sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A Igreja e sua mensagem atualizada

NOVOS DESAFIOS PARA A TEOLOGIA E PARA A PASTORAL

            Não adianta esconder o sol com a peneira, pois os raios dele passam pelos seus furos e atingem áreas desprotegidas, tanto de nosso corpo quanto de nossos ambientes fora ou dentro de casa. Ainda mais quando se reside em regiões bastante ensolaradas, como é a nossa.
            Mas não é sobre os raios solares que pretendo discorrer; quero na verdade chamar a atenção para alguns desafios da teologia e da pastoral de nossa Igreja. Até alguns anos passados, tudo parecia tranquilo. A teologia tinha suas verdades que pareciam perenes e a pastoral não fazia muito mais do que aplicar essas verdades para os fiéis. Os fiéis recebiam essas verdades de seus pastores, orientavam-se por elas e se sentiam seguros. Hoje, no entanto, as coisas mudaram, e não pouco. Parece que os desafios e as perguntas que vêm do mundo atual já não se deixam mais conter por tais certezas que eram tão resistentes. As questões penetram por todas as frestas e começam a queimar as peles. Quanto mais sensíveis forem as peles, tanto mais sofrerão as queimaduras.

Igreja: sinal universal de salvação
            Para evitar que as questões provoquem maiores consequências, podendo levar a tumores insanáveis, quero considerar como desafio pregações e fundamentações latentes, que quase sempre, norteiam as mensagens em nossas igrejas. Partindo da necessidade de se ter uma igreja na qual se vive e à qual se pertence, apresenta-se a verdade da Igreja: ela é o sinal universal de salvação para o mundo. Tudo certo. Todavia, a teologia tem como tarefa deixar claro que sinal é sempre sinal para alguém. Ou melhor, deve orientar as pessoas que querem avançar. Quando o sinal ocupa o lugar daquilo que sinaliza, perde seu sentido. Quantas vezes as pregações voltam-se para a Igreja, apresentam-na em sua pureza ideal. Não vão muito além. Não respondem às reais perguntas do homem de hoje. Assim, na prática, a intenção tem como meta “encher” as igrejas de fiéis que formam um grupo seleto e protegido. Estas pessoas que participam das celebrações ordinárias das paróquias estão “salvas”. Fecha-se a Igreja diante do mundo, tanto teológica como pastoralmente. Quem está no mundo, se quiser ter contato com a Igreja, necessariamente vai ter que entrar pela porta da sacristia. Essa porta para ser aberta, geralmente exige cursos, encontros, preparações de todo tipo; pior ainda, certificados de cursos! O pregador que mais consegue chamar a atenção sobre a beleza de sua igreja, que mais atrai, leva vantagem com relação ao que não tem esses dotes. A concorrência torna-se o motor que move todo trabalho pastoral, escondendo uma teologia subjacente que se baseia em princípios certos, mas mal atualizados.

A verdade que protege e faz crescer
            O Papa Francisco e muitos teólogos e pastores sérios ensinam que a Igreja não pode chamar a atenção sobre si, mas deve, cada vez mais, ser uma Igreja “em saída”. Ela precisa ir às periferias da sociedade onde estão os desafios das multidões. A verdade da Igreja se atualiza lá, onde as pessoas são mais carentes dos sinais de salvação, que lhe são próprios. A Igreja é verdadeiramente sinal de salvação quando leva Jesus Cristo, o Salvador da humanidade, aos ambientes que mais carecem dele. Ela, portanto, antes de se preocupar consigo mesma, consciente de Jesus que veio para dar vida abundante, se coloca sempre em defesa da vida de todos e, em todas as situações. Jesus de Nazaré não veio ensinar uma religião, mas ao constituir a sua Igreja deu-lhe a tarefa de fazer de todos os povos discípulos seus, isto é, convocá-los a defender a vida e a dignidade de todo ser humano diante das forças destruidoras. A Igreja e qualquer religião são verdadeiras quando saem de si e vão para o mundo com a missão de servir à vida. A vida, conforme o Criador a dispôs, que, sem dúvida, leva à realização plena; não só nesta terra, mas também na vida futura. É a verdade que protege e faz crescer.
            Nas periferias da sociedade estão os pobres: os pobres de bens necessários para viver com dignidade, os explorados, os excluídos, os perdidos nos vícios, os grupos minoritários etc.
            Se a teologia e a pastoral da Igreja quiserem proteger a “pele” da sociedade de hoje, não podem se furtar da tarefa de ir aos desvalidos. Desmascarar qualquer pregação que visa somente o sucesso e a aparência da comunidade fechada; mostrar o caminho para que, saindo de seu comodismo, vá para onde a vida é mais ameaçada. Lá, envolvendo-se com a “escória” da humanidade, mesmo que se suje com sangue contaminado, transfundir com sangue novo os corpos dilacerados e malcheirosos. Apontar para Cristo que morreu entre malfeitores, porém, mesmo assim, teve a ousadia de gritar: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Teologia e pastoral que não favorecem uma Igreja “em saída” e envolvida nas dores do mundo estão tentando esconder o que é próprio da Igreja: levar luz para quem está na escuridão. Se isso não acontecer pelos caminhos ordinários, por outros caminhos os raios de luz irão penetrar, mas podem causar graves queimaduras.
Pe. Mário Fernando Glaab

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sábado, 1 de novembro de 2014

HUNSRICKISCH SPESSJE

IN DE KATEKISMUSUNNERICHT

Dat Fritzje wo doch imma son traurich Guriiche, dat hat jedem die Nerven uff di Haut gebrun. De Podda, wo son strenge Mann wo, de hot oach seine Last mit dem Fritzje gehat. Wat dem Geistliche doch gonet gefal hot dat wo des das Fritzje imma so mit sei Hund dorum gestribt is. Dat Fritzje un de Pororoo, wie de Hund gehees hot, die woore doch nie weit vonanna. Wo dat Fritzje hin is, do wo aach de Pororoo dehinna. De Pfarr soat imma: “Loss doch de stingiche Hund dehem!”, awa das nutz iwahaupt nicks.
En scheene Toach woa Katekismusunnericht. De Podda hot die Kinna in die Kerich geruf un hot dan mo oangefang se parlamentiere. Dat Fritzje hat ruich do gehuckt. Es hat net lang gedauet, un de Hund woa oach schun unna de Bank. Dat wo doch zu viel fa de Vigario. Ganz bees horra gefroat, un aach schun nohm Fritzje geguckt: “Warum is schon witta de stingiche Hund in de Kerich?” Die Kinna hon sich all oangeguckt un gelacht. Dat Fritzje is awa dann mo uffgeschtie un hot geantwot: “Ei, herr Pfarra, de Pororro is in de Kerich weil die Tea uff geschtan hot. Dat is doch leicht se veschteen”. All hon’se gelacht, blos de Podda is enscht geblieb.
Dat wo halt mo so. Die Hunn solle jo dehem bleiwe, awa wen’se de Guriizade noch lowe in die Kerich, dat is oach net die End de Welt.

Glaabsmário

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Sacramentos

A IMPORTÂNCIA DOS SACRAMENTOS NA CONSTRUÇÃO DA IGREJA?

            Talvez alguém possa imaginar que a Igreja se constrói fundamentalmente sobre a observância dos mandamentos, tendo como base a doutrina e a moral. Os sacramentos, nesse caso, ficariam mais como uma complementação individual de santidade, a perfeição espiritual do indivíduo; salvo a Ordem e o Matrimônio que se direcionam ao outro ou aos outros. Não é bem assim, pois, rompendo esse reducionismo, percebe-se íntima relação de todos os sacramentos com a Igreja.
            Antes, no entanto, de entrar na questão propriamente dita, devemos lembrar que o ser humano foi criado para a comunhão com Deus. Esta comunhão acontece quando o ser humano acolhe na comunidade a presença de Deus. Como a distância entre o infinito de Deus e o ser humano finito é abissal a relação entre os dois será por mediação. Mediação esta que na Igreja se atualiza em ritos, chamados sinais sacramentais.

Os sacramentos relacionam as pessoas com a Igreja
            Partindo-se da ideia de que a Igreja como sinal de salvação deve levar a todos o anúncio salvífico de Cristo, é fácil entender que em cada sacramento ela o proclama a cada pessoa, seja individual seja coletivamente. Assim é permitido imaginar os sacramentos como realizações, e até autorrealizações, de Igreja. Quando alguém é batizado ele se relaciona indissoluvelmente com Cristo, mas da mesma forma ele também estabelece relação estável com o corpo eclesial, é incorporado na comunidade de fé. Ao ser crismado, recebe o dom do Espírito Santo – enviado pelo Pai e pelo Filho -, mas é em nome da Igreja que ele vai viver sua missão testemunhal, ser fermento na massa, sal e luz que temperam a vida no mundo, conforme Cristo. Ao comungar eucaristicamente recebe o corpo de Cristo e se une ao amor infinito de Deus, mas comunga no mesmo pão que os irmãos comem. Portanto, sua relação eclesial é sinalizada e reforçada. Não é lícito comer desse Pão quando não se está em comunhão com a comunidade. Ao ser absolvido o pecador é acolhido nos braços misericordiosos do Pai, mas é igualmente reconciliado na e com a Igreja. Quando um doente é ungido Cristo se faz presente aliviando-lhe os sofrimentos e despertando nele a esperança; mas através do ministro a Igreja se compromete no cuidado diaconal. O ordenado, além da graça sacerdotal que o configura a Cristo-cabeça, está diretamente a serviço do povo de Deus. E o Matrimônio, ao unir marido e mulher em Cristo, dá-lhes a graça e a missão de se santificarem mutuamente, enriquecendo esta missão na extensão familiar para os filhos e demais membros.

Os sacramentos relacionam a Igreja com as pessoas
            Cada vez que alguém se aproxima de um sacramento a Igreja é construída. Os sacramentos constroem a Igreja ao engajar indivíduos no serviço da salvação desta. O Concílio Vaticano II ensinou que a Igreja é sacramento ou sinal universal de salvação (LG 48), quando então a pessoa individualmente se faz sinal desta salvação, ela contribui na missão de toda a Igreja. Neste sentido, ninguém recebe os sacramentos apenas para si, mas os recebe para a Igreja; melhor ainda, a Igreja os recebe em seus membros. O fiel recebe os sacramentos primordialmente para poder ser sinal na Igreja que é sinal universal.
            Por meio dos sacramentos a Igreja se relaciona com a pessoa. Ela lhe dá a graça de Cristo que possui em seu meio. Insere o indivíduo no seu convívio de comunhão. A relação é de acolhida e de envio. Assim como Cristo acolhe as pessoas para estarem com ele, fazerem a experiência da intimidade com Deus, depois os envia para o mundo com a missão de fazer novos discípulos; assim também a Igreja introduz seus filhos na comunidade de fé e de amor para daí, mandá-los à missão. Quão importantes são os sacramentos no relacionamento eclesial!

A comunhão eclesial
            Quanto mais os indivíduos se abrem para a promessa e o desafio dos sacramentos, tanto mais a Igreja se constrói, pois é na comunhão eclesial que ela se realiza. Pode-se dizer que é nos indivíduos que acontece a salvação de Deus por meio dos sacramentos, mas isso supõe o sacramento da comunhão eclesial. Cada indivíduo que na fé recebe os sacramentos dá sua resposta à Igreja e se coloca à sua disposição no discipulado pessoal em prol do serviço da salvação. É o lugar do indivíduo na Igreja onde assume a missão dela.
            Todo rito, estabelecido pela Igreja, cria o acontecimento celebrativo, o agir da Igreja, e esse se constitui a forma da qual Deus faz uso para conceder sua graça ao indivíduo. Na comunhão eclesial, então, existe a íntima relação entre o agir divino e o humano, e não podem ser separados. Deus age no agir da Igreja. Afinal, é a Igreja que recebeu de Jesus Cristo a missão de batizar, de fazer memória da Ceia...
            A comunhão eclesial é expressa privilegiadamente na liturgia dos sacramentos ao ponto de se dizer que os sacramentos são liturgia. Os sacramentos estão inseridos na oração da comunidade que celebra a tal ponto de não ser possível isolar aquele que recebe daquele que distribui: indivíduo e Igreja. A íntima comunhão produz graça para toda a Igreja, não somente para a pessoa.

Conclusão
            Não resta dúvida: os sacramentos são de extrema importância para a construção e a realização da Igreja. A Igreja, na sua missão de continuar na história a ação de Jesus Cristo, convoca e reúne constantemente as pessoas para levá-las ao encontro salvífico com Deus. Esse encontro com Deus, proporcionado por Jesus Cristo e atualizado na Igreja, tem sentido quando atinge seu alvo: a salvação do ser humano, individual e comunitariamente.
            Os sacramentos da Igreja oferecem ao ser humano esta possibilidade doe encontro com Deus; colocam-se como mediadores entre os dois, o Deus infinito e o ser finito. São como que a “proteção” que encobre a pequenez do humano finito. A comunicação entre humanos e Deus sempre depende de mediação. Esta necessariamente deve ser histórica e concreta para atingir o homem terreno. Torna-se isso possível por meio de palavras, figuras e simbolizações, que são as palavras, as figuras e simbolizações ditas pela Igreja em seus sacramentos aceitos eficazmente na fé dela e de cada pessoa que os recebe.


Pe. Mário Fernando Glaab

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Hunsrickisch Spessje

DE KLUCHE EINSTEIN UN DIE SCHEEN BLONDE
Es wor mo emol passiert dat en orich kluche Mann wo so riisich eglich wor, un wo Einstein gehees hot, sich mo mit so en orich scheen blondes Medche getrof hat. De kluche Mann, wo jo doch blos an gescheide Sache gedenkt hot, hat dat Blondes gonet beobacht un seine Scheenheit erst recht net gesien. Vun der annere Seit awa, dat Blondes hat de Mann mo so gans ongekuckt, von owe bis unne. Hat so heelich fa sich gedenkt: “ich mist doch dem Kerl mo en Proposte mache: vieleicht kan das noch en Kilo gewe!” Hot sich mo die Kurasch genom un saat zum Einstein, wie er groat so bische am zimmeliere woa: “Entschuldiche, awa stell dich doch mo voa, wen mea zwoi uns heirate tere, dat kent was Unaausagewehnliches gewe, dei gross Kluchheit un mei Scheenheit vemischt. En Jung fora de comum. Não é memo?”
Do hot erst de kluge Einstein mo sei Kaffiche unnageschlickt, gukt mo so iwa sei Bril no dem Medche; net von owe bis unne, awa noore an die blonde Hoa, un dan erklert er: “Mechlich is das schun, awa man kan es ach vun der annere Seit guke: was vo en Bist kan do komme wie Resultad von mei Eglichkeit un von dei Dummheit!”.
Barbaridade! Es is doch schun Allehand uff der Welt passiert, un fast Alles kan man vun zwei Seite sien. Ma deff halt net schnell sicha sin iwa das was ma gedenkt hot.
Glaabsmário

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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

JESUS, O CRISTÃO E OS POBRES

A OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS POBRES

            Muito se tem falado sobre a opção preferencial pelos pobres. Mas, talvez ainda hoje existam pessoas, e não poucas, que ainda não estão convencidas da importância fundamental desta opção que a Igreja fez e continua fazendo. Isso provavelmente se deve pelo fato de tais pessoas jamais terem parado para levar a sério a questão. Geralmente impulsionados por preconceitos antirrenovadores e instalados em seu comodismo descartaram qualquer possibilidade reflexiva. Pobre, na sua concepção, é um vagabundo, um azarado, e pior, alguém que perturba o bom andamento das coisas, inclusive da Igreja. Quando muito, é objeto do desencargo de consciência, pois oferece oportunidade de “fazer caridade”. Essas pessoas nunca tiveram coragem para observar como a Sagrada Escritura apresenta Jesus de Nazaré, um pobre; porém, contrariamente ao modo dos evangelhos, veem Jesus como o Cristo todo poderoso que está rodeado por anjos que o servem dia e noite. Jesus, para eles, na verdade, não tem nada de haver com a realidade dura dos pobres da Palestina de então, e muito menos, com os de hoje. Ele é Deus, e está acima das misérias desses infelizes!

Para ser discípulo de Jesus é preciso optar pelos pobres
            Por que a Igreja opta preferencialmente pelos pobres? Caso a Igreja queira ser verdadeiramente cristã, isto é, ser a Igreja de Jesus Cristo, aquele anunciado pelos apóstolos e revelado nos evangelhos, não pode se furtar a ser discípula, pois ele é o Mestre. Como discípula necessita colocar-se no seguimento e isso implica fazer o que o mestre faz.
            Do começo até o fim Jesus de Nazaré se apresenta como pobre e está entre os pobres. Não porque é miserável ou infeliz, mas porque como pobre está totalmente livre para se relacionar com o Pai que cuida de todos. E, como pobre entre os pobres, pode lutar pela vida em plenitude para todos. Não tem preocupação alguma em defender o que é dele ou de algum grupo privilegiado. É livre com relação aos bens que sabe serem dons da gratuidade do Pai que criou tudo para o bem de todos. Ele defende antes de tudo as pessoas para que tenham acesso aos bens do Pai como garantia de vida. Não admite, de forma alguma, o acúmulo desses bens nas mãos de gananciosos, pois quando isso acontece, automaticamente faltam para os outros.
            Se o Mestre é assim, seu discípulo não pode ser diferente. Sendo que os bens atraem terrivelmente, são tentação constante para todos, e continuam a atrair, o seguidor de Jesus precisa renovar sempre de novo sua opção pelos pobres e pela sua própria vida pobre. A mesma coisa vale para a Igreja. A Igreja é a comunidade dos discípulos de Jesus. Se ela não renovar constantemente seu compromisso com o Mestre, também ela se prende aos bens, às honras e ao poder. Ao invés de seguir a Jesus, apontando sempre para a liberdade dele, ela se torna autorreferencial: chama a atenção sobre si mesma. E, é fácil compreender que, ao se ver sem grandes virtudes, direciona o olhar para os bens que acumula. Esconde-se atrás daquilo que deveria ser de todos, mas que não o é, pois carece aos necessitados. É, portanto, inconcebível uma Igreja que não tenha coragem de optar sempre de novo pelos pobres, uma vez que Jesus foi o pobre e optou conscientemente pelos pobres.
            Poder-se-ia levar adiante a argumentação citando a pobre Virgem de Nazaré, a preferida de Deus, muito outros personagens bíblicos e os santos da história da Igreja, os mártires de ontem e de hoje, todos eles pobres e inseridos na vida dos pobres; mas basta uma referência.

Quem são os pobres?
            Jesus era pobre, esteve em meio aos pobres, o discípulo dele igualmente é pobre e precisa estar entre os pobres, e a Igreja, se quiser ser autêntica, não pode seguir por outro caminho. Pergunta-se, para esclarecer mais, quem é afinal o pobre? O teólogo Jon Sobrino, profundo conhecedor da pobreza em que grande parte da população latino-americana vive, assim define o pobre: “pobre é aquele para o qual a vida é uma carga pesada, pois não pode viver com um mínimo de dignidade”. E explica que é a pobreza é o que mais se opõe ao plano original do Criador da vida.
            Pobres são, então, todos aqueles que sofrem humilhações por lhes faltarem os bens necessários para o corpo ou para a alma. A vida lhes é um peso; sua dignidade é negada. Claro que existem graus de pobreza. Mas, seja qual for, ela é sempre contrária à vontade do Criador. Importante ainda é raciocinar corretamente, se a vida lhes é um peso ou se a dignidade lhes é negada, alguém coloca peso em seus ombros, alguém está negando dignidade... É a injustiça que rege o relacionamento entre as pessoas. Injustiça que possui tantos tentáculos: opressão, exploração, exclusão, discriminação, desconsideração, violência etc. A dignidade é negada quando por qualquer motivo alguém é tratado como objeto e não como sujeito. Nem é preciso ser assíduo observador para perceber que na sociedade servem os que são produtivos (para os ricos), mas quando não conseguem mais produzir, são descartáveis. Lamentavelmente isso acontece até mesmo entre grupos religiosos. Todavia, estes são os preferidos de Jesus, de seu discípulo e da Igreja.

Jesus e a religião
            Jesus, ao revelar o projeto do Pai, não estava preocupado em formar uma religião, mas em mostrar às pessoas o valor da vida. Por isso, o Reino que ele anunciou estar próximo, é o Reino da justiça, da paz, do perdão e da alegria. Nele todos haverão de possuir vida em plenitude. Esta é a vontade do Criador. Se a partir da pregação e dos gestos de Jesus, com a força do Espírito Santo, se formou a religião cristã, ela deve estar ao serviço desse Reino. Pode-se afirmar que Jesus não veio ensinar uma religião, mas uma maneira de viver; vivendo, defendendo e cultivando a vida. A religião deve religar as pessoas e as comunidades a esta nova vida.
            A Igreja, em toda a sua organização, não pode ter outra finalidade a não ser a de inserir seus membros na religião da vida. Existem muitas maneiras de fazer esta inserção, contudo, nunca uma opção pode ser considerada autêntica se deixar para trás os pobres, isto é, quando a Igreja, preocupada com sua realização na sociedade, não se envolve diretamente com aqueles que mais gritam por vida, uma vez que estão ameaçados pela não-vida.
            A religião, quando desencarnada, pode nos ensinar uma moral ou um conjunto de normas a serem observadas. Essa moral e essas normas, certamente são boas, contudo, conforme Jesus, tudo isso não corresponde ao plano salvífico de Deus. Se a religião não se enfronha diretamente na vida dos deserdados do mundo não serve para nada. Leonardo Boff diz que “as blasfêmias dos pobres são súplicas diante de Deus”. Somente consegue entender a profundidade dessa afirmação quem de fato descobriu Deus em Jesus de Nazaré. Jesus, o Pobre, o Injustiçado, o Condenado, o Crucificado, aquele que “blasfemou”: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Jesus, que como todo o pobre, grita, chora e morre, não deixa de suplicar diante de Deus. Deus que não se deixa vencer pelo mal que aflige seus filhos amados escuta o grito de cada um deles, como escutou o grito de Jesus.
            O que dizer das “religiões” que gritam ou ensinam a gritar, não porque são pobres, mas para defender seus bens, ou para alcançar sempre mais riquezas? Não é está uma heresia? A heresia da prosperidade - teologia largamente difundida em nossos dias?

Igreja a serviço da vida
            Ao enveredar pelo caminho do Evangelho as coisas recebem nova luz. Todo preconceito diante do pobre perde seu sentido. A boa notícia trazida e vivida por Jesus de Nazaré inverte tudo. Deus não deseja a pobreza, e o pobre não é um castigado. O pobre é criatura e filho do Pai tanto quanto todos os demais. Ele está nesta condição porque alguém, nunca Deus, o jogou aí. Ele merece justiça, pois Deus não admite que alguém sofra carências, uma vez que colocou todas as coisas ao dispor de todos. A justiça que o pobre reclama é ouvida por Deus, e por isso, Jesus opta pelo pobre e o ajuda a se levantar. Contudo, como Jesus não pode fazer o que eu, você, e cada um devemos fazer; ele conta conosco: “Ide!”.
            A igreja é a comunidade dos discípulos de Jesus que entendeu seu projeto de vida e por isso se coloca no caminho de Jesus. Ela promete salvação a todos os que se colocam a serviço da vida junto aos últimos, junto dos menores. A salvação se inicia entre eles e vai crescendo, como fermento na massa, até atingir a realização completa quando Cristo será tudo em todos. Opção preferencial pelos pobres é essencial para a Igreja. Sem essa opção ela não pode ser a Igreja de Jesus de Nazaré, e se não o fizer, também não pode levar ninguém à salvação eterna.
Pe. Mário Fernando Glaab

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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Reflexão sobre o conteúdo da fé cristã

DOUTRINA CRISTÃ SEMPRE REINTERPRETADA E VIVENCIADA

Pe. Mário Fernando Glaab
           
Quem quer ser catequista deve conhecer o conteúdo a ser transmitido, isto é, a doutrina da Igreja. Várias vezes se explicou que conhecer implica, bem mais que possuir intelectualmente um conjunto de respostas codificadas, na experiência vivencial das verdades, que em última instância consiste no “conhecer” e no “seguir” passo por passo a mesma doutrina: a experiência do encontro sempre renovada.

Doutrina traduzida em nova experiência
            Contudo, vem a pergunta sobre a doutrina. Ela é sempre a mesma ou ela está sujeita a modificações? Para responder a esta questão é preciso ter bastante cuidado. Ao se dizer que o conteúdo da fé cristã é o próprio encontro com Jesus Cristo, sem dúvida, está se declarando a permanência dele; porém, ao se individualizar tal encontro para as pessoas historicamente localizadas, afirmam-se novas aproximações que sempre reinterpretam o mesmo conteúdo. Então, levando em conta que já nos primórdios a Igreja empreendeu esforço gigantesco para traduzir sua doutrina que fora condensada no conjunto de escritos e tradições, comumente aceitos como a Bíblia, para que pudesse ser compreendida e aceita pelos povos que aos poucos iam sendo evangelizados; também hoje a mesma doutrina necessita de tradução. Se no final dos primeiros séculos, com muito trabalho dos Padres da Igreja, de concílios e de missionários, a Igreja chegou a um corpus fundamental, que ela considera ser a sua “doutrina”, ela sempre retorna a ele com olhar crítico, para que também hoje esse conjunto de doutrina possa dizer algo para as pessoas que enfrentam novos desafios e têm novos anseios de vida. É o trabalho específico da teologia e da pastoral aplicada.
            Se a doutrina de nossa fé for considerada como revelada não se pode, todavia, esquecer que tal revelação ocorreu na história concreta das pessoas e de um povo. Assim também ela se faz doutrina para o homem de hoje na e através da reflexão do crente que se descobre envolvido por ela em sua história e na história de seu mundo. A experiência que os destinatários da revelação tiveram em sua vida histórica pode, e deve, se repetir para nós como para eles. Tudo o que eles vivenciaram também nós somos chamados a vivenciá-lo por nós mesmos. Ao sabermos que eles “descobriram” que Deus é Pai que perdoa sempre e incondicionalmente, igualmente nós, ao nos encontrar com Jesus, também nos convencemos e aceitamos na fé responsável o perdão do Pai. Para que a revelação seja viva, nós a acolhemos com total liberdade, e criticamente nos sujeitamos ao que Deus está dizendo também a nós. Se assim não fosse, estaríamos repetindo doutrinas vazias, e cairíamos em fideísmo cego.

Prática interpretativa
            Importante é notar que existe uma diferença entre nova interpretação e nova experiência. As interpretações podem permanecer apenas como frutos de novas culturas e de novas situações históricas; as experiências passam além. Também elas estão inseridas nas culturas e nas situações históricas, mas ao interpretar dão vida para ela, deixam-se envolver. Dessa forma, o conteúdo da fé deixa de ser buscado somente em conceitos teológicos teóricos que podem ser entendidos em determinada cultura ou época, mas desce para o espaço do prático e do experiencial. É aí que se encontra a terra fértil onde se pode cultivar a vivência cristã. Na América Latina não é novidade falar das teologias da práxis, isto é, pensar teologicamente a partir da vivência da fé em situações bem concretas, no caso, das terríveis injustiças causadoras de exclusão de grande parte da população do necessário para a vida digna. Os movimentos litúrgicos de renovação e da catequese são outros exemplos.
            Disso pode-se concluir que uma reinterpretação do conteúdo da fé cristã – doutrina cristã – é mais que interpretar de novo. É, na verdade, encontrar-se, em Jesus Cristo, com esse Deus que está presente também hoje em nossa vida e história. O que Deus revelou aos personagens bíblicos, ou aos personagens que fizeram história antes que nós, também o está revelando a nós. Sua ação é tão viva e atuante na atualidade como esteve no momento inaugural. Portanto, Deus se comunica a quem ouve hoje a sua mensagem com o mesmo amor com que falou aos primeiros destinatários. A compreensão do crente hoje não fica na esfera limitada de comentar ou apenas interpretar, mas remete à presença viva que continua chamando. Quem responde a esse chamado de presença, apoiado nela e graças a ela, experimenta-a em seu tempo, em sua cultura e onde se encontra. Verifica-se, assim, a verdade da própria doutrina: quanto mais experienciada, tanto mais confirmada na vida concreta da comunidade de fé.

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Quando preparar é preparar-se

CATEQUISTAS RENOVADOS

            Formar catequistas, segundo o espírito da catequese renovada, para uma ação transformadora de educação na caminhada da fé é bem mais do que ensinar elementos do conteúdo catequético ou teológico cristão. Muito menos é impor um conjunto de leis morais para serem observadas. No processo formativo, tanto dos catequistas quanto dos catequizandos, não se pode deixar de levar em conta a consciência de que é a Palavra de Deus que tem poder transformador e renovador, não a palavra do pároco ou do catequista. Isso implica em deixar que a Palavra transforme e forme a ambos: o formador e o formando.

Palavra e ação de Deus se identificam
            Partindo do princípio de que a Palavra de Deus e a sua ação se identificam – Deus fala e o que ele fala acontece -, deve-se saber que é necessário experienciar a força desta Palavra no acolhimento e na ação concreta onde ela é vivida. Os pastores e os catequistas, antes de tudo, hão de renovar sempre de novo esse processo em suas vidas; não apenas revisar as doutrinas que aprenderam, ou pior, esquematizá-las para um encontro. Precisam continuamente se colocar na atitude do discípulo que é a de ouvir e seguir, acolher e se converter. Como segundo passo, estes que se colocam constantemente no discipulado, como tal, lançam a semente da Palavra em todos os terrenos. Não pode haver preconceito ou discriminação. O catequista precisa ter total liberdade para semear sem ser direcionado a estes ou aqueles, mas a todos. Todos os terrenos são objeto da semeadura, pois não é a palavra do catequista que será anunciada; ela não tem força em si, mas a Palavra de Deus que é lançada sobre todos, ela é força de Deus, uma vez que Deus quer que todos sejam salvos. O catequista necessita evitar a tentação de achar que em alguns terrenos não vale a pena semear, uma vez que são áridos, pedregosos, ou infestados de ervas daninhas. Quem sabe, é lá que mais semente precisa ser semeada! Deve acreditar na qualidade da semente.
            A preparação do terreno no processo de semear, ou de catequizar, não deixa de ter importância, é grande. Porém, ao arar o campo, o catequista não pode se furtar da tarefa de se arar a si também. Arar-se e arar a terra onde a Palavra será lançada. Preparar o seu próprio terreno pode ser entendido como acolher sempre de novo a mensagem cristã de Deus que está conosco e que quer todos unidos. No ato de acolhida já está latente a conversão para a união. Deixar que a força da Palavra de Deus frutifique em atitudes concretas que levem ao outro; para assim jogar a boa Semente sobre ele sem reservas. Arar o terreno do outro consiste, a partir dessa visão renovada, ajudá-lo a entender que ele é alvo do amor ilimitado de Deus, e que Deus o quer junto dele, não porque o mereça, ou porque tem alguém que o está pedindo, mas somente por amor gratuito. Anunciar essa boa notícia transforma e converte, pois ela é a própria Palavra de Deus que é ao mesmo tempo ação de Deus.

Conhecer e compreender
            Na formação dos catequistas é muito importante o conhecimento da doutrina, da tradição da Igreja, dos métodos pedagógicos sempre em evolução. Também é importante levar em conta a psicologia e a situação concreta, a sociedade atual em que estão as crianças, os adolescentes e os adultos que são catequizados. Nada, no entanto, é tão importante que substitua o conhecimento vivo – a busca constante de viver – do amor de Deus revelado em Jesus Cristo, e que se experimenta na comunhão com todos que estão no mundo, cheio de coisas boas e também de coisas ruins. Esse conhecimento somente se adquire num processo contínuo. Adquire-se adquirindo. Vive-se buscando viver. É o compromisso livre em favor da vida. Vida para si e vida para os outros. E, quando se fala do compromisso livre quer-se igualmente respeitar a liberdade do outro. O catequizando nunca pode ser dominado! Ele precisa ser respeitado na sua liberdade. O catequista bem formado, que conhece e sempre busca mais vida, saberá respeitar a livre abertura de seu catequizando. Apenas lança a semente, sabendo que ela é boa por ser a semente da Palavra de Deus; valoriza cada resposta que esse dá, sem impor nada.
            Talvez um grande erro no trabalho pastoral de nossos dias seja que quando o assunto é catequese, ainda se quer “preparar para” os sacramentos, ou mesmo, como ultimamente se diz, “para a vida”. Escondido por de trás desse “preparar para” pode estar uma falsa convicção: o catequista está preparado, o catequizando não! Dando a devida importância para Palavra de Deus, como foi anunciada e vivida por Jesus de Nazaré, esse processo se transformará e se renovará e, quem sabe, poderá produzir frutos de conversão, não somente dos catequizandos, mas também dos catequistas, incluídos aqui também os párocos. O catequista estará mais consciente do valor da Palavra, diminuindo a sua palavra; e o catequizando saberá acolher e valorizar uma experiência mais genuína da Palavra e da ação de Deus-amor em seu processo de vida, como resposta de fé livre.

            Portanto:
            A prioridade em todo trabalho formativo, tanto do catequista quanto do catequizando, está sempre na consciência da força da Palavra de Deus; não da palavra e da humanas.

            A Palavra e a ação de Deus se identificam. Sua Palavra é eficaz. O catequista não pode classificar as pessoas para catequizá-las. Precisa se dirigir, ou direcionar a todas.

            No processo da “preparação do terreno”, o catequista tenha consciência de que sempre de novo precisa se preparar. Isso se faz na conversão contínua que a Palavra nele provoca. Tenha também a preocupação de ajudar o catequizando a preparar seu terreno em vista da Semente que nele será semeada.

            Toda a formação está baseada na vivência concreta da Palavra que se traduz em busca contínua de comunhão. Experimentar Deus-amor no compromisso com a vida de todos.

            “Preparar para” consiste em “preparar-se”; “preparar-se” consiste, por sua vez, em ajudar o outro a “estar preparado”.


Pe. Mário Fernando Glaab
www.marioglaab.blogspot.com