sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Amor não se perde

O AMOR NÃO SE PERDE
Pe. Mário F. Glaab
            É próprio de o cristão acreditar na força do amor. Um grande teólogo, ao observar a falta de esperança em muitos cristãos, perguntava: “Acaso não sabemos que não existe amor que se perde?”, e continuava afirmando, “Sabemos pela nossa fé que o que o amor construiu não será destruído pelos obstáculos, mesmo que assim pareça. O amor que é autêntico realiza, invisivelmente, a nova terra, onde veremos, maravilhados, a construção daquilo que aqui nos parecia fracassar” (J. L. Segundo). Ao afirmar que nenhum amor se perde, diz-se, com outras palavras, que Jesus de Nazaré morreu e ressuscitou. Ou ainda, que Deus enviou ao mundo seu Filho para anunciar-lhe a Boa Notícia de que a vida vence sobre a morte.
            No mundo existe a força das armas, do ódio e da injustiça. O amor, em contrapartida, parece tão frágil, por vezes é engolido nas artimanhas da violência. Os homens de boa vontade, entre eles os cristãos, são provados e desafiados duramente. Caso não estiverem bem fundamentados na fé e na esperança, chegam a pensar que suas ações realizadas com amor e pelo amor estão perdidas para sempre. Podem achar que diante da onda do mal, o bem se perde irreparavelmente. Foi assim que terminou a vida terrena de Jesus. O Pai não tirou seu Filho da cruz. Ele morreu gritando. Onde foi parar toda a sua vida de doação? Todo amor que teve para o Pai e para os semelhantes? Teria se perdido? Nesse exato momento somente a fé pode nos iluminar: “Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito”. Fé até as últimas conseqüências que abre uma brecha para luz da esperança. “A esperança não decepciona”: Jesus ressuscitou. Está vivo e distribui vida e esperança para todas as vítimas do mundo e da história. A partir da vitória do amor, pode-se afirmar, com certeza, que nada do que é amor verdadeiro se perde. O amor ressuscita na nova terra, mesmo que agora não seja possível enxergá-lo. Por mais pisoteado que tenha sido, ele não se perdeu.
            Existem pessoas, tanto cristãs como não-cristãs, que, seguindo a sua fé, vivem o amor no maior esquecimento do mundo. O mundo nem sabe que eles existem e amam. Seus feitos não aparecem nem nos jornais, nem nas igrejas. São desconhecidos e, parece que não conseguem transformar nada. Os efeitos do mal os abafam completamente. Os cristãos (os não-cristãos têm os seus caminhos próprios) alimentam, no entanto, no mistério de Jesus, morto e ressuscitado, a esperança que se faz definitiva. Ela, a esperança revelada pela páscoa de Jesus, constitui-se o centro da sabedoria cristã. Sabedoria esta que é preciso levar para o homem de hoje, estabelecendo com ele uma relação dialogal. Pois, em todo ser humano há o desejo do bem, mas talvez ainda não tivesse oportunidade para se confrontar com a grande revelação de Deus em Jesus Cristo. Os cristãos, ao dialogar com qualquer ser humano, querem aprender dele e colaborar com ele. Quem sabe, no diálogo sincero, tanto um como o outro, podem experimentar autêntico amor, e assim, na esperança, antecipar algo de novo da terra prometida por Deus a toda criatura, onde o egoísmo não tem mais lugar.
            De fato, o amor liga tão radicalmente, que quem ama se torna dependente do amado. É isso que se experimenta no amor de Deus. Ele mesmo, por sua vez, ama tanto a sua criatura, ao ponto de se entregar totalmente por ela. Diz um poeta que o amor de Deus pelos seres humanos é tanto que “é assim que deve temer e esperar até do último dos seres humanos. É mister que espere o que quer que venha à mente do pecador”. E continua: “Nada pode fazer sem nós. O Criador depende agora de sua criatura. Aquele que é tudo... depende, espera de quem não é nada. Aquele que tudo pode, espera daquele que nada pode... porque a este se entregou inteiramente... Com toda confiança” (Ch. Péguy). Se for essa a experiência de quem ama, como se pode pensar no desaparecimento do amor? Se Deus aposta tudo, e se esse tudo ressuscita para poder continuar universalmente com todo o ser amado, isto é, com todos os homens de todos os tempos e lugares, não é possível duvidar, mesmo por menor que seja, de qualquer ato de amor. O amor não se perde, ele ressuscita. Quanto maior for a dor suportada e a injustiça da morte sofrida, tanto maior a glória da ressurreição.
            Se, portanto, Deus ama indistintamente a todos os seres humanos, criaturas de seu amor, nenhum gesto de amor, por mais escondido ou primitivo que seja, há de passar em branco. Os cristãos, pelo fato de terem acesso à revelação de Deus em Jesus Cristo, têm o compromisso sério de sinalizar para o mundo, aprendendo também com ele, que Deus vai até onde está a última de suas criaturas. E no diálogo com o mundo, lá onde estão os últimos, o cristão vai testemunhando e aprendendo, uma vez que Deus já está lá. Diálogo é compartilhar. Dar do que se tem e receber daquilo que o outro possui, caso contrário não é diálogo, mas monólogo, ou pior, imposição. Essa também há de ser a primeira preocupação da moral cristã: não faz sentido proibir, mas pelo contrário, o sentido da ação está na felicidade que se experimenta ao poder amar. O amor, sim, pode assumir preceitos, por mais dolorosos que forem; mas o temor, a proibição (“é pecado!”), só desumaniza. Nada de imposto pode atrair o ser humano que se sente amado, e por isso, livre. Ninguém pode obrigar ninguém a amar. Somente o ser livre pode se entregar por e com amor.

Teologia da Prosperidade - A Hresia de nosso Tempo

TEOLOGIA DA PROSPERIDADE – A HERESIA DOS NOSSOS DIAS
Pe. Mário Fernando Glaab
            “Se Deus quiser”, é o que mais se ouve quando o assunto é sonhos e desejos das pessoas. Ainda mais quando elas estão em situações complicadas nas quais as forças humanas parecem falhar. Como resolver certas questões que fogem às capacidades materiais, intelectuais e profissionais dos indivíduos? O jeito é apelar para soluções religiosas. Deus pode e deve intervir, pois ele é o todo-poderoso, afirmam. O segredo a ser descoberto não está no poder dele, mas na forma de se chegar melhor a ele, isso é, por meio de que religião ou de quais práticas piedosas; onde funciona melhor tal acesso, ou por onde se chega antes? E, por outro lado, não se tem nenhum escrúpulo em afirmar, quando as coisas não deram certas, quando faltou sorte, que “Deus não quis!” Acidentes, doenças, reprovações em provas, insucessos nos negócios, tudo acontece porque “Deus não quis”. Pior ainda, por vezes, quem leva a culpa daquilo que não deu certo é o diabo. Pobre do diabo! - Bode expiatório das incompetências humanas.
            Explorando a confiança em Deus, tão enraizada no povo simples de todos os tempos, surge, com forte poder de sedução, a heresia da teologia da prosperidade. Ela não é novidade de nossos dias, mas nos últimos tempos cresceu e assumiu proporções assustadoras. Por sobre os desafios cada vez mais prementes da sociedade atual, ela encontra terreno fértil. É bem mais confortável “confiar” em Deus do que arregaçar as mangas e ir para a luta. Quando, por omissão ou incompetência, não se alcança o esperado, jogar a culpa em Deus ou no diabo, também é mais fácil. Contudo, isso não é somente fruto de uma doutrina mal entendida do costume de rezar para pedir sucesso nos empreendimentos; mas é planejado e ensinado por pegadores interesseiros. Não há dúvida de que já desde o início da era cristã, esse aspecto, por falta de conhecimentos e por interesses estranhos, existiu e persistiu. Basta lembrar os abusos na Idade Média com a venda de indulgências que provocaram a revolta dos reformadores. Em nossos dias, no entanto, o problema está tomando proporções alarmantes.
            Tudo parte da concepção de Deus que se tem e que é ensinada, tantas vezes ta distante do Deus bíblico. O Deus que se revela na bíblia, principalmente no Novo Testamento, é o Deus-amor (cf. 1 Jo 4,16). Ele não sabe fazer outra coisa a não ser amar. Ele não pode querer o mal nunca; e nem sequer pode não querer o bem de suas criaturas, especialmente de seus filhos e filhas. Ao ser coerente com a visão bíblica de Deus não se pode admitir que Deus-amor possa “permitir” que o mal aconteça para alguém. O mal existe porque as criaturas são limitadas e, como tal, sujeitas a ele. Os seres humanos provocam-no ao usar inconvenientemente a liberdade, que também é finita. Contudo, o apoio e a graça de Deus estão sempre ao dispor de cada um, sem discriminação. Deus não ama mais um do que o outro, só porque este fez algo de bom; e Deus não deixa de amar alguém porque fez algo errado; isso porque Deus é bom. É sempre bom saber que Deus ama cada ser humano não porque o ser humano é bom, mas porque ele é bom. Deus fez o ser humano bom por ser o Deus de bondade. Este é o núcleo central do anúncio de Jesus de Nazaré. E é essa Boa Nova que precisa ser descoberta sempre de novo. Ela se encontra não em abstrações aéreas, mas no encontro vivo com a pessoa, a história e a vida concreta de Jesus de Nazaré, que hoje se torna possível quando se tem os pés no chão, isso é, quando se experimenta a presença e a ação dele na vida do planeta, principalmente na vida ameaçada dos seres humanos. A vida ameaçada grita mais forte no rosto dos pobres de todos os tipos: pobres de bens materiais, pobres de cultura, pobres de fé, pobres do sentido da vida. Aí é que o anúncio vivo do Evangelho se torna verdade. Verdade que é compromisso de transformação. O Homem de Nazaré está aí, não para com um toque de mágica resolver todos os problemas dos humanos, mas para doar continuamente a sua vida, para que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10). Uma vez de posse dela, partilhá-la entre si, e assim, ajudando-se mutuamente, vencer o mal pelo bem.
            Por isso é mais do que urgente redescobrir o verdadeiro Deus bíblico, o Deus de Jesus de Nazaré. Muitos deuses falsos apareceram durante a história. O que muda é a maneira como eles se apresentam. Mas na essência são sempre os mesmos. Para enganar, eles são tentadores: prometem tirar as cruzes dos ombros de seus seguidores, aliciam com promessas de prosperidade, muito sucesso nos negócios e, aliviam as consciências dos faltosos jogando a culpa no diabo. Assim vale a pena viver! Todavia, em sã consciência, pode-se dizer que é esse o Deus revelado em Jesus de Nazaré?
            No mundo globalizado onde tudo vale quando dá lucro, onde as leis do comércio ditam as regras, também as religiões são envolvidas no mesmo emaranhado. Se no passado havia abusos que exploravam a fé das pessoas, hoje eles são mais numerosos. Não se teme tomar o nome de Deus em vista de vantagens pessoais ou do grupo. Existem inúmeros os pregadores que literalmente vendem graças, bênçãos e curas, tanto físicas como espirituais. Quanto mais o fiel investe orando e pagando, tanto mais Deus é obrigado a atender. Os diabos são expulsos pela força que o pregador diz possuir – mas não faz uso desse poder sem esperar algo em troca. Contudo, essa prática não se restringe apenas a certos grupos mais exaltados, está presente em quase todas as igrejas. Algumas conseguem camuflar e elevar o nível das pregações, mas não estão livres da visão errada de Deus e da prática religiosa. O que querem é “aproveitar” do desejo de ser bem-sucedido, tão em voga no homem contemporâneo, e assim fazer adeptos e levar vantagens. Como diz um teólogo: “Não obstante as diferenças históricas, as indulgências de ontem e os rituais de prosperidade de hoje tomam como base da operação religiosa o desejo humano de ser bem-sucedido nessa e na outra vida” (João D. Passos). É a teologia da prosperidade que se constitui em heresia, mais perigosa hoje que no passado.
            De quem é a culpa? Sem querer apontar um culpado, convidamos à reflexão. Se as igrejas se preocupassem mais em ter suas doutrinas sempre atualizadas, bem explicadas e acessíveis aos fiéis em geral, será que não mudaria muita coisa? Ter consciência, como diz outro teólogo, que “a teologia deve ser viva e estar a serviço da vida, mesmo que para tal tenha de repensar aquilo que outrora era verdade inquestionável” (Silas Guerriero) não ajudaria a evitar tais abusos? Quem sabe, se de fato a teologia se tornasse importante, isso é, fizesse o seu papel de interpretar as coisas deste mundo à luz da fé, dar a elas o seu sentido último em cada época e em cada situação; se os teólogos fizessem o seu trabalho com dedicação e sinceridade, visando a verdade sem interesses próprios; se os pregadores dessem mais atenção aos teólogos; e, se os fiéis não engolissem qualquer pregação, mas se perguntassem sobre sua origem e seriedade, a heresia cairia vertiginosamente.
            A heresia da teologia da prosperidade somente será vencida quando cada um e cada uma assumir a sua dignidade e, consequentemente, os seus compromissos. O ser humano é sempre finito e assim se depara com suas limitações. Precisa, no entanto, assumi-las com responsabilidade. Não atribuir a Deus o que cabe a ser humano fazer e, igualmente não culpar a Deus ou ao diabo pelos seus erros e suas limitações.

Referências bibliográficas
PASSOS, João Décio. Ser como Deus: críticas sobre as relações entre religião e mercado, in: BAPTISTA, P. A. N. e SANCHEZ, W.L. Teologia e Sociedade: Relações, dimensões e valores éticos, São Paulo: Paulinas, 2011.
GUERRIERO, Silas. A diversidade cultural como desafio à teologia, in: BAPTISTA, P. A. N. e SANCHEZ, W.L. Teologia e Sociedade: Relações, dimensões e valores éticos, São Paulo: Paulinas, 2011.

Quaresma e Confissão

QUARESMA E CONFISSÃO
Pe. Mário Fernando Glaab
Durante a Quaresma, e especialmente na Semana Santa, ouve-se falar da Confissão Sacramental em nossas igrejas. Talvez o pároco ou algum comentarista lembre que é bom aproveitar a oportunidade para se confessar. O que dizer da Confissão hoje? Ela ainda tem sentido?
            Não é preciso ser bom observador para constatar que os tempos mudaram, e que, ultimamente os confessionários são bem menos procurados que em anos passados. Seria isso um sinal de que os cristãos evoluíram espiritualmente em relação à concepção do pecado e do perdão? Ou, por outro lado, uma constatação de que as consciências já não acusam as culpas como no tempo de nossos pais? E, por último, as pessoas já não necessitam da misericórdia de Deus por viverem melhor, em maior conformidade com o Evangelho?
            As questões não são fáceis de responder. Ainda mais por envolverem as consciências de cada um. Sabe-se, no entanto, que o homem de nosso tempo, influenciado pelo contexto cultural que valoriza sempre mais a liberdade do sujeito e, ao mesmo tempo engloba um pluralismo religioso de amplitude inimaginável há poucos anos atrás, não se sujeita facilmente a costumes que não lhe parecem convincentes e atuais. Todavia, na busca do bem viver, para si e para o seu grupo, o homem contemporâneo defronta-se com mil e uma dificuldades que o tornam culpado. Ele sente-se culpado. É cada vez mais difícil acertar em situações tão complicadas, seja para com Deus como para com o próximo, assim como para com a natureza. O ser humano erra, e precisa aceitar o seu erro!
            A confissão dos próprios limites e das próprias culpas, mesmo não sendo a Confissão da qual estamos falando no nível da fé, é sempre dolorosa, mas é purificadora; pois permite recomeçar e fazer melhor. Na fé da Igreja a Confissão adquire o perdão de Deus que é muito mais do que uma possibilidade para recomeçar. É deixar-se envolver pelo amor do Pai que não pede nada em troca do perdão. Recomeçar, após essa experiência do amor misericordioso do Pai, é um novo início, pois conta positivamente com a graça que impulsiona para o bem. Agora será mais fácil acertar, pois o perdão assim experimentado possibilita ao cristão a ver tudo na ótica do amor. E o amor, como já se disse repetidas vezes, tem razões que a razão desconhece.
            Há de ficar claro que nos nossos tempos também o Sacramento da Penitência necessita ser reinterpretado. Não basta repetir o que era ensinado há cinqüenta anos atrás. O homem contemporâneo precisa descobrir e experimentar o Pai bondoso presente também hoje em suas conquistas e derrotas. Muitas coisas mudaram, mas a necessidade de conversão continua também para o homem e a mulher de nossos dias. Apesar de tantas conquistas nas ciências, nas comunicações, na economia e na cultura, ele e ela continuam com suas limitações que são próprias da criatura; e, em conseqüência, no dever de buscar mudanças também na vida espiritual. É a chamada conversão.
            Pelo abandono da Confissão não se desenvolve simplesmente uma nova cultura de conversão, arrependimento e perdão. O que é preciso para a nova cultura desses valores há de ser igualmente a nova cultura da Confissão. Essa há de abranger o ser humano em seu contexto mais amplo que no passado. Para se falar da escolha do bem ou do mal, deve-se levar em conta horizontes mais extensos. Este horizonte contém aspectos relacionais com Deus, com o outro e com a natureza em todas as suas implicações.
            Os comentários negativos sobre a Confissão geralmente são justificativas diante do medo da mudança. Pode-se falar, em tom bastante malévolo, da Confissão para desviar-se da penitência.  Medo da penitência. Entre medo da penitência e medo da mudança não há contradição, pois a mudança ocupa o lugar tão temido da penitência. Mudar faz bem, mas pode ser dolorido para quem já está habituado a se locomover apenas no pequeno círculo do seu eu egoísta.

Sinal claro da verdadeira Igreja

SINAL CLARO DA VERDADEIRA IGREJA

Pe. Mário Fernando Glaab
            Alguém diz: “Por que Deus não dá um sinal claro ou uma prova convincente de que a nossa Igreja é a única verdadeira e que todos precisam se converter a ela para se salvar?”. A pergunta é intrigante e complicada para quem sempre aprendeu que a Igreja Católica é a Igreja fundada por Jesus Cristo e que continua pelos séculos cumprindo a sua missão de levar Cristo Salvador a todos os povos, sendo assim, instrumento de salvação, ou como afirmou o Concílio Vaticano II, “Sacramento Universal de Salvação”. Mais ainda, quando se acredita que Jesus quer que todos recebam sua mensagem salvífica e que ele tem o poder para realizar isso. Por que, então, não o faz? Seria tão bom e cômodo para os pregadores: não haveria mais aquela preocupação em explicar, em convidar, em convencer... Contudo, não é assim. A realidade do dia-a-dia é muito diferente.

Os milagres como sinais claros
            Afirma-se com certeza que milagres acontecem. Mas nem eles convencem totalmente, pois geralmente os que não acreditam também não os veem. E, é preciso admitir, não são tão frequentes como se gostaria que fossem. Por outro lado, milagres estão em alta, não na Igreja Católica, mas muito pelo contrário, em diversas denominações cristãs que surgem cada vez com mais intensidade. São verdadeiros ou falsos? Essa já é outra questão. As diferentes igrejas cristãs levam a salvação de Cristo aos fiéis como o faz a Igreja Católica ou não, também é outra questão. Então, por que Deus, com um toque de mágica, na força de seu poder, não mostra claramente a todos que o caminho certo e único é o da Igreja Católica?
            Tentando encontrar uma resposta séria e responsável, não se deve partir de pressupostos superficiais. Em primeiro lugar, ao crer que Deus quer a salvação de todos, não se pode ignorar o imenso esforço que as pessoas das mais diversas religiões e denominações cristãs fazem por acolher tal salvação, correspondendo à graça de Deus. O respeito para quem acredita diferentemente é indispensável. Ninguém possui o direito de considerar a fé do outro como falsa. Deus que conhece o íntimo dos corações saberá “aproveitar” de todas as chances que o ser humano lhe concede para que seja atingido. Portanto, afirmações radicais são sempre perigosas. Será que Jesus estava tão preocupado com a maneira das pessoas viverem sua fé? Ou lhe interessava bem mais a sinceridade da fé e da confiança que depositavam em Deus?

Alternativa do sinal claro
            Observando com atenção as obras de Deus, até onde nos é possível conhecer, tanto na criação, na história quanto na Revelação, podemos chegar a uma resposta alternativa, bem diferente da que se esperava ao formular a pergunta. Deus deu e continua sempre dando sinais para todas as pessoas de como ele quer que seja a humanidade e, em Jesus Cristo, como quer que seja a sua Igreja. Para que esse sinal – a Igreja - tenha força e possa ser eficaz, ele, no entanto, necessita de colaboração das pessoas de boa vontade. É por meio de humanos que ele pode falar aos humanos. Isso não por ser incapaz, mas pelo fato de os seres humanos serem incapazes de ouvir uma palavra não humana. Quem, então, de fato tem a incumbência de ser o sinal, claro até onde for possível para humanos limitados, somos nós mesmos. Isso quer dizer que quanto mais vivermos e testemunharmos que entre nós o Reino de Deus se atualiza, tanto mais o sinal da vontade de Deus sobre a sua criação será eficaz, e quanto mais alguém testemunha que em sua Igreja o mandamento do amor é vivido, tanto mais a sua Igreja é verdadeira e portadora da salvação que Jesus continua a oferecer para todas as criaturas. Nesse sentido, cada católico e cada membro de outra religião ou confissão cristã, ao praticar o mandamento do Senhor colabora com Deus e com Jesus que, em linguagem humana, dá o sinal da verdade de sua ação salvadora. Merece crédito, não o fiel como tal, mas o que Deus realiza nele e por ele, à medida que se abre e acolhe o desejo infinito de Deus em oferecer a todos o seu amor, sua vida e sua salvação.
            A linguagem do amor, para ser verdadeiramente humana e capaz de provocar respostas igualmente humanas, precisa se impor a tal modo que não fique em teoria abstrata. Ela se faz relevante quando atinge concretamente as pessoas, libertando-as de tudo o que as oprime ou faz sofrer. O sinal que Deus espera de nós é que nos envolvamos diretamente na construção de um mundo onde não haja distinção entre as pessoas. Qualquer injustiça contra quem quer que seja deve ser denunciada e que as lutas dos mais fracos sejam assumidas e compartilhadas por nós. Os fracos, bem entendido, são os pobres de bens materiais, dos bens espirituais, de saúde de conhecimentos, de voz e de vez. A igreja que mais se identifica com o Reino onde todos têm acesso à vida em abundância, conforme Jesus de Nazaré o anunciou e viveu, é a mais verdadeira e o sinaliza melhor.
            Dessa nova consciência de responsabilidade que cai sobre cada um de nós, muda totalmente a questão. Não mais se interroga sobre o porquê de Deus, mas se coloca em cena a colaboração e a responsabilidade de cada cristão e de cada cristã. A iniciativa é de Deus, e ele a leva a cabo a tal ponto de se fazer um ser humano para poder se comunicar humanamente; mas quem tem a tarefa de interpretar e atualizar hoje essa comunicação é cada um que ouviu o apelo e o deixa produzir frutos. Não tem nenhum sentido achar que somos melhores do que os outros – todas as pessoas de boa vontade estão procurando responder a seu modo – mas talvez caiba a nós, cristãos e, de modo especial aos católicos, a partir de sua fé na Revelação e na presença de Jesus, o Ressuscitado, mostrar que verdadeiramente em nossa maneira de viver os valores do Reino, a Igreja de Cristo Jesus está em ação.

Conclusão
            Não se deve pedir a Deus que faça o que já fez, uma vez que agora a missão é nossa. Não se deve esperar dele o que ele quer do ser humano faça. Jesus, Deus e Homem, Já nos deu o sinal. Nós, os humanos, necessitamos acolher esse sinal. Acolher, no entanto, significa passá-lo adiante, ou melhor, torná-lo eficaz. Deus não quer e não pode passar por cima da liberdade do ser humano. Deus, em Jesus de Nazaré, está sempre apoiando cada homem e cada mulher a ser sinal verdadeiro e eficaz juntamente com os demais homens e mulheres para que o mundo possa crer. Mesmo que os humanos sejam limitados, com a força do Deus que se revela de forma tão humana que somente pode ser divino, eles são capazes de transformar o mundo, de converter os corações, pois seu ser, na força do Espírito de Deus, está perpassado do amor de Deus.

Carência de Profetas

CARÊNCIA DE PROFETAS NA IGREJA E NA SOCIEDADE
Pe. Mário Fernando Glaab
A Palavra não morreu, mas se fez carne e veio morar entre nós.
Não adianta sonhar com um mundo justo e fraterno, pois o mundo não tem mais jeito: ele está perdido! Coisas assim se ouvem por aí. E não faltam os que preveem desgraças, e o fim de tudo. Castigos e mais castigos de Deus pela desobediência das pessoas às suas leis. O interessante é que são sempre os outros que mereceram, com sua conduta errada, a intervenção de Deus que não pode mais tolerar os muitos pecados. Por outro lado, os bons, aqueles que assim se consideram, não têm o mínimo escrúpulo em repetir orações que exaltam a humildade e desaprovam o orgulho. Cantam maravilhosamente o Magnificat, apesar de que esse canto não inspira nenhuma ação concreta para si. Esse jeito de se comportar não perturba ninguém. Não tem consequências, nem para o mal nem para o bem. Enquanto tudo continua como está, nem um nem outro muda a conduta. Os maus continuam maus e os bons continuam bons.
Até a poucos anos atrás a Igreja da América Latina contava com forte vigor profético. A situação de pobreza e opressão de tantos latino-americanos despertou muitos profetas que não aceitaram passivamente a situação. Impulsionados pelo Vaticano II deixaram-se inspirar pela Palavra de Deus e a confrontaram com a situação dos povos oprimidos sem vez e sem voz. O Espírito deu-lhes força e coragem para denunciar a injustiça e anunciar igualdade e fraternidade entre todos. Esse período de nossa história latino-americana contou com grandes homens e mulheres que, sem temer perseguições, fizeram que a Palavra tomasse corpo. Não se limitaram a lamentar os erros do “mundo”, mas se deixaram envolver por eles, para que o Evangelho de Jesus Cristo, por eles e com eles, pudesse transformar situações concretas. O discurso dessas mulheres e desses homens não anunciava o fim do mundo, nem o paraíso terrestre. Não condenava ninguém ao inferno e nem tampouco se autoproclamava santo. Essas pessoas ouviam, viviam e anunciavam com testemunho vivo a Palavra que se fazia carne. Esse era um período fértil de profetas verdadeiros, dentro de um contexto onde também não faltavam os falsos profetas.
Já nos tempos bíblicos em momentos de crise surgem profetas, tanto verdadeiros como falsos. Cabia às pessoas distinguir entre uns e outros. Na América Latina não foi diferente. Surgiram profetas para todos os gostos. Os verdadeiros não estavam ao gosto dos poderosos e dos ricos. O critério para saber quem era verdadeiro profeta e quem era o falso profeta consistia em observar a conduta dele e ouvir a mensagem de cada um. Os profetas verdadeiros, conforme a concepção bíblica, referem-se sempre aos pobres, vítimas da maldade dos poderosos, e à convivência entre a Igreja e os ricos. Desmascaram as obras más dos opressores e exploradores, anunciam às vítimas esperança vinda de Deus, à medida que eles se unirem e lutarem contra toda forma de injustiça. Eles, os profetas, não estão fora da situação, do contexto dos pobres. Também eles são vítimas da mesma acusação que a eles fizeram em todos os tempos: o profeta que mostra os pecados dos poderosos e lhes atribui a responsabilidade por desgraças, tanto dos espoliados da sociedade, das intrigas e guerras, quanto das intempéries da natureza, é acusado de provocá-los e castigado por causa deles. Nos tempos bíblicos os profetas denunciavam os descalabros dos líderes políticos e religiosos; na América Latina das décadas passadas fizeram a mesma coisa. Em situações que clamavam por justiça aos quatro ventos, denunciavam os desvios, as insuficiências, a covardia, ou o silêncio da Igreja e dos governos e apelavam para a conversão ao Evangelho e ao direito de todos os seres humanos à vida.
Nos tempos bíblicos e nos anos de abundante profetismo latino-americano os profetas partiam da realidade que os interpelava, desigualdade entre ricos e pobres, ricos explorando os pobres, os pobres que não têm condições para defender seus direitos, e, à luz de sua fé no Deus da vida – ouvindo a sua Palavra – denunciavam as injustiças e anunciavam novos tempos nos quais Deus faria justiça, e o seu Reino haveria de se instaurar e se estabelecer na fraternidade e na paz. Com o passar do tempo, parece que, as coisas mudaram. Não mudou a situação de milhares de pobres que não conseguiram sair da miséria, mas que, ao invés de ter acesso à vida plena, foram encerrados na condição de “sobrantes”. Como não têm condições para consumir, a sociedade consumista e excludente os dispensou. Mudou, no entanto, a consciência profética. Já não se ouve mais o grito das vozes no deserto “preparai os caminhos do Senhor”! A não ser alguma voz solitária. Geralmente malvista. Os grandes profetas: bispos, padres, religiosos, teólogos, homens e mulheres, leigos e leigas em geral, desapareceram quase por completo.  Por que, será? Será que a Palavra morreu? Não interpela mais? Mas a Palavra não pode morrer, pois ela se estabeleceu para sempre entre os humanos. Afinal, nós não professamos que Jesus morreu e ressuscitou?! Ele está vivo!?
Diz-se que o grande bispo e profeta Dom Hélder Câmara pouco antes de terminar sua caminhada nessa terra pediu para um teólogo, amigo seu, que não deixasse a profecia morrer! A profecia é que dá voz à Palavra. A Palavra transforma o mundo. Os profetas a levam ao mundo. Para que a Igreja e a sociedade hodierna redescubram a profecia, talvez seja necessária uma conversão profunda. A tentação do consumismo, do dinheiro, do prazer e do poder fizeram muitos estragos nelas. Não foram poucos os que acharam mais cômodo se afastar dos pobres para estar mais perto dos ricos. Os ricos atraem mais, pois podem pagar pela palavra (note-se que com letra minúscula) a eles dirigida, podem recompensar pelas bênçãos a eles dadas. Os pobres são todos vagabundos e violentos: não têm jeito, pois não aproveitam as oportunidades! – é o que se pensas. Será que a profecia mudou em nossos dias, não fala mais, como sempre o fez, para os últimos dos seres humanos? O que acontece com a profecia hoje? Não há mais injustiça? Não há mais opressão dos pobres? A Igreja atual é a Igreja dos pobres? Não será esse um sinal de que também a Igreja, a começar com muitos de seus líderes, está contaminada pela ideologia e pelo sistema dominante que não se atreve a falar, ou nem se dá conta de que poderia falar? A Igreja teria sido convencida de que a Palavra morreu, não adianta falar, porque o sistema é mais forte do que nunca? É de pensar!
Os pobres sobrantes de nossa sociedade estão aí. A Palavra também. Sem dúvida, há muitos homens e mulheres, líderes religiosos e teólogos com boa vontade. Um toque, um apelo mais convincente, um envolver-se com as dores, as alegrias e os anseios do povo podem despertar novos profetas. Há muitas pessoas que rezam o Magnificat e outras tantas orações proféticas e que, se estiverem atentas e tiverem coragem para se comprometer, poderão se dispor a testemunhar concretamente sua fé. Esperamos que a fé desça dos pedestais e dos altares para as ruas, para as periferias e para o meio do povo sofredor e injustiçado. Jesus de Nazaré não nasceu nem morreu no templo, nasceu em uma manjedoura e morreu em uma cruz, junto aos pobres e sobrantes da sociedade de seu tempo. Sejamos profetas dele hoje lá onde estão os nossos pobres e os nossos sobrantes falando a todo, sem distinção. Somente a Palavra pode iluminar e converter as pessoas, mas ela precisa da voz do profeta para chegar aos ouvidos e corações dos homens e mulheres de hoje e de sempre.
(Como referência bibliográfica, para interessados no tema, sugiro o livro de José Comblin, A Profecia na Igreja, São Paulo, Paulus).

Historinha em dialeto alemão - Huhnsrück

DIE KUH BEIM STIE
Mário Fernando Glaab
Dat Geschichtje wo eich schreiwe iss passiert in der frierische Zeite, friea wie dat Alles noch scheena woa un wo die Leit sich all besse verstan hon. Friea woa Respeckt un Oanstand unna de Leit. Oje, die Buwe un die Medd die wore so gut gezoh dat sich selte mo eene vetorpt hat. Heitzenstoache iss das jo Alles annersta. Die Leit hon kee Bildung mee; die Juchend iss doch alles blos noch mee son Zores!
Also, in de schene Zeite un in de kleen Kolonie iss es mol so passiert. De Podda, son richtiche respecktierte Mann, iss viel unna sei Volk rum gelaaf. Hat jede Familie un jede eene mit Nome gekent. Er selbst hat P. Friedholt gehest. Die Mensche uff de Stroos honnen all nur as Podda genent. Een schene Toach iss ea groat mo so dorich die stroos gelaaf um sei Spaziergan se mache. Do horer sich mit dem Lisje, een seha hibsches Meddje, oangetrof. Dat Lisje woa awa etwas komisches am tun: sie woa en Kuh mit een Strick am fiehre. Dea podda wolt aach gleich wisse wo dat Meddje mit de Kuh hin wolt, un hot gesaat: “Gumoin, Lisje. Na, was machs du? Wo fohrs du die Kuh hin?” Dat Lisje, mit allem Respeckt von Podda, hot earst mo scheen gegrist: “Gelobt sei Iesus Christus, Herr Podda”, un dan geantwort: “Ei, ich will die Kuh beim Onkel Kaspa sei Stie tun. Die Kuh is stierich un mea hon doch kei Stie”. Dat iss dem Podda bische krum kom. Hat es en Orwet fa Menna gemeent un net fa so en uhnschuldiges Meddje. Wie ea es en bische verduckse wolt hat ea gesaat: “Awa liewes Lisje, kennt das net dei Pabei aach mache?” Es Lisje hot net lang nogedenkt un hot geantwat: “Nee, Podda; das kann blos de Stie!” Verflickste donnerwette, sowas hat de Podda awa werklich net gewoat! Ea hat im Moment net gewuscht ob ea lache ode schenne sollt. Iss rooth gebb un hot blos noch gemurmelt: “Adie, Lisje”. Un fot wor ea. Iss um die Kurve gerent dass sei Mantel andlich geflackat hot. Un hat so helich fa sich gedenkt “wen doch blos das Lisje es net bei de andere Leit soot”. Es Lisje hot sich bewunert dass soon gescheite Podda so dum frohe kennt. Un so woret hal mol in der Zeite wo die Leit noch enfache wore.
Heit passiere so Geschitja nimme weil es gans annescht iss. Erstens, die Juchend tut doch nemme son Orwet mache; zweitens, es iss doch kei Respeckt me unna de Juchend. Wen ma Heit’zenstoche mo die Kelle beobacht dann schemt ma sich jo vun sich selwa. Mea Alte kenne do nimme mit.

O Pai de Jesus

MOSTRE-NOS O PAI!
A QUE JESUS BUSCAMOS?
Pe. Mário Fernando Glaab
            Não há dúvida de que buscamos seguir a Jesus para possuir Deus conosco. Todo esforço que fazemos para ser cristãos de fato, seguir a Jesus como nosso Mestre, é sincero. Mas isso não quer dizer que o buscamos sempre e automaticamente como ele se mostrou e pode ser encontrado. É tarefa para a teologia, às vezes urgente, esclarecer as questões, de maneira que possa ajudar a todos, no sentido de fazê-los refletir e dar-lhes condições para livremente se decidirem pelo caminho mais seguro. Portanto, ao colocar a questão que Jesus buscamos? não pretendemos questionar a boa vontade dos fiéis, mas levá-los a aprofundar a questão, para que assim, tenham mais condições de segui-lo e se comprometerem com ele e, especialmente, com o seu projeto de vida.

Jesus imaginado a partir da experiência de cada um
            Toda experiência que fazemos se conserva em nossa memória pela imaginação. É impossível guardar o que experimentamos na pureza do acontecimento. Pelo fato de sermos indivíduos concretos, isto é, históricos, somos limitados pelo tempo e pelo espaço. Vivemos hoje e neste determinado lugar; e a experiência que fazemos leva as marcas dessas limitações.
            Sem dúvida, os discípulos que nos transmitiram suas experiências com Jesus de Nazaré nos queriam comunicar que nele se encontraram com Deus. Experimentaram de forma única que Deus estava com aquele homem e que se “mostrava” a eles por meio dele. Os evangelistas e os demais escritores do Novo Testamento o fizeram, cada um do seu modo, apresentando o Homem de Nazaré do jeito como puderam experimentar nele o próprio Deus. Para tal, todavia, se valeram das concepções de seu tempo e de seu espaço. Isso, não resta dúvida, limitou bastante o que de fato queriam transmitir. Usaram, conforme podiam, os instrumentos que estavam ao seu dispor ao imaginarem como podiam compartilhar o que sentiram, viram, enfim, experimentaram. Certamente iremos encontrar os mais diversos acentos da figura concreta de Jesus, conforme o que mais impressionou ao escritor; para uns é Jesus amigo dos pobres, para outros, Jesus pregador da boa notícia, para outros ainda, aquele que acalma os mares etc. Entra, a essa altura, o trabalho imaginário de cada um. Aliás, o próprio Jesus mostra isso claramente quando se encanta diante da natureza e vê nela a bondade do Pai que cuida das flores, dos passarinhos (cf. Mt 6, 26-28), enfim, de tudo o que acontece no dia a dia. Também Jesus usa da imaginação, que não foi muito conforme a mentalidade religiosa da época. Enquanto o povo judeu cultivava uma imagem do Deus todo-poderoso, mas sempre pronto a punir os transgressores da Lei, Jesus com parábolas suprimiu essa idéia negativa.[1] O retrato imaginativo que ele passa do Pai é o de alguém que se preocupa com o bem de cada um, assim como com a harmonia da natureza. Isso não quer dizer que, conforme outros escritores, Jesus também não use outra imaginação, basta lembrar quando fala com autoridade, dizendo, por exemplo: “Eu sou...” (Jo 8,12; 9,5; 11,25; 14,6 etc.). Nesse caso, seu imaginativo de falar em nome do Pai, perpassa os relatos das palavras e das ações que realiza, tornando-os “sinais”.

As cristologias
            Falando da imaginação que iluminava os discípulos de Jesus ao relatarem a sua experiência com ele, já se pode falar das diversas cristologias do Novo Testamento. Mas, essa conotação cristologia se fixa, de modo definitivo, quando se busca entender como as comunidades cristãs posteriores criam e anunciavam o Evangelho. Fato notável ocorre quando o cristianismo penetra na cultura greco-romana. Para que a fé da presença de Deus em Jesus, ou de que em Jesus o Filho de Deus está encarnado, fosse importante também para os de cultura grega e de cultura romana, toda linguagem necessitava de nova compreensão, isto é, da compreensão imaginativa que fosse válida para os novos interlocutores. Assim, várias cristologias surgiram. Muitas discussões sobre as novas compreensões. Não faltaram condenações, uma vez que os erros pululavam por toda a parte. Mas, aos poucos se fixaram as regras que para o momento eram o mais conveniente. Isso aconteceu nos concílios cristológicos, de Nicéia (325) e de Calcedônia (451), para falar somente dos mais importantes. O ensinamento desses concílios[2] é conhecido como doutrina clássica e comunica a visão de Jesus como Deus, em primeiro lugar. Uma vez apresentado assim, toda a leitura de suas palavras e de seus feitos vão por esse caminho: Jesus conhecia tudo por ser Deus, Jesus ensinava por seu Deus, Jesus fazia milagres por seu Deus, Jesus ressuscitou por ser Deus. Jesus como Homem não se impôs com a mesma intensidade.[3]
            Cada cristologia tem sua prática correspondente. Se a compreensão imaginativa de determinada cristologia é que Jesus é Deus, consequentemente segue uma prática que lhe corresponde; assim como sendo de que Jesus é aquele que leva ao Pai, também a prática que segue essa visão lhe corresponde. Muitos séculos se passaram desde as primeiras compreensões e primeiros testemunhos. Muitas tentativas de atualização se sucederam. Entre tantas, algumas tiveram muitos sucessos, outros menos. Também aqui e agora, isto é, hoje e em nossa sociedade brasileira, existem diversas maneiras de se aproximar do mistério de Jesus Cristo. São duas, no entanto, as cristologias que mais se destacam que, conforme sua compreensão imaginativa, influenciam bastante sobre a experiência concreta dos fiéis e das igrejas. São elas: a que parte de Jesus-Deus e a que parte de Jesus que leva a Deus ou de Deus-em-Jesus.

Jesus-Deus
            Essa é a mais tradicional e que responde à concepção do que foi ensinado por muitos anos. Quando no Concílio de Nicéia se afirmou que em Jesus está a natureza de Deus mesmo, isto é, que o Filho de Deus encarnado é da mesmíssima natureza de Deus, não se quis diminuir a natureza humana de Jesus. Contudo, para evitar que isso acontecesse, foi preciso que outro Concílio, o de Calcedônia, declarasse que Jesus é também humano como nós (consubstancial ao Pai e consubstancial a nós). Sem dúvida, grande conquista. Contudo, mesmo que se insistisse na única pessoa de Jesus Cristo, esta visão deu oportunidade para se fazer uma ruptura entre Deus e Homem na única pessoa. Conforme a ação, dizia-se que era de Deus; ou então, que era do Homem. Foi se impondo, aos poucos, que “o retrato de Jesus legado pelo Concílio (de Calcedônia) foi que Jesus era um indivíduo divino que também portava uma natureza humana integral”.[4]
            O compromisso que segue essa visão de Jesus-Deus não pode ser outra que de se aproximar dele para “possuí-lo”. Ele é o que tem poder. Quem o possui pode esperar tudo dele. Ele vai ter que caminhar conosco, defendendo contra todos os males que existem pelo mundo afora. Ele deve perdoar, assim como deve mandar constantemente o seu Espírito para que tudo seja iluminado e que assim não se desvie do caminho certo. As orações que lhe são dirigidas são quase sempre petições. Jesus-Deus deve fazer isso e aquilo; deve proteger, deve converter os pecadores, deve, deve, deve! Igualmente, tal imaginação dá segurança para os fiéis observadores das leis. Aquele que fez tudo; cumpriu os mandamentos, pode estar certo de que Jesus o protege. Chega-se ao cúmulo de pensar que depois de participar da missa dominical o resto do dia está garantido.

Deus-em-Jesus
            Bem outra é a visão de Deus-em-Jesus. Sua redescoberta é mérito, em grande parte, da Teologia da Libertação. Volta-se o interesse principal para o Jesus histórico, Jesus de Nazaré, como comumente é chamado. Não se nega em nada a verdade do verdadeiro Deus e do verdadeiro Homem, mas muda-se o jeito do encontro com ele. Se no primeiro caso se vai a Jesus-Deus para “possuí-lo”, agora se vai a ele que vem, para “estar com”.
            Outra maneira de entender é seguir a experiência dos apóstolos e dos demais que se encontraram com Jesus em situações bem concretas de tempo e de espaço. Eles viram um homem que os levou a algo que o transcendia, mostrou-lhes que Deus não é um Deus distante, mas um Deus próximo. Deus que é Pai. Pois, “em Jesus, a vivência do Pai constitui o núcleo mais íntimo e original de sua personalidade. Dela emana para ele uma confiança sem limites que até hoje torna inconfundível a sua figura”.[5] Ele os convidava a “experimentá-lo”, e, para segui-lo. Estabelecendo-se assim a relação mestre-discípulo. Tudo o que Jesus dizia e o que fazia levava-os à experiência do Pai que está presente com seu amor incondicional. Seguir ao Deus-em-Jesus não garante segurança, mas, muito pelo contrário, oferece risco. Contudo, a confiança na presença do Pai leva a se comprometer com o mesmo projeto de Jesus, dispondo-se a seguir seus passos e entregar a vida pela mesma causa. Deus, sem dúvida, está em Jesus, mas, ao invés de pedir, muito mais necessário é acolher. A experiência mais profunda de sua presença amorosa se faz, como Jesus fez, compartilhando a vida com os mais pobres, com os doentes e com os pecadores. Esta é a cristologia que foi e está sendo descoberta, passo a passo, em nossas comunidades. Ela encontra muita resistência de grupos tradicionais, mas avança lenta e progressivamente.
            O compromisso que segue a essa visão não poderia ser outro: o discipulado. Ser discípulo não é ficar “sentado” aos pés do mestre; mas, é caminhar com ele por onde ele anda. Pode-se facilmente imaginar onde anda Jesus de Nazaré em nossos dias! Ele próprio o deixou claro quando falou das obras de misericórdia (cf. Mt 25, 31-46), porém, mais ainda quando foi levado para o Calvário. Bem mais que repetir longas orações com pedidos, o discípulo de Jesus que está com o Pai, agradece sempre de novo por ter sido convidado a segui-lo; renova sempre de novo a disposição de estar com ele por onde for. Assim, o Reino que Jesus implantou continua produzindo frutos, agora e aqui, onde está o discípulo.

Conclusão
            A busca de Jesus Cristo, quando é sincera e levada a sério, não pode escapar da pergunta: a que Jesus buscamos? Está mais do que na hora, quando vemos tantas igrejas cristãs, cada um com o “seu Jesus”, tantos católicos com o “seu Jesus”, de encarar a questão. Esse Jesus que todos procuram e que afirmam possuir é de fato o Jesus que andou pelas ruas da Palestina e que foi revelado por Deus como o seu Filho Amado? Quais transformações ele provoca em seus seguidores? E estes, por sua vez, como vivem sua fé na sociedade onde estão? O Reino de justiça e paz está sendo implantado progressivamente, ou os pretensos seguidores dele se isolam nos espaços de seus templos, “só para louvar o Senhor”?
            Talvez Jesus esteja bem mais próximo de nós do que pensamos. Mais do que ser possuído por nós ele quer nos possuir. Mas, para que isso aconteça, é preciso descobri-lo na humildade e na simplicidade do irmão sofredor. Lá ele não está escondido, como infelizmente alguns afirmam, mas continua a estender a mão para que a vida seja compartilhada. E, onde há partilha da vida, Deus aí está. Aí ele mostra o Pai e, já não é mais preciso dizer: “mostra-nos o Pai!” Então, a que Jesus buscamos?

Referências bibliográficas
DENZINGER, H. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, São Paulo, Loyola e Paulinas, 2007.
HAIGHT, Roger. O Futuro da Cristologia, São Paulo, Paulinas, 2008.
QUEIRUGA, Andrés Torres. Creio em Deus Pai – O Deus de Jesus como afirmação plena do humano, São Paulo, Paulinas, 1993.
QUEIRUGA, Andrés Torres. Repensar a Cristologia – Sondagens para um novo paradigma, São Paulo, Paulinas, 1998.


[1] Cf. HAIGT, R. O futuro da Cristologia, p. 21.
[2] Cf. DENZINGER, H. Compêndio, 125 e 301.
[3] Interessante notar que na linguagem comum alemã Jesus é denominado Herrgott (Senhor Deus).
[4] HAIGT, R. O futuro da Cristologia, p. 20-21.
[5] QUEIRUGA, A. T. Creio em Deus Pai, p. 96.