwe dei Papai!”. Uff dass hat de Kuri awa oach net gewat.
Glaabsmario.

Páscoa, vida em transformação.


TESTEMUNHAS DO RESSUSCITADO

            A Páscoa é a festa número um dos cristãos. Se Cristo não ressuscitou vã é a nossa fé, diz São Paulo (cf. 1 Cor 15,14). Ser cristão, mas não crer na ressurreição de Cristo é contradição. Portanto, isso não é possível. Todavia, é preciso refletir e aprofundar o que quer dizer crer na ressurreição; e, como tal, comemorar a Páscoa.

As testemunhas
            Para os cristãos a fé na ressurreição de Jesus está toda ela baseada no testemunho; primeiramente dos Apóstolos, depois dos crentes de todos os tempos. O Ressuscitado se fez ver a eles. A partir de então, eles o anunciaram com palavras e com obras, com todo o seu ser. Deram a sua vida por esta causa. Melhor ainda, o testemunho deles é a própria ressurreição agindo neles.
            Isto quer dizer que os cristãos, desde os tempos da Igreja primitiva até os dias de hoje, só deram e dão verdadeiro testemunho quando têm um encontro pessoal com o Ressuscitado. É experiência única, pela qual é necessário passar. Não basta repetir o que outros falaram: necessário é “ver” para testemunhar. Aquele que se fez ver aos discípulos que o acompanharam no caminho da cruz e da morte foi o Ressuscitado, mas o fez àqueles que o acompanharam. Também hoje, ninguém pode mostrar o Ressuscitado, mas é Ele que se faz ver, aos que o acompanham. Isto é, aos que tem boa vontade e não se fecham às múltiplas manifestações dele. A maneira de se fazer ver do Ressuscitado que mais toca as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares é o testemunho dos pequenos e dos humildes; daqueles que vivem no cotidiano lutando para defender a vida e compartilhar o pouco que são e que têm com todos e com tudo. É o doar-se da mãe que só pensa no bem da família, é o pai que trabalha de sol a sol, enfrentando injustiças e cansaços, para sustentar a família; é o defensor da natureza, da dignidade das criaturas; aquele que luta, mesmo que tudo pareça levar ao fracasso; enfim, é aquele que crê, mesmo que tudo pareça desacreditar. Aqueles que têm consciência de que Jesus não veio ao mundo para ser adorado e glorificado, mas para servir e salvar a humanidade, e se colocam em seu seguimento. Estas são as verdadeiras testemunhas que o mundo precisa para crer e poder celebrar a Páscoa também hoje.

Cristão indiferentes
            Somos tentados a ficar indiferentes, uma vez que não queremos ser perturbados nem perturbar. Porém, é bem disso que o mundo gosta! O mundo prefere o sossego para poder levar a sua vidinha; não a verdadeira vida. Cristãos indiferentes são bem-vindos na mentalidade do mundo, pois eles deixam as coisas como estão; na verdade, com sua omissão, aprovam as maracutaias dos aproveitadores que não dormem. Para os cristãos indiferentes se aplica muito bem o princípio, que quem não cresce se deteriora, quem não inova esclerosa; quem põe pijama de dia, está colocando um pé na cova, pois a vida é dinamismo, é ação comprometedora.
            Que fazer então? Para que não se fique entre os indiferentes, nada melhor que fazer ressoar a Boa Notícia do Ressuscitado para o mundo acomodado. Testemunhar a presença do Ressuscitado com palavras, mas principalmente com a vida comprometida. Cada cristão, retratando Jesus Cristo através de sua fé, de sua razão e de sua vivência comunitária; retratando o Cristo que vai ao encontro dos últimos de todos, comprometendo-se com eles sem perguntar no que isso implica. Deixar os interesses egoístas e optar responsavelmente pelo que é bom para todos. Este há de ser o testemunho hoje, merecedor de crédito. O cristão deve estar convencido de que ninguém é capaz de dizer aos outros senão aquilo que é capaz de dizer a si mesmo de modo verdadeiro. Se a Ressurreição do Homem de Nazaré, crucificado e morto, não desacomoda a própria vida, também não irá tocar a vida das pessoas do mundo acomodado e egoísta.

Beleza do amor
            A ressurreição de Jesus é a confirmação do amor incondicional que ele demonstrou com toda a sua vida, coroada em sua morte de cruz. É a confirmação da beleza do amor. Deus mostra que o amor é a beleza por excelência, pois é a verdade em toda sua profundidade. No Ressuscitado se identificam o amor, a beleza e a verdade. Os verdadeiros cristãos são testemunhas disto. Isto quer dizer que sua vida precisa ser uma busca contínua de amor, de beleza e de verdade. Assim terão autoridade para “mostrar” a presença do Ressuscitado que se quer fazer ver para todos.
            Lembremos que o amor é belo e o belo é amável e amado. Jesus Ressuscitado é verdadeiramente o amor e a beleza de Deus em nossa história. Nós somos testemunhas disso!
Pe. Mário Fernando Glaab.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Quaresma e Páscoa.


OLHAR O CRUCIFICADO, VER O RESSUSCITADO

            Quaresma e Páscoa. Mais uma vez estão diante de nós estes tempos litúrgicos fortes que a Igreja nos propõe. No tempo quaresmal tudo se volta para a morte de Jesus na cruz, para o Crucificado; no tempo pascal tudo se volta para a ressurreição de Jesus, para o Ressuscitado.

Quaresma: tempo de penitência
            Tradicionalmente a quaresma é vista como um tempo de penitência que pretende levar a uma sincera conversão. Refletir sobre os sofrimentos de Cristo, e, a partir deles, viver intensamente como cristão, preparar a semana santa, para na sexta-feira da Paixão se reconciliar com Deus e com os irmãos.
            São muitas as propostas para se viver bem este tempo: renúncias, orações, meditações da Palavra de Deus, via-sacras, obras de caridade (Campanha da Fraternidade) etc. Tudo isto dentro do espírito penitencial. Existem também superstições que acompanham tais exercícios, mas não hão de nos perturbar.
            As pregações quaresmais, quando sérias, pretendem levar as pessoas a ver que também hoje continuam o sofrimento e morte de Cristo lá onde tem gente sofrendo e morrendo. Sempre que algum ser humano é vítima de violência, quando lhe faltam dignidade e respeito, quando não consegue viver na liberdade, ter sua família, cuidar de seus filhos, ter apoio da sociedade, a paixão de Jesus de Nazaré continua também hoje. O apelo da Igreja é para que cada pessoa de boa vontade, principalmente neste tempo quaresmal, una seus esforços aos demais para, ajudando, diminuir o peso da cruz que pesa sobre eles.
            Olhar para o Crucificado faz ver o sofrimento humano; assim como olhar para o sofrimento humano faz ver o Crucificado. Isto acontece para quem olha com olhar de fé. Faltando a fé, não se vê nada. Aliás, sem ela, não faz sentido algum ter crucifixos espalhados pelas igrejas, pelas casas, sobre os peitos e em qualquer lugar. São simples enfeites – se é que alguém pode se enfeitar com o sinal de sofrimento e morte!

Páscoa: tempo de alegria
            Na Páscoa e no tempo pascal, tudo convida à alegria. É vida nova: Jesus ressuscitou. Ele venceu o sofrimento, a morte; e, deu-nos a possibilidade de recomeçar e esperar também a vitória sobre tudo o que nos faz sofrer.
            Se os sinais do sofrimento e da morte são bem visíveis, por sua vez os sinais da alegria e da vida plena não o são tanto. Mesmo que tem muita coisa boa ao nosso redor, ainda existe muita coisa má. Sabe-se muito bem que o mal continua afligindo as pessoas, e que o pecado ainda produz muita confusão, tem consequências terríveis sobre a vida das pessoas. Como fazer para viver na alegria da Ressurreição hoje?
            É bom lembrar que não são os discípulos que veem o Ressuscitado, mas é o Ressuscitado que se faz ver aos discípulos. O ser humano por si não consegue ver a Páscoa. Quem a mostra é Aquele que foi crucificado. Jesus Ressuscitado se faz ver somente aos discípulos. Isto é, àqueles que o contemplaram na cruz, no sofrimento do pobre, do injustiçado, do excluído, do faminto e de todos os desvalidos do mundo. Somente estes, por crerem que Ele amou até o fim e se colocam junto aos sofredores, o verão, na fé, também em sua glória.
            Portanto, para experimentar a alegria da Páscoa é necessário passar pelo sofrimento da Quaresma; para ver o Ressuscitado é preciso ver o Crucificado. Se o Crucificado é visto no sofrimento do mundo, o Ressuscitado é visto na vitória sobre ele, mas tudo isto somente pode ser percebido com os olhos da fé, com os olhos do coração. Com os olhos do coração contemplar o Crucificado e os crucificados; com os mesmos olhos deixar que o Ressuscitado e os ressuscitados se façam ver (aos discípulos).
            Boa Quaresma e Feliz Páscoa.
Pe. Mário Fernando Glaab.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Gute Zeite - Weihnachte fria in de Kolonie.


WEIHNACHTE IN DE KOLONIE

Mea honn jo ganz in de Kolonie gewohnt, un wohre oach so ormche. Mea wohre viel Kinna im Haus, awa es woa doch imma scheen; hauptsechlich wenn so grosse Toche wohre wie Weihnachte odda Oschtre.
Mea kunde net grosse Sache mache, awa, honn uns doch so gefreit wenn ma en kleen Geschenkche griet honn. Vielmos woa es blos bische Schokolode odde en Ostreei. Das woa schun en Grund fa sich so se freie dass ma gesun hat. Di Mamma um de Pappa hatte net viel fa fein Esse mache, awa manichmol homma doch em Schweinche geschlacht un Woscht gemach. Dass schun poo Toche voahea. Zwei Toche voa de Weihnachte hat die Mamma Toss gepackt; mea muste das Holz bei schaffe un de Packhofe scheen heis mache. Alsmol hat es net richtich gebrennt, dann honn ma mit samme gegrintz un dischkutiat, awa ma honn es doch hin griet. De letschte Toach voam Heiligeohmt dann hat die Mamma noch Kuche gepackt. Barbaridade! Dea hat so gut geschmeckt. Ma must awa watte bissa richtich kalt woa fa se esse. Die Mamma socht dess heisse Kuche tet Leibweh gewe. Um mea hatte ach vielmols son Panzweh. Das hat alles dezu geheat. Un so voa Ohmt, dan is de Krissboam gemach woa: so em Pinhebemche is uffgeschtellt woa, scheen beschmickt mit Kugelch, Kette um Ketzcha. Dan woa die Freide gross.
Was oach imma dezu geheat hat woa in die Kerich gehen. Die meascht mol sin die Buwe in die Kristmette gan. Die woa in Mittenacht, und die Kerich woa net dicht. Das hat alles Nicks gemach. De Pappa iss im Toach in die Kerich gang. Die Mamma kund net imma mit, weil sie musst doch die ganz Arweit mache. Wenn awa Mess in de Kapell woa – dichta bei uns – dann is sie oach gang.
Um die Zeit hat keine Televissão un Radio – naja, mea hatte son Din wo vielmos blos gerauscht hat – hon mea net so viel geheat. De Pappa un di Mamma honn Geschichtcha votseelt vun fria un wie sie die Weihnachte in ihre Familie gefeiat hette. Alsmos honse Weihnachtslieda gesunn. Das woa so scheen! Heit is das alles vorbei. Die Junge wisse gonet me wie das Lewe fria woa, un wie die Familie in Friede das Kristkind gewat hot. Sicha is das Jesuskind bessa oangenomm gang in de Einfachkeit wie heit in alle Schmuck un reiche Geschenke.
Frohe Weihnachte, mit dem Gottessege.
Glaabsmário

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Viver hoje na caridade.


NOSTALGIAS E SONHOS

            Quem de nós nunca sentiu saudades dos tempos de criança, de outras épocas, de outras situações? Ainda mais quando já se tem uma certa idade, alguns anos a mais de vida; para não falar somente dos idosos. Igualmente podemos perguntar quem de nós nunca sentiu saudades do futuro; quem nunca sonhou com uma realidade diferente da que está vivendo? Também mais intenso em pessoas que já estão “cansadas” dos desafios do hoje de cada dia. São as nostalgias e os sonhos, que não são reais; apesar de sua imensa influência na vida de qualquer um, tanto maiores quanto mais distante da vida real.

Viver no passado
            É bem mais cômodo viver no passado que no presente. Além de se criar para o passado uma espécie de tempo perfeito; reprova-se o tempo presente. Hoje as coisas são ruins. É uma maneira de se estar acomodado e nada fazer para contribuir na caminhada que deve continuar. Justifica-se a própria atitude de não-colaboração, com louvores aos tempos passados e críticas negativas aos tempos atuais. Saudades do passado e reprovação do presente.
            Essa forma de viver não é boa em qualquer relacionamento humano, mas ela tem consequências enormes quando atinge a espiritualidade ou a vida religiosa das pessoas. Existe um voltar ao passado nos costumes de rezar, de se vestir, de falar e, até de se comportar como se fazia há cinquenta ou sessenta anos atrás na Igreja: tempos pré-conciliares ou imediatamente pós-conciliares. Pergunta-se: será que naquele tempo tudo estava certo e hoje não está mais? Será que os costumes de então eram os ideais? Mas eles não eram também frutos de uma determinada cultura?

Viver no futuro
            Outra tentação que desloca da realidade do presente é sonhar com um futuro perfeito, mas que não tem suas raízes no presente. Procura-se fugir do agora que não é bom. Quanto menos sujar as mãos hoje, tanto mais se aproxima desse futuro sonhado. Na expressão popular se diz “viver no mundo da lua”. A lua está hoje tão brilhante e grande, porque está cheia, mas em alguns dias ela não brilha e nem aparece, pois está em sua fase minguante. Contudo, certas pessoas sonham, sonham, mas nunca acordam.
            Também esta forma de viver não é boa, principalmente quando atinge certas espiritualidades. É importante esclarecer que estes sonhos não têm nada de haver com esperança; que é uma virtude essencial na vida cristã.  Viver no futuro significa deixar o presente, a situação do aqui e agora, de lado. Não sujar as mãos nas poeiras da caminhada.

Viver no presente
            Viver no presente – isto vale para todas as idades – consiste em juntar o passado e o futuro para o aqui e o agora. É contar com a experiência própria e de outros, sonhar com o sucesso e com a graça de Deus, mas fazer tudo o que estiver ao alcance hoje, nem que seja difícil. É atualizar o que se crê e antecipar o que se espera na caridade concretamente vivida.
            Não basta querer viver da história, mas é preciso viver na história; não basta sonhar com o futuro, mas é preciso antecipar o futuro na vida que se tem hoje. É neste hoje que o Espírito de Deus se manifesta e se revela, assim como se manifestou no passado e irá se manifestar no futuro; tudo no seu devido momento e com as devidas pessoas. Hoje é a nossa vez de acolhê-lo.

O hoje do pobre
            O pobre – qualquer tipo de pobre – não tem muitas nostalgias e sonhos. Ele, geralmente, tem fé e esperança que vive na caridade. Caridade para com Deus, para com o seu semelhante e para com o meio onde está. Ele tem saudades do quê? Sonha com o quê? Talvez tem saudades dos momentos em que sentiu o amor de Deus mais perto através de gestos humanos que pôde experimentar; talvez sonha em se encontrar com o Deus justo que lhe perdoe suas fraquezas e o coloque em um bom lugar. Nada que vai muito além disso.
            Todavia, tudo isso ele tenta expressar hoje com o seu jeito de ser e de cultuar. Ele tem seus próprios ritos, sua própria maneira de sobreviver. Não tem as mínimas condições de observar o que as instituições exigem, nem mesmo o que os cânones da Igreja dizem. Ele faz do jeito como sabe e como pode. Isto não quer dizer que o pobre não tenha seus ritos e suas formas de expressar sua religião. Alguém disse que “os sacramentais são os sacramentos dos pobres”. Penso ser uma grande verdade, pois ele não possui a clareza e as condições que são exigidas para oficialmente receber os sacramentos; porém tem a intenção e a vontade que superam o que está faltando. Mas, como e em que quantidade? Só Deus é que sabe.
            Se é verdade que a história é a mestra da vida, alguém pode dizer que o pobre, por não ter saudades do passado e nem sonhar com o futuro, tem pouco a aprender com ela. Mas, talvez não seja assim, uma vez que para o pobre a história se concentra no presente, no hoje de suas preocupações. É neste presente que ele aprende continuamente. É no presente que ele experimenta o tempo, na fé, na esperança e na caridade. Assim como também a Igreja é fruto do tempo, e que sempre precisa se atualizar, fazer-se hoje; assim também o pobre traz a sua história, o seu tempo para hoje, e o vive com todo o seu ser.
            Que todas as nostalgias e todos os sonhos se tornem realidade hoje para nós. É este o tempo que Deus nos dá; é este o tempo no qual precisamos reviver o passado, preparar o futuro, contudo vive-lo intensamente hoje no amor compromissado com Deus, com o próximo (mais necessitado) e com o meio que nos circunda. Nada de nostalgias e de sonhos, mas pés no chão!
Pe. Mário Fernando Glaab.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Natal hoje.


NATAL: JESUS ENTRE OS ÚLTIMOS
Pe. Mário Fernando Glaab

            Cada ano se repete o dia do Natal. Para alguns ele é aguardado, para outros nem tanto. Para os cristãos o Natal tem significado todo especial. É a comemoração na qual fazem memória da presença humana de Deus no mundo e com o mundo, desde que Jesus nasceu até hoje e pelos séculos futuros. Cada cristão, além de reavivar a fé na presença de Deus no mundo, sente-se desafiado a levar essa notícia para todos os que ainda não creem nela. Deve compartilhar o Natal.
            Pergunta-se, no entanto, se o homem de hoje ainda se deixa impressionar pelo discurso tradicional que partia das verdades dogmáticas ensinadas durante muitos séculos, quando a visão do mundo era muito diferente de como é agora. Para o mundo hodierno, onde as pessoas estão envoltas em intermináveis questões de ordem social, moral, religiosa, política, econômica etc., ainda tem sentido dizer que o Deus eterno e todo-poderoso deixou o céu para, em Cristo Jesus, trazer a salvação ao ser humano? Falar isso para quem não conhece Deus, para quem só conhece dor, decepção, vícios, drogas; para quem não experimenta o calor da família, para quem não sente apoio e carinho de uma comunidade; para quem só sabe que no mundo existe roubalheira, exploração, corrupção, traição, injustiça, ou que vê as igrejas se digladiando entre si tentando atrair mais fiéis, prometendo resolver todos os problemas em troca de pesados dízimos, tem algum sentido? Anunciar para meninos de rua, para jovens drogados, para famílias separadas, para idosos abandonados, para pobres sem esperança, que esse Cristo nascido em Belém há dois mil anos expulsou demônios e que ele pode milagrosamente solucionar tudo isso, tem sentido? Mesmo que as igrejas estejam cheias de fiéis, estejam iluminadas e bastante enfeitadas, mesmo que nas casas se destaquem papais-noéis, as músicas soem por todos os lados, a mensagem natalina não será entendida e menos ainda, acolhida por esse mundo que tanto precisa dela. Que fazer?
            A verdade a ser celebrada e anunciada é sempre a mesma: Deus está conosco, está em nosso mundo, junto a todo ser humano. Ele veio para ficar. Ele é o Deus-Conosco: Jesus Cristo, o Salvador e, ele quer atrair todos a si. Tem palavras de salvação para todos, a começar pelos mais necessitados, os pobres de todos os rostos. A questão toda está em atualizar esta verdade para o tempo e o espaço que é o nosso. Levar a mensagem para fora dos templos, para as casas, para as ruas, para as cidades e para os campos, lá onde a maioria das pessoas está. Pouco resolve dizer para quem se encontra em situação de extrema necessidade que Deus o ama e que ele deve ser procurado na igreja no dia do Natal. Isso vira afronta desrespeitosa do miserável!
            A proposta mais viável talvez seja a de seguir os mesmos passos que os evangelhos de Mateus e de Lucas dão ao falar do nascimento e da vida pública de Jesus de Nazaré. Eles não usam altas teologias para falar do mistério, mas, na simplicidade falam do nascimento de um menino que não teve onde nascer; apresentam seus pais na mais conflituosa situação, diante de Deus, da religião e das pessoas; falam da vida desse homem que, quando crescido, soube se colocar em favor da vida dos mais miseráveis, daqueles dos quais ninguém mais confiava, dos rejeitados por Deus e pelos observadores das leis religiosas. E o fez a tal ponto de enfrentar todos os obstáculos que encontrou até as últimas consequências: deu literalmente a sua vida por essa causa. Foi condenado à cruz em meio a esses miseráveis. O fez para que todos tenham vida; entendendo vida em dignidade e em plenitude. Os evangelistas chamam esse sonho-realidade de Reino de Deus.

Proposta atual
            Para que esse anúncio natalino seja atual para o homem e mulher de nossos dias e de nossa sociedade ele precisa de inserção na vida de cada um deles. Descer o anúncio das torres das igrejas, dos mercados, das lojas, das árvores enfeitadas. Os evangelistas fizeram-no em seu tempo, a Igreja ao longo dos séculos tentou fazê-lo, hoje os cristãos também precisam encontrar o jeito. Em paralelo aos relatos bíblicos, hoje se pode chamar a atenção sobre o casal, José e Maria, que em situação irregular não abandona a missão de pai e de mãe, mesmo que o mundo os emplaca de atrasados. José que não deixa sua noiva quando ela aparece grávida – não dele –, aparece com muita atualidade; Maria que aceita a vida em seu seio, mesmo não sabendo onde isso a iria levar, é mais do que atual! Quantas jovens mães solteiras passam por situações semelhantes? Quantos moços, quando ficam sabendo que a moça com quem “ficaram” está grávida, são tentados a sumir? O desprezo que o casal experimenta por ser pobre, a perseguição, o trabalho duro, tudo pode lembrar casos e mais casos bem atuais. Essa história, por ser tão atual, não deve ser contada como do passado, mas anunciada como a realidade presente hoje. É a vida de cada um e de cada uma, por pior que possa parecer. Nessa realidade, nua e crua, é preciso dizer que “Deus está conosco”. O anúncio se torna presença somente lá onde o cristão o pratica. Assim como Jesus, como José e Maria, o cristão deve se tornar anunciador da boa notícia para os “pastores” de hoje. Deve estar lá onde eles estão, compartilhando de suas vidas, compartilhando os seus problemas; ajudando-os a vencer os demônios que os possuem, anunciando-lhes o perdão dos pecados e prometendo-lhes vida nova com muita esperança no Pai que instaura constantemente o seu Reino neste mundo.

Ao mistério de Deus por outro caminho
            Com essa proposta não se nega em nada o mistério de Deus entre nós que se celebra no Natal. Quer-se apenas chegar a ele por outro caminho, pelo caminho dos que ocupam o primeiro lugar no Reino anunciado e vivido por Jesus: pelo caminho dos pobres, enganados e abandonados. Ao experimentar com eles e neles um pouco do verdadeiro amor, chega-se, sem dúvida, ao que é central no mistério do Natal e de Jesus, ao Amor infinito de Deus presente no mundo. Se o mundo já não consegue mais entender discursos dogmáticos e abstratos sobre Deus, sobre o seu poder e sobre a moral cristã, ainda pode entender e aceitar a linguagem do amor vivido e compartilhado na verdade e na pureza do coração. Por esse caminho talvez seja possível chegar e levar ao Deus que é Pai, que é Filho e nosso irmão, que é Espírito porque está presente em todos os lugares. Também os que não estão no mundo do consumismo estão nesse caminho. Podemos até dizer que eles são o caminho mais seguro para se chegar ao mistério do Natal.
            Celebremos Jesus que nasce em nossos templos com cantos, orações e muita festa, mas não deixemos de senti-lo e compartilhá-lo junto aos desvalidos da sociedade. É sem dúvida lá que ele renasce com mais intensidade, pois onde está um necessitado, lá ele está entre nós. Caso não o buscarmos e o encontrarmos lá, entre os “pastores” de hoje, os excluídos e espoliados da sociedade, provavelmente também não o encontraremos em nossos templos.