segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Religiões a serviço da paz

AS RELIGIÕES A SERVIÇO DA PAZ

            A volta do religioso é constatado por todos os observadores. A sociedade superou a fase crítica da indiferença e resistência ao espírito religioso. Isto, no entanto, não quer dizer que as religiões, mesmo a religião cristã e católica esteja aumentando numericamente. O que de fato acontece é uma volta ao espírito religioso de cunho mais individual, conforme as opções de cada grupo ou indivíduo. Pergunta-se, este retorno do religioso ajuda a consolidar a paz entre as pessoas e das pessoas para com toda a criação?
            Lamentavelmente deve-se responder que não é bem isso que se vê no cotidiano. O mundo de hoje apresenta um quadro relacional cada vez mais carente de paz. Os conflitos entre os poderosos e ricos desta terra por um lado e os fracos e pobres do outro, trazem como consequência imediata enorme falta de paz. Cada vez mais o direito de vida digna é negado a indivíduos, a famílias, a grupos e a povos inteiros. Isso causa violências, revoltas e mais guerras, e a paz vai pelos ares.
            Basta olhar as manchetes dos jornais para nos escandalizar com notícias de roubos, corrupção, violências, mortes, assaltos e, ultimamente vemos crescer a vergonhosa vingança e perseguição, geralmente infundada e injusta. Assiste-se, estupefato, a ascensão de quem promete construir muros, quando na verdade o mundo precisa de mais pontes. Aliás, todas estas coisas são injustas e, ao invés de contribuir com a ordem e a harmonia, cada vez criam mais desavenças e frustações.
            Os gritos e apelos de milhões de seres humanos são abafados e, pequenos grupos defendem seus interesses particulares. Enquanto famílias inteiras são deslocadas de suas terras e de seus países, os grupos dominadores conduzem seus negócios longe desses miseráveis, sempre na escuridão ou escondendo a verdade. Prometem solucionar os problemas que tanto sofrimento trazem, porém, mantendo as massas alienadas, acarretam cada vez mais dor e morte pelo mundo afora. É triste saber que os alienados (provavelmente sem culpa, pois a mídia os cega e não deixa ver a verdade) aplaudem e elegem seus próprios “açougueiros”!

Paz
            Diante deste quadro macabro, pintado com cores fortes retratando sangue derramado pelas vítimas da ganância, inveja e maldade, pergunta-se sobre a paz. O que vem a ser paz neste mundo onde há tanta carência dela?
            Paz, com certeza, não é aquela que os ricos e poderosos desejam, a “paz dos cemitérios”. Esta é o calar a boca dos pobres para que não perturbem. Dá-se lhes uma migalha para que sejam bonzinhos. Não, isso não pode ser paz.
            A paz, tão almejada pelo ser humano, pode ser resumida na palavra “harmonia”, ou então, estar de bem com Deus, com o próximo e com tudo o que nos circunda. Mas isto deve ser melhor explicado. Esta harmonia é algo duradouro, realização plena para cada pessoa e para humanidade toda. O Papa Francisco lembra que na paz “tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs em uma peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra” (Ludato Si, n. 92).
            A paz, é então um dom que se alcança porque se crê, não no poder do dinheiro, dos ricos e poderosos deste mundo que só sabem explorar, destruir e matar, mas na realidade divina e sagrada que ultrapassa todos esses falsos valores. A paz, alcançada pela fé nessa realidade sagrada, é verdadeiramente paz porque torna o ser humano livre das amarras e de seus próprios impulsos animalescos. Somente homens livres podem experimentar paz e transmiti-la. A fé faz viver. Quem não tem paz, não vive!

As religiões
            Todas as religiões, enquanto tais, no seu ímpeto de estabelecer relações com o Transcendente, com o sagrado, estão, em última análise, procurando a tão desejada harmonia entre o Criador e a criatura: a paz. Cada tradição religiosa concebe esta paz do seu jeito. O cristão, continuando a experiência da religião judaica, a vê como Reino de Deus, da justiça, da fraternidade e da vida em abundância. É próprio de cada religião partir da realidade das relações entre os humanos, lá onde se sonha com um mundo melhor, mas onde também se enfrenta o mundo mau, desumano e destruidor da vida. A função da religião é ultrapassar esta realidade transitória para “entrar” em nova realidade. As revelações que se alcança nas religiões pretendem responder às questões dos humanos e, que assim os elevam para o nível superior da relação harmoniosa. Os limites são transpostos, não pelas próprias capacidades, mas com as que vêm do alto.
            Fé é comum a todas as religiões. Ninguém pode se considerar religioso sem fé, justamente porque a religião o conduz a outra realidade onde há “encontro” com Deus que renova as relações em direção da paz. Podem haver muitas crenças distintas entre as diversas religiões, mas a fé não pode faltar em nenhuma. A fé é fundamental enquanto as crenças e a maneira de expressar a crenças são muito diferentes e superficiais. Às vezes, quando se dá muita importância para as inúmeras crenças, surgem conflitos que muito empobrecem a busca da paz.
            A paz não é propriedade desta ou daquela religião; ela é antes, buscada por cada uma. E, à medida que uma religião ajuda seu fiel a crer na realidade divina ou sagrada, renuncia a tudo que é transitório; e se torna mediação útil entre o crente e a realidade da paz. O relacionamento com essa realidade é a paz, ou ao menos, o início da verdadeira paz. O fiel não alcança a paz porque pertence a uma determinada religião, mas porque crê na realidade transcendente, divina, sagrada, da qual a religião é mediação. A paz, é então, mais que sossego; é um estado de espírito, uma forma espiritual de crer e de viver harmoniosamente.
            Mesmo que frequentemente as religiões se tornaram culpadas por ambiguidades e até por sofrimentos, frutos de mecanismos violentos; isto não tira seu valor intrínseco na busca da paz para todos. O que acontece, nestes casos, é que se esquece a fé fundamental e se coloca em seu lugar crenças e costumes que dividem e fanatizam. Nenhuma religião pode incitar seus fiéis à violência. E como diz um teólogo de nossos dias: “(Nas religiões) a reocupação em vencer não deve prevalecer em relação ao convencer, e o convencer não pode ser condição para conviver pacificamente” (Elias Wolff, coordenador do Núcleo ecumênico e Inter-religioso da PUCPR).

Conclusão
            A paz é anseio universal. Porém, alguns a procuram egoisticamente só para si ou para o seu pequeno grupo. Ignoram os demais e, por isso, usam meios, os mais deploráveis, quais são a exploração, o roubo, a corrupção e múltiplas formas de violência. Enganam-se, pois a paz não consiste nestas coisas. Mesmo que todas as religiões sejam intermediárias entre seus fiéis e a realidade sagrada, alguns as usam com intenções falsas: aproveitam-se delas para, mais uma vez extravasar sua ganância egoísta. Alienam os mais fracos, dando-lhes a ideia de que observando certos costumes e escondendo-se atrás de determinadas crenças, são possuidores e promotores da paz.
            Todavia, as religiões contribuem para a paz na humanidade quando ensinam a ser com o outro, ensinam a conviver social e espiritualmente com o outro, a buscar com o outro, dialogar com o outro. Talvez este seja o primeiro passo no rumo da paz duradoura, com a qual todos sonhamos; e que Jesus Cristo anunciou e proclamou. É preciso ter coragem para converter, não somente a nós mesmos individualmente, mas também as nossas religiões.
Pe. Mário Fernando Glaab

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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Meditar e refletir

CRER É PRECISO, PENSAR TAMBÉM

            Sem entrar na complicada discussão da relação entre razão e fé, entre conhecimento científico e conhecimento infuso, queremos refletir e meditar sobre “crer” e “pensar”. Pois se alguém afirma que hoje, mais do que nunca, é preciso crer, devemos completar, e pensar também. Aliás, os tempos e as situações, no percorrer da história, mudam, mas os desafios são sempre os mesmos. O ser humano não deixa de ser impulsionado a procurar respostas para os questionamentos mais existenciais, tanto na dimensão da fé quanto na dimensão racional.

            Se acreditar é fruto da fé, é consequência da adesão consciente a Alguém ou a algo que escapa da demonstração científica. Neste caso, ter fé é mais do que aceitar simplesmente. Na verdade, a doutrina cristã ensina que a fé é uma das três virtudes teologais, isto é, infusas por Deus na pessoa que acolhe Jesus Cristo como Senhor no batismo. É, então, um dom que o fiel recebe, mas que ele precisa desenvolver. Claro que não se pode restringir a fé somente aos cristãos, achando que outras pessoas não possam ter fé.  Deus não está amarrado aos nosso esquemas sacramentais; eles, porém, são o caminho ordinário que por meio de Jesus Cristo nos levam ao mistério de Deus.
            Não resta dúvida de que o ser humano, sempre foi e sempre será convidado a sair de si, de suas respostas imediatas, e se elevar a uma outra esfera, a esfera do sobrenatural. Nem mesmo as respostas da filosofia satisfazem o profundo desejo de conhecer o sentido da vida, do Transcendente e do mundo. Justamente aí entra o convite à fé. Deus, de mil e uma maneiras se comunica aos humanos – sempre em “linguagem” humana -, para que saiam de si e tenham fé. No entanto, Ele não obriga ninguém a fazer isso. Ele não dá sinais que possam ser comprovados em laboratório ou calculados matematicamente. Ele propõe, convida e aguarda adesão. É misterioso o fato de alguns crerem e outros não crerem. Mas, a fé igualmente não pode ser mensurada com medidas humanas. Quem pode entrar no íntimo do coração alheio para lhe medir a fé ou a falta de fé? Na verdade há dois tipos de pessoas que afirmam a necessidade da fé: aqueles que a possuem e aqueles que não a têm mas a confundem com sua preguiça de pensar. Estes últimos justificam seu comodismo ou sua incapacidade de pensar dizendo que é preciso crer, uma vez que as coisas são muito complicadas para ser entendidas.

Razão
            É próprio da razão humana pensar. Seu pensamento, quando bem ordenado, busca respostas para os mais diversos questionamentos da vida. No decorrer da história o pensamento humano fez enormes progressos, conquistou muitos conhecimentos, desenvolveu os mais diversos saberes que, além de satisfazerem muitas curiosidades, tornam mais digna e mais prazerosa a vida humana. A tecnologia – fruto do desenvolvimento científico -, quando colocada a serviço do bem de todos, facilita a comunicação e a colaboração entre as pessoas, tornando a vida mais alegre e menos assustadora diante de tudo que se lhe opõe.
            Como o ser humano é ser-pensante, nada justifica renunciar a tal propriedade. Quanto mais humano alguém quer ser, mais pensante deve ser. Nada o dispensa de procurar respostas diante de sua “curiosidade” frente ao mundo e frente aos desafios da própria vida, da vida dos outros e de toda a criação. Passar por esta vida sem pensar seria o mesmo que passar por inúmeras oportunidades de se realizar e de ajudar na realização dos outros, e nada fazer. Seria dizer: eu não posso ajudar, mas creio que Deus o faz por mim. Isto, na verdade, seria covardia. Seria atribuir a Deus o que é da responsabilidade humana.

Meditar e refletir
            O homem de fé medita, o homem que pensa reflete. Isto, todavia, é muito esquemático, pois a meditação conta com a reflexão, e a reflexão conta com a meditação. Somente medita quem reflete e, a reflexão abre portas para a meditação. Como vimos, a fé é um dom gratuito de Deus, aceito e cultivado livremente pelo ser humano. Mas isso não o dispensa da busca incessante de respostas para os desafios da vida e do mundo. E, o ser humano que reflete, mesmo que não tenha fé, pode se sentir impulsionado a dar um passo para o além, para o Transcendente. Seria o passo para a fé.
            Crer é preciso, no entanto, pensar também o é. E, pode-se dizer mais ainda: ninguém pode ser forçado a crer, mas quem não quer pensar, também não pode exigir nada do relacionamento humano, uma vez que ele não colabora com nada. Crer é graça, pensar é dever humano.

               Crer por não querer pensar é covardia; pensar para crer é heroísmo.
Pe. Mário Fernando Glaab

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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Hunsrickisch Geschitje

DAT FISCHEREI

            Fria wie mea all noch Kinna wore, so freche Kurizzode, do is doch Allehand intressantes passiat. Mea hatte doch dicht bei uns die Rio; de Fluss is doch groat so viahunnet Meta hinna unsa haus dorich gelaaf. Wo mea gewoht hon dat wo jo so en schen Platz: de Fluss, dat Potrea mit grosse Beim vun alle Satte, de Wech wo de Berich nuff gang is, die Heissa – unsres un de Nochbas eres – die Kuhstell, Schweinestell, Hinkelstell, die Paiol un was noch alles debei geheat. Dat hat alles herlich ausgesien.
Wen mo so via oda finf Kuri beisamme wore, do is Allehand oangefang gep. En schene Toach, so in en heise Sommanommintach, do wolte die Lausbuwe mo fische gehen. Naja, Werm honse sich gesucht un mo die Angle sammegeraft. Gleich wore se ach an de Riobaranke. Schun hot de een geschroit: “Chá pekei um lampari”; de annere: “eo um Kará. É pequene, mais eo chá coloquei outra minhoc, e vo tirá um pintode”. Un so is dat so em Zeit gang. Jede wolt jo doch de beschte Fischa sen, un die meiste un greste Fisch fange. Wie awa mo so em Stunn rum wo, do wo de Luscht vobei. Uff emol sot de grescht von de Kuri: “Eo vo tomá panho; o ákua tá worem”. Dat wo blos ruck um zuck un Jede wolt doch so schel wie ficks in das Wassa.
Ja, sich se bote in dem worem Wassa, das wo jo schen um gut; awa di Kurizzode hatte doch kei Botshose, un die Unnahose deft doch net nass gemach werre, das die Mama das net rausgriche tet.Die Mama hat doch imma oangehal, die Buwe solte net in’s Wassa, dat wea so geferlich. Die Junge hon awa gokei Zerimonie gemach. Die hon mo geguckt ob grot kei Weibsmensche in de Neh were, un dan Alles ausgezoh: Hose, Hemd un Unnahose. Do honse gestan wie Adam un Ev im Paradies, puddeleschichnackich! Naja, das wo jo ach net de greste Scandal. Die Kelle wolte sich doch mo bisje vergniche.
Awe, awe! Uff emol hat ma spreche an de Barranke geheat. Un werklich, dat wo doch die Mamai mit de Komadre un ihre Tochta, tat Mariche wo schun so en Medche woa. Un jetz? Keine deft doch aus dem Wassa, weil se doch sich net so zeiche kinte. Parbaritode! Blos die Kepja hon raus gekuckt. Noch net mo schwemme wo meglich, weil dan de Hinnre zum voastand komme kint. Die weiwa hon dat gestan un geschtaunt: “Was macht dea in dem Wassa? Wen dea fosauft! Dea hat doch gonet gebeicht in de letzte Toche, dea kommt in de Hell. Gleich raus!” Wie dan de ene Kuri mo gesot hot “ja, mea wolle raus awe mea kinne jo net”, do hot die Mamai es schun verstan. Sie soat iwa die Komadre “komm mea gehn hem, die Kuri komme oach gleich. Dat Marichen wolt jo ken noch bisje watte, awe die Muttre hon das doch net erlaupt.
So hat die Fischerei sich geend, um Alles is gut ausgang. Gute Zeite!

Glaabsmário

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Igreja "em saída" e Igreja "em entrada"

O PERIGO DE SER “RELIGIOSO”

            Existem religiosos e “religiosos”. Não quero falar dos religiosos, daqueles que pertencem a ordens ou congregações religiosas e que o são por vocação. Quero, no entanto refletir sobre uma outra concepção de religioso, que em si não tem nada de extraordinário, mas que, pelo fato mesmo de ser religioso, está em contínuo risco de se desviar do que lhe é próprio.

Religiões e religiosos
            As religiões têm como finalidade específica religar a Deus; ou estabelecer uma via entre o Transcendente e o Imanente, entre Deus, o ser humano e as criaturas. Aqueles que optam por uma religião tornam-se religiosos, por “utilizarem” este caminho que os une a Deus, com os demais humanos e com toda a criação. No seguimento religioso os indivíduos se tornam presença no mundo da realidade que vai além do que é somente do mundo. Em outras palavras, mostram e realizam concretamente a atuação de Deus no emaranhado das coisas e acontecimentos da história deste mundo.
            As religiões e os religiosos, como se pode ver, são de extrema necessidade para que a realidade onde se encontram as criaturas possa ter respostas que vão além do imediato. Dar sentido para questões que não encontram significado somente nas explicações científicas, técnicas, econômicas; muito menos na sede do poder, do prazer e do ter. As religiões e os religiosos convidam e levam para valores que ultrapassam estes falsos valores, que na verdade, não libertam, mas prendem e escravizam. Tornam a vida e os relacionamentos humanos insuportáveis. Assim, um mundo sem religião é um mundo sem significado; mas, o mundo religioso é estabelecido em relações novas e valores que dão sentido para opções que não são percebidos sem a presença da religião.
            Até aqui não estamos falando desta ou daquela religião específica, sabendo que no passado e no presente existiram e existem inúmeras religiões, cada uma com suas qualidades boas e com suas dificuldades e limites; todas, no entanto, procurando estabelecer o contato entre o divino e o humano. Pretendemos agora nos referir à nossa religião cristã, mais diretamente à Igreja, da qual também nós somos membros e que faz de nós religiosos.

Igreja “em saída” e Igreja “em entrada”
            O Papa Francisco insiste, e volta a insistir, numa Igreja “em saída”. Se ele insiste nessa questão, podemos nos perguntar sobre o contrário: Igreja “em entrada”, o que é isso? Certamente esta Igreja está por aí, e está camuflada ao ponto de muitos não a verem. Estejamos atentos.
            Mas, o que o Papa entende com Igreja “em saída”? Ele mesmo explica: uma Igreja que se envolve com todas as realidades humanas; uma Igreja que, por causa de Jesus Cristo – seu Mestre e Senhor – não tem medo de se machucar no encontro com os machucados da vida. Uma Igreja que busca levar a todos a Boa Notícia de que Deus é um Deus misericordioso e libertador. Deus quer levantar todos, sem discriminar ninguém. E por isso se faz um com todos, principalmente com os mais esquecidos e necessitados. Igreja “em saída” é a Igreja que anuncia e realiza a salvação do mundo, pois leva a todos o próprio Salvador, Jesus Cristo.
            A Igreja “em entrada”, por outro lado, deve ser o contrário. Isto é, uma comunidade que se fecha sobre si mesma. Ela está preocupada em se autodefender, cuidar-se para não se contaminar com os males que afligem a humanidade. Mais do que isso, ela se acha boa. Ela possui saúde, pois Cristo, o Divino Médico é posse sua. Todos os que aderem a ela estarão protegidos, contanto que se “abriguem” à sua sombra e não se exponham aos ventos frios das ruas do mundo. Triste constatação: Era assim que Jesus quis a sua Igreja?
            Aliás, sabe-se que há uma tentação muito forte entre os fiéis da Igreja no sentido de buscar refúgio contra os ataques do mundo infestado pelo mal. È bem mais fácil se fechar num templo e lá, junto com irmãos seletos, louvar o Senhor, do que estar nas ruas e vielas das cidades ou dos campos onde estão os caídos à beira dos caminhos, vítimas da violência, dos vícios, das incompreensões, dos preconceitos e das expulsões, até mesmo das comunidades de fé. Esta Igreja, porém, se atrofia, fica doente, pois o Espírito de Cristo impele os discípulos de Jesus a saírem para os confins do mundo. As portas e janelas fechadas são sinais de medo, de falta de fé no Ressuscitado. Uma vez que o Ressuscitado derramou seu Espírito sobre os discípulos medrosos, eles não podem mais ficar fechados; necessitam sair e pregar a todos, sem medo e sem vergonha. Testemunhar que Ele vive e que quer curar todos os males da humanidade. Ele o faz pela Igreja, concretamente pelos seus fiéis, discípulos verdadeiros de Jesus de Nazaré.

Religiosos perversos
            Por incrível que pareça, as religiões podem perverter seus religiosos. Isto acontece quando as religiões domesticam as consciências dos fiéis. No nosso caso, o cristão, que deve ser sempre chamado, convocado e seduzido por Jesus Cristo a sair, como discípulo dele pelo mundo ao encalço dos pobres e pecadores para “ressuscitá-los”, mas que encontra na Igreja somente consolo e paz de consciência e se sente protegido, é um típico “religioso em perigo”. Este, na verdade, está buscando “seu ninho” na Igreja onde pode viver tranquilo e não ser infectado pelos vírus que estão “lá fora”. A pureza em excesso se torna psicose maníaca!
            Deve-se desconfiar dos religiosos que se julgam melhores que a grande maioria das pessoas. São tantos os religiosos que por causa de sua condição e status conquistados, esquecem ou até desprezam os demais. Gostam de ser lembrados como ministros, catequistas, diáconos, padres, bispos...; fazem questão dos títulos de destaque – excelência, reverência, ilustre senhor(a) -, usam vestes distintivas para serem diferentes e procuram os primeiros lugares. O termo “irmão” perde seu significado verdadeiro entre eles. Pior, quando na comunidade existem rixas e ciúmes, um competindo com o outro pelos postos melhores e mais importantes.
            Um exemplo típico da perversão dos religiosos são os símbolos do cristianismo transformados em símbolos de poder e de dominação. A cruz, que lembra Jesus de Nazaré humilhado até o extremo, abandonado por todos (até pelo Pai!), condenado pelos líderes religiosos e políticos de seu tempo, chega ao absurdo de ser desfigurada em objeto de poder e de dignidade, que se coloca sobre o peito de imperadores, militares, homens ilustres; é colocada em tribunais, locais públicos e mesmo nas casas. Cruzes de ouro e de pedras preciosas. Cruzes que são uma zombaria da dor e do fracasso de todos os seres humanos nos quais Jesus continua sofrendo e fracassando nesse exato momento. Mas para os religiosos ela é sinal de dignidade e proteção.
            Que tal, se soubéssemos ver nas cruzes que “enfeitam” nossos peitos e nossas salas os irmãos sofredores de hoje? Ou até substituir o crucifixo da parede por uma foto de crianças assustadoramente magras e famintas, por refugiados de todos os tipos, por sem-terra e sem-teto, por homens e mulheres de rua mal cheirosos e maltrapilhos? Talvez afastaria da tentação da “religião de proteção”, do “perigo de ser religioso”.
            Ter religião e ser religioso é preciso; mas bem entendido, para que o mundo possa ser um pouco melhor. Nunca para que o homem e a mulher “religiosos” possam se sentir melhores que os outros.
Pe. Mário Fernando Glaab

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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Novos tempos na pastoral

PASTORAL ATUALIZADA

            A Igreja, em todos os tempos de sua existência pelos séculos afora, sempre teve consciência de que, a partir do ordem de Jesus de levar a Boa Nova a todas as criaturas, sua missão é pastorear, isto é, trabalhar pastoralmente, ou fazer pastoral. Sem dúvida, conforme as épocas e as diversas circunstâncias, esta tarefa teve mais ou menos importância; mais ou menos intensidade, contudo, nunca deixou de estar presente nas atividades evangelizadoras da Igreja. Dito isso, voltemo-nos para a questão que se coloca diante de nós hoje: como a Igreja deve atuar em nossos dias para que a sua atividade pastoral responda aos anseios e necessidades do mundo hodierno? Ela responde às perguntas que o nosso povo faz hoje? Responde a esta gente que vive em situações cada vez mais desafiadoras e complexas; ou pretende responder às questões que ninguém mais coloca, sempre do mesmo jeito como respondia no passado?
            Muito se discutiu sobre isso. Muitas contribuições de especialistas estão ao dispor de quem busca por análises, aliás, o Magistério da Igreja continuamente produz orientações a nível mundial, nacional, regional e até nas dioceses e nas paróquias. Porém, isso não dispensa a preocupação de cada um no sentido de se atualizar e colaborar na busca dos melhores instrumentos para uma pastoral eficiente e adaptada à realidade das pessoas de nossas comunidades concretas, aos seus anseios e desafios. Assim, não pretendemos apontar para soluções acabadas – seria muita pretensão! -, mas apenas contribuir com algumas reflexões e sugestões.

Mundo agitado
            Usemos a imaginação: se um pároco que viveu há cem anos atrás em uma paróquia do interior de nosso vasto país chegasse hoje para continuar o seu trabalho no mesmo lugar, como seria? Pobre coitado! Independentemente das suas qualidades intelectuais e morais; até mesmo se tivesse sido um santo, ele não se adaptaria mais, de forma alguma, à sua paróquia que, por força das muitas mudanças na sociedade, já há bastante tempo não é a mesma. Ou ele precisaria passar por uma longa transformação – com certeza impossível -, ou não faria mais nada; e provavelmente impediria qualquer avanço da paróquia.
            A paróquia pacata e centrada no padre já não existe mais. A situação está toda mudada. A porcentagem de fiéis que são totalmente alheios à Igreja aumentou assustadoramente; os que “fiéis oportunos” – que aparecem lá de vez em vez quando têm uma criança para batizar, um casamento ou exéquias -, são um desafio constante; e, os que podem ser considerados paroquianos verdadeiros subdividem-se em muitos grupos. Alguns superativos, envolvidos nas diversas pastorais e movimentos; outros com estilo mais tranquilo, no entanto, bastante críticos. O padre necessita estar presente em toda a paróquia e junto a todas as atividades. Questões morais, das mais estranhas, fazem parte do cotidiano; e os problemas administrativos não são esporádicos. Além de tudo isso, existem os planos pastorais da Igreja a nível nacional, diretrizes e urgências. Roma não deixa por menos: documentos pontifícios aparecem continuamente.
            Isto é apenas um pouco do mundo agitado onde se encontram as paróquias; mais nos grandes centros, talvez pouco menos nas pequenas comunidades do interior; contudo, em toda parte os desafios são enormes. Aí o pároco, com uma boa equipe, deve se lançar de corpo e alma à pastoral. Pastoral atualizada e sempre em atualização.

Boa pastoral não é sinônimo de sucesso
            A mentalidade atual quer fazer crer que sucesso é o mesmo que bom trabalho. Não é verdade. A longa experiência da Igreja convida a ir mais a fundo na questão. Em se tratando do anúncio do Evangelho, o fiel há de saber que a dedicação é importantíssima, mas não é tudo. Algumas vezes os frutos não surgem onde se planta com grande esforço, mas aparecem onde menos se espera, ou mesmo onde pouco se investiu. Depara-se aí na questão do mistério da graça. Jesus falou sobre isso quando comparou o crescimento do Reino à semente que é lançada na terra e que germina e cresce sem o agricultor saber como isto acontece (cf. Mc 4,27).
            Contudo, nem hoje nem no passado pode se dispensar a dedicação dos pastores e agentes de pastoral. Até mesmo na parábola que Jesus contou ele não esquece do semeador. O trabalho dedicado de quem semeia, prega ou organiza as pastorais na comunidade é indispensável. Além de exigir muito esforço, precisa ser feito de tal maneira que sempre esteja lá onde está o interesse das pessoas, isto é, estar no lugar onde as pessoas procuram chegar. Se nem toda boa pastoral leva a sucessos imediatos e visíveis; com certeza, os sucessos pastorais que aparecem nas comunidades têm atrás de si muito trabalho e pastorais bem planejadas e criativas.

Novos meios de comunicação
            A mensagem evangélica é sempre a mesma: Deus Salvador entre nós. Mas o jeito de levar esta mensagem às pessoas de hoje não pode continuar como era nos tempos passados. Já não se busca conhecer o Evangelho somente em “sermões” ou em “aulas de catecismo”, mas os olhos e ouvidos das pessoas estão nos modernos meios de comunicação. É difícil encontrar um jovem, um adolescente e, mesmo uma pessoa adulta que nãos esteja conectada às redes sociais, que não esteja com seu celular ao toque de sua mão. A televisão e a internet estão em toda parte. E, em tom de brincadeira, podemos dizer que se não quisermos que Deus seja expulso do lugar que lhe é próprio (em toda parte), precisamos garantir-lhe seu posto em todos esses novos meios de comunicação, caso contrário, eles o dispensam! A pastoral, para ser válida também hoje, necessita inserir seu conteúdo evangélico em toda parte, aproveitando qualquer brecha que encontrar nos meios de comunicação que todos usam.
            Neste sentido é que se deve falar dos planos para a ação pastoral. Estes planos nunca podem partir de especialistas somente. Devem, sim, contar com profissionais pensantes que sabem olhar para a realidade; contar com a experiência de líderes que caminham com as comunidades; que sentem as alegrias e as tristezas, as angústias e os sucessos dos homens e das mulheres nos desafios do dia-a-dia. A partir de tudo isso, iluminados pela fé que se professa expressamente, mas igualmente pela fé que o povo muitas vezes não consegue expressar, elaborar planos, projetos a formas novas de evangelizar. Mais com o intento de ser Igreja-Sacramento-da-Misericórdia-de-Deus do que Mestra que ensina; mais como serva que vai aprendendo e se moldando ao novos desafios da vida e das comunidades que “Senhora Sábia” e que está acima de qualquer problema.
            Neste sentido, tanto gestores como agentes de pastoral estão na mesma luta. Cada um no seu devido lugar, mas unidos pela mesma vontade de ajudar na construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna; lugar onde todos podem viver com dignidade, viver sua fé, sua esperança e sua caridade; dando oportunidade para que Deus ocupe o seu lugar em toda parte. Este será um projeto que passa do teórico para o prático, e que colabora verdadeiramente com a implantação progressiva do Reino de Deus neste mundo, mesmo que o nosso mundo não seja mais como ele era a cem anos atrás. O nosso mundo agitado também precisa de Deus. Nós, como Igreja, temos nossa parte de responsabilidade neste processo.
Pe. Mário Fernando Glaab


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Dízimo é gratuito

DÍZIMO E GRATUIDADE DE DEUS

            Apesar de todas as explicações e reflexões que se fizeram nos últimos tempos, pode parecer que os dois conceitos – dízimo e gratuidade de Deus - não se harmonizam totalmente. Mesmo que a Pastoral do Dízimo, nas últimas décadas, tenha insistido enormemente para mostrar que o dízimo não é “pagamento”, mas oferta de amor, ainda permanece certa dúvida e até convicção, talvez escondida no profundo de nossa religiosidade, de que o dizimista fiel recebe mais bênçãos que o não-dizimista. Aliás, se Deus é justo, justiça se faz. O Deus da Gratuidade sem limites para com todos é outro assunto, que não convém abordar quando se fala de dízimo. Mas, vejamos.

Jesus e a generosidade
            Na verdade, a ideia de que Deus dá a suas bênçãos aos bons dizimistas é veterotestamentária. Jesus nunca ensinou isso. Jesus, em toda sua pregação e nos seus feitos, anunciou uma ilimitada confiança no Pai que não faz distinção entre seus filhos. Conforme Jesus, o Pai do Céu faz o sol nascer sobre os bons e os maus, chover sobre justos e injustos (cf. Mt 5,45), pois todos estão incluídos no seu amor paterno. O que Jesus anuncia e instaura é uma nova realidade, onde todos têm acesso à misericórdia de Deus. Onde a vida é valorizada naquilo que é: dom de Deus. É, em outras palavras, o Reino de Deus na terra. Neste Reino há abundância para todos, pois será vida em plenitude.
            A tarefa da Igreja, mãe generosa, é ser sinal eficaz do Reino de Deus no mundo, para que todos possam ter acesso à vida plena. Quem a experimenta, ou melhor, a vivencia a vida em plenitude, não pode mais se fechar no egoísmo que quer tudo para si. Abre-se para compartilhar com todos o que encontra no Reino. Abandona qualquer iniciativa de comércio ou barganha com relação a Deus ou ao próximo. Seu partilhar é pura generosidade. Acolhe o Reino com simplicidade; compartilha os bens na visão do Reino generosamente sem esperar nada em troca. Toda doação é fruto da pertença ao Reino, ou melhor, o Reino do Pai é a base de qualquer gesto cristão que assim se torna gratuito, como é gratuito o Reino.
            Deus não se deixa vender e nem ser comprado. Não aceita oferendas manipuladoras, mas se dá com alegria aos pequenos e aos pobres. Aliás, Jesus o louva por isso, ao exclamar: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos. Sim, Pai, assim foi do teu agrado” (Mt 11,25). O louvor de Jesus é a revelação da alegria do Pai. À medida em que o ser humano começa a entrar na ótica de Jesus, ele igualmente sente alegria ao se poder doar. Estas são coisas que o mundo não consegue entender, pois são escondidas aos sábios; não porque Deus as escondeu, mas porque ele tem outros interesses. O que procura não confere com o que os pobres e pequenos buscam. Ele corre sofregamente atrás de bens materiais, do dinheiro, do poder, da fama e do prazer. Os filhos do mundo estão anestesiados diante dos valores do Reino.

Dízimo é sinal do Reino
            Tendo como base a gratuidade com Deus nos oferece a participação em seu Reino, podemos apresentar o dízimo na visão cristã. Ele não é recomendação, ou mandamento de Jesus. É bem mais do que isso. É fruto autêntico do único mandamento de Jesus, o amor. Aquele que ama é do Reino. No Reino a vida é partilhada.
            Dar o dízimo na comunidade de fé e de vida, nada mais é que compartilhar o Reino que buscamos e que recebemos gratuitamente de Deus e dos irmãos. Dar o dízimo para que a comunidade tenha condições de existir é aprender sempre de novo a realidade nova do Reino de Deus. Não se mede a generosidade pelo valor pecuniário do dízimo, porém pela consciência da pertença do fiel ao Reino de Deus. Uma vez que no Reino de Deus há vida para todos, o dizimista colabora com sua generosidade na construção da vida do Reino em sua comunidade.
            Portanto, o dízimo cristão não é uma forma sábia que a Igreja encontrou no decorrer dos séculos para sobreviver e para adquirir as bênçãos e graças de Deus em favor dos seus fiéis, mas é partilha generosa com os irmãos da comunidade, resposta generosa de quem experimenta e vive a gratuidade de Deus na construção do Reino em meio os desafios do mundo. Mesmo que a sociedade em geral prega o egoísmo, o consumo desenfreado, a falcatrua, e tudo o mais que divide as pessoas, o dizimista continua testemunhando as coisas “escondidas aos sábios e entendidos” mas reveladas aos pequenos, os benditos do Pai, o amor generoso que sabe se doar como Deus se doou em Jesus.

Pe. Mário Fernando Glaab

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Pastoral hoje.

PASTORES CONVERTIDOS – PASTORAIS CONVERTIDAS

            Nos últimos anos, principalmente a partir da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe em Aparecida, falou-se muito sobre a conversão pastoral, tão necessária para a Igreja, para os pastores e para cada cristão que pretende levar a sério o Evangelho no contexto em que vive, concretamente, na comunidade onde se encontra. Comunidade esta que é sempre perpassada por sociedade extremamente plural, com situações muito diversas: gente boa, menos boa e má; gente que vive na prosperidade, gente que possui o necessário para bem viver e, muita gente que vive na carência do que é preciso para uma vida digna, que pode ser resumida nos termos técnicos: teto, trabalho e terra.

Pastor e pastoral
            Não há muito que discutir, para o cristão, ser pastor é ser parecido com Jesus de Nazaré, que desde o início da missão até o fim, sempre se apresentou e agiu como o Pastor por excelência. Ele é, e sempre haverá de ser, o modelo para quem pretende colaborar com a Igreja no pastoreio das milhares de ovelhas que andam pelos prados deste imenso continente latino-americano, tantas vezes machucadas, perdidas e famintas. O pastor, a exemplo do Mestre de Nazaré, necessita ir ao encalço das que estão extraviadas e excluídas pela sociedade que, como o lobo feroz, devora e destrói violentamente. Sem dúvida, para continuar a missão de Jesus no hoje da história e no aqui da realidade, o Evangelho necessita de atualização. Precisa ser reinterpretado a partir de onde cada pastor está – junto das ovelhas. Não dá para esquecer que o Espírito Santo que impulsionou Jesus a ir ao encontro da ovelha perdida, já vai na frente de qualquer empreendimento pastoral. Ele está lá, esperando que o pastor o descubra e o deixe agir. Ele, o Espírito, não fala; mas quer iluminar o pastor para que proclame aí a Palavra, que é o Cristo. O pastor, então, longe de se apresentar com palavras prontas, vai para junto das vítimas de todas as espécies - em uma palavra -, junto aos pobres. Lá irá reinterpretar a Boa Notícia que Jesus de Nazaré não cansa de anunciar: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa-Nova aos pobres” (Lc 4,18).
            A pastoral, longe de ser um “empacotado” que vem de cima, pré-concebido nas secretarias paroquiais ou diocesanas, será experiência concreta da vida querida, amada e protegida nas mais diversas situações e desafios que o nosso mundo apresenta. Planejamento não será dispensado, mas a metodologia usada em uma pastoral convertida há de ser a que o Espírito indicar em cada caso. Conforme as pessoas, sua cultura, suas tradições, seus costumes, porém especialmente, diante dos desafios mais prementes da comunidade, à luz da Palavra de Deus, da experiência do amor vivido por séculos na Igreja, escolher-se-á o melhor método de evangelizar. Esta será a pastoral convertida.

Novos conceitos e novas posturas
            O Papa Francisco nos lembra com propriedade que a Igreja deve ser “Igreja em Saída”. Mesmo que oficialmente a Igreja deixou de lado a preocupação do proselitismo, ainda existem fortes resquícios desta prática em numerosos cristãos de hoje. Isto se verifica quando nos planejamentos pastorais se olha em primeiro lugar para aqueles que normalmente participam das celebrações litúrgicas nas igrejas, contribuem com seu dizimo, têm seu filhos na catequese, fazem encontros de formação etc., e se constata, com tristeza, que são poucos. A partir desta constatação, para aumentar o número dos “arrebanhados”, procura-se encontrar o método mais conveniente para convencer o maior número possível. É o caso do pastor que diz consigo mesmo: “graças a Deus, eu tenho a igreja sempre cheia!”, e às vezes faz comparações com as paróquias dos colegas que não têm tanta sorte assim.
            Nossos tempos exigem novos conceitos e novas posturas para o trabalho evangelizador, deixando de lado a preocupação com o proselitismo, e mais ainda a competição com outras igrejas. “A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por ‘atração’: como Cristo ‘atrai todos a si’ com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor” (Bento XVI na Missa de Inauguração da Conferência de Aparecida).
            Se amor de Cristo o levou a estar junto das vítimas de todos os tempos, e assim, com eles ir à cruz, um conceito de pastoral verdadeiramente novo que gera nova postura não pode ser outro, a não ser o de estar do lado das vítimas e dos pobres em geral, mesmo que isso leve também à cruz. Esse novo conceito e essa nova postura desafiam a todos nós, mas quem não estiver disposto a tomar sobre si a sua cruz, também não é digno do verdadeiro Pastor Jesus.
            Na história do cristianismo já surgiram inúmeras preocupações para manter a Igreja bem protegida de ataques externos. No entanto, a história também ensina que muitas vezes essas preocupações, quando não bem fundadas no Bom Pastor, fizeram grande mal. Quem, no afã de ser ortodoxo, divide, separa, exclui, marginaliza ou condena, é um dos piores inimigos da Igreja e do Evangelho. Às vezes, esse inimigos são os que parecem “piedosos” e, com frequência estão entre os que têm cargos de autoridade e poder na Igreja. Cuidemos para ter ideias e conceitos claros para nãos nos tornarmos inimigos da Igreja ou sermos cúmplices dos inimigos.
            Portanto, tanto a Igreja quanto os pastores da Igreja necessitam de conversão. E sempre de novo. O Bom Pastor é o grande ideal. No entanto, as tentações de se fazer pastor e pastorear em seu próprio benefício estão sempre presentes. A conversão é um processo contínuo de purificação e de atenção, pois o Espírito clama, não por Si (não tem voz), mas o faz pela voz das vítimas de nossas sociedades injustas e excludentes. Se Jesus aceitou a função mais baixa a que uma sociedade pode submeter alguém: a de delinquente executado por blasfêmia e subversão, também os que lhe querem servir não podem temer esta mesma sociedade e o ela lhes tem a oferecer.
Pe. Mário Fernando Glaab

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